Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Zibaldone

Zibaldone

10
Fev15

Traduções tentadas

Francisco Freima

 Mihai Eminescu, Glossa

 

Mihai Eminescu, Glosa

 

Tempo passa, tempo vem,

Tudo é velho e novo tudo,

O que é mal e o que é bem

Tu indagas neste mundo.

Não almejes e nada temas,

O que é onda como onda passa;

Peçam eles, clamem elas,

Tu manténs-te frio à farsa.

 

Muitos passam por diante,

Aos ouvidos chega muito,

Quem pode ter isso em mente

E pachorra para o assunto?..

Tu sentas-te de lado,

Na senda de um além,

Quando com o vão boato

Tempo passa, tempo vem.

 

Nem inclina a eles a vista

Teu olhar frio na análise

Por onde a mesma medida

Não cede ao gosto fácil

Que seu falar promete

Às calendas de um futuro.

Para quem os conhece

Tudo é velho e novo tudo.

 

Espectador num teatro

Tu no mundo te imaginas;

Encenem qualquer acto

Que nos rostos adivinhas

O choro, a má vontade,

Tu ao canto vês além

E percebes na sua arte

O que é mal e o que é bem.

 

O futuro e o passado

São faces da mesma moeda,

Vê no fim o iniciado

Ao atingir sua meta;

Tudo o que foi ou o que será

No presente vive em tudo,

Mas que valor nele há

Tu indagas neste mundo.

 

Pois só através desse meio

Se sujeita quanto existe,

E por milénios, receio,

Foi o mundo alegre ou triste;

Outro actor, a mesma peça,

Outro rosto, as mesmas cenas,

A constância da quimera,

Não almejes e nada temas.

 

Não almejes ao ver vilões

Tomando para si os louros,

Nem concorras com bufões

Se brilhas perante todos;

Nada temas, que eles tecem

Nas intrigas sua praga,

Nem queiras camaradagem:

O que é onda como onda passa.

 

Com um canto de sereia

O mundo faz luzir as redes;

Como aranhas numa teia

Enredam-te sem saberes;

Ao seu convívio escapa,

Não respondas a balelas,

Do seu caminho afasta-te

Peçam eles, clamem elas.

 

Ao atingirem-te à traição

A ofensa guarda em silêncio;

Mais não queiras que a razão

Se sabes o seu estipêndio;

Digam eles o que disserem,

Passe quem no mundo passe;

Como os que nada temem,

Tu manténs-te frio à farsa.

 

Tu manténs-te frio à farsa,

Peçam eles, clamem elas;

O que é onda como onda passa,

Não almejes e nada temas;

Tu indagas neste mundo

O que é mal e o que é bem;

Tudo é velho e novo tudo:

Tempo passa, tempo vem.

 

Mihai Eminescu

9 de Setembro/Dezembro, 1883

04
Fev15

Da influência (III)

Francisco Freima

music fans.jpgAlém das influências negativas e positivas sobre a música, existem aquelas que são neutras. No entanto, estas, consoante as circunstâncias, podem ganhar sinal mais ou sinal menos.

 

A adolescência é a época de descoberta por excelência. Nela começamos a projectar os fundamentos da nossa identidade. Durante esses anos, a música joga um papel importante, define quem somos na intricada visão que os outros têm de nós. Ao recebermos influências em determinada direcção, presume-se que para aí nos encaminhamos. Quando concordamos em ouvir algo que foi recomendado nessa direcção, existem dois aspectos a ter em conta. O primeiro trata da pessoa que recomenda. Se a banda dada a conhecer é a pedra-de-toque da sua existência, dificilmente vamos conseguir apropriar-nos dela. Ok, gostamos, conseguimos ouvir e está perfeitamente de acordo com aquilo que somos. Apesar disso… bem, é a banda dele. Podíamos ter chegado lá sem ajuda, mas foi ele, o die hard dos Led Zeppelin ou dos Black Flag que nos fez lá chegar. O segundo ponto concorda com o primeiro, na medida em que a adolescência é a tal época de descoberta. Algumas bandas, que assimilei através do conselho daqueles que encarnavam o seu espírito musical, fizeram um caminho bastante diferente de outras que descobri por mim mesmo. De alguma forma, ficaram desvalorizadas no inconsciente, como se houvesse um condicionamento mental a impedir o reconhecimento. Consigo ouvi-las, consigo compreendê-las, mas falta a química, há sempre uma reserva qualquer. Levando para o humor, posso concluir pelo adultério: «É a banda dele, não me devo meter com ela!»

 

Em sentido oposto, a neutralidade torna-se positiva. Neste caso, a influência quase nem é para aqui chamada. Podem querer levar-nos nessa direcção, mas nós queremos mesmo ir. Fazemo-nos convidados para a festa do lado; procuramos conhecer por mera curiosidade; queremos entrar no universo de alguém através da música. Seja Tupac ou Radiohead, somos nós a tomar a iniciativa em mãos. Claro que continua a ser influência, mas é diferente. Apenas o último caso, o de conhecer alguém através da música, apresenta desafios. Porque, numa situação dessas, estamos a ouvir e a querer desvelar um pouco do enigma que o Outro representa. Entrar no seu universo faz sentido, se nos guiