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Zibaldone

Zibaldone

15
Jan15

Os sons do silêncio

Francisco Freima

fertagus.jpgHá uns anos atrás, lembro-me de ir até Lisboa ao som de músicas que não eram «minhas», mas que tinha de suportar. Os comboios estavam então tomados pelo acordo entre Fertagus e RFM. Por todo o lado, a música comprimia o silêncio dos que queriam conversar, ler ou, como eu, descansar. Entre o descartável da moda e o clássico ocasional, os meus pensamentos fugiam para questões ligadas à liberdade, aos limites  impostos pela mesma, sob pena de se tornar totalitária para quem usufruía dela. Lembro-me de chegar ao absurdo de formular ideias como «a tirania é a liberdade de um homem só; a ditadura é a liberdade da opressão; o que distingue uma democracia de uma ditadura é o conceito de tempo: para uma ditadura, ele é fluido. Para uma democracia, estanque. As ditaduras baseiam-se na hegemonia de um interesse absoluto, enquanto as democracias baseiam-se na relativa harmonia de interesses relativos… esta música é irritante... O silêncio é a harmonia absoluta.»

 

Hoje em dia, reinando novamente o sossego, sinto o reflexo condicionado de quem espera a música. Os vagões, porém, devolvem-me o silêncio. Talvez seja um eterno insatisfeito, mas esta situação pouco me compraz também. O primeiro silêncio era puro. Entrava e nem conseguia imaginar que alguém pudesse colocar música num comboio cheio de gente a caminho da escola ou do trabalho. Parecer-me-ia até um pouco orwelliano. Afinal, era a minha liberdade que estava em jogo. Já o segundo… Posso atribuí-lo às reclamações dos utentes ou a um ataque de lucidez da empresa, mas não sei. Fico sempre com a sensação de que um espírito habitou aqueles comboios durante uns tempos, e depois fartou-se e foi embora. Alguém andou a dar música a milhares de pessoas, a chamada «mão invisível» tornou-se dj por uns tempos.

 

E o silêncio jamais voltou a ser o mesmo.

10
Jan15

O peso das palavras

Francisco Freima

jimi-hendrix.jpgÀs vezes oiço algumas pessoas lastimarem a qualidade do português enquanto língua musical. Ainda há pouco tempo, numa entrevista concedida ao programa Bairro Alto, ouvi Luísa Sobral dizer algo parecido. A certa altura, a cantora declarou que quando compunha em português «as palavras soavam pior» (estou a citar de memória). Confesso que após a entrevista não pensei muito no assunto. Mas com os dias a passarem e com a necessidade de escrever alguns textos, comecei a ponderar esse desabafo. Será a nossa língua assim tão difícil? Será que os outros têm razão quando dizem que o português não tem a musicalidade do inglês?

 

Acerca do primeiro ponto, talvez tenha a ver com a nossa exposição àquilo que é lançado na atmosfera. Até a pessoa mais alienada da alienação tem de levar em algum momento com o pior da música nacional. No que toca ao estrangeiro, a música é diferente. Embora muito do seu lixo polua as nossas ondas hertzianas, ele acaba por ficar à porta do orgulho pátrio. Além disso, a música importada costuma ser a melhor do pior que se faz por lá. Aqui, para o bem e para o mal, estamos no mesmo tubo de ensaio. Se perguntarmos a um inglês, provavelmente ele dirá que a nossa música não pode ser tão má como a pintamos (neste caso, temos a preciosa ajuda do seu desconhecimento do pimba). Assim, se o pusermos a ouvir as nossas melhores bandas, ele ficará com uma boa impressão. No entanto, nós sabemos que estamos a filtrar o melhor, exactamente aquilo que fazemos em relação à música que chega a Portugal. Ficamos com o bom e descartamos o mau. Este mau, escusado dizer, nunca é percepcionado como nosso.

 

Ainda neste ponto, e voltando às palavras da Luísa Sobral, é fácil compreendê-la. Nem é preciso compor uma letra para vermos o peso do ridículo sobre certas palavras: Amor, paixão, alma, coração… No pimba todas elas acabam vandalizadas. Noutro plano, vale a pena lembrar a explicação de Fernando Pessoa para ter mudado o título da Mensagem:

 

««O meu livro "Mensagem" chamava-se primitivamente "Portugal". Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar — a observação era por igual patriótica e publicitária — que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia. «Quer V. pôr o título do seu livro em analogia com "portugalize os seus pés?"» Concordei e cedi, como concordo e cedo sempre que me falam com argumentos.»»

 

Quanto à musicalidade, basta ouvir o melhor da lusofonia para descartar qualquer espécie de inferioridade. Mais: para nós, que o sentimos como nosso, acaba mesmo por ser melhor. É fundamental que bons artistas, como é o caso da Luísa Sobral, continuem a escrever e a cantar em português. A nossa cultura depende deles.

05
Jan15

Listar o nada

Francisco Freima

caos calmo.jpgO ano chegou ao fim. Como noutros anos, muitas listas de álbuns foram compiladas. Alguns consideraram A melhor que B, outros que B foi prejudicado pelo hype de A, enquanto outros quiseram conciliar todos com C. Nisto, um exaltado dos D apareceu de rompante e abalroou todas as declarações amigáveis acerca de A, B e C. Estalou uma discussão de proporções épicas, até que, qual Deus ex machina, Variações desceu a cantar: «Quando fala um português, falam dois ou três e o seu número a aumentar...»

 

Nada me move contra as listas. Tenho até bastante simpatia por elas, boa parte dos meus dias são consumidos ao estilo de Pietro Paladini no romance/filme Caos Calmo. Além de ajudarem a passar o tempo numa fila qualquer, exercitam a memória e podem revelar-se úteis na organização de material disperso, na identificação de padrões.

 

Feita a apologia, chateia-me ver o pessoal desatinar por dá cá aquela malha. O acto de fazer uma lista é sempre subjectivo. No entanto, pode apresentar cambiantes: quando é uma lista individual, é subjectivo; quando é colectiva, é um acto subjectivo e de compromisso. Outro pormenor: costumam ser relativas àquilo que conhecemos. Se alguém ouviu apenas um álbum de 2014, e gostou dele, para essa pessoa será o melhor do ano. Para outra, pode nem entrar na sua lista. Aqui, impõe-se o bom senso. No limite, o melhor álbum de 2014 não existe. É impossível que alguém tenha tido tempo para ouvir toda a música produzida no mundo. Logo, vale a pena ser tão assertivo quando o que consumimos é a amostra de uma amostra inserida no universo musical? Basicamente, a maior parte de nós é detentora de uma amostra do que foi feito em português e em inglês no último ano. Essa amostra nem chega a ser o todo da música em português e em inglês, que, por sua vez, é apenas uma amostra do universo musical mundial. Daí que a discussão só possa surgir da comparação entre o que conhecemos. Se um gosta dos War on Drugs e o outro prefere o Sun Kil Moon, que fazer? Discutir com argumentos. Isto é especialmente válido para quem escreve sobre bandas nacionais: Capitão Fausto ou Mão Morta? Ou Sensible Soccers? Ou Gala Drop? Ou tantos outros?

 

Eu penso assim: se fosse músico, gostaria de ver o meu mérito apoucado com base num facciosismo que a todo o custo quer pôr outro no pedestal? Não. Se fosse músico, gostaria de ver o pessoal a debater a letra ou a composição, o instrumental ou a voz. Críticas construtivas: «ele tem voz de barítono, devia expor-se menos aos agudos.» Dizer «não gosto da voz dele», parece-me demasiado taxativo. Se existir público que gosta, vale a pena perder tempo a reclamar de uma coisa que não está nas mãos dele mudar? Ou muda ele de voz ou mudamos nós de gosto? A primeira é impossível; a segunda, improvável.

 

A fazer uma lista, seria de resoluções de ano novo: «Combater discussões parvas sobre os melhores álbuns do ano como quem combate discussões parvas sobre quem merece a Bola de Ouro: “é a perspectiva, estúpido!”»

01
Jan15

Resolução

Francisco Freima

Quero descobrir o sol no horizonte,

A estrada que me leva até ao mar,

O trilho da montanha, quem se esconde

Numa densa floresta a meditar.

 

Quero perceber o distante, o longe

De estarmos juntos para partilhar

As estrelas que brilham no céu à noite

O mútuo desejo em cada lugar.

 

Quero sentir a terra sob os pés,

Nas minhas mãos o cheiro da maçã

Evocando o sabor a quem-tu-és.

 

Quererei ser então crença pagã,

Até três contar o número dez

E ver-te ao acordar pela manhã.

 

Francisco Freima

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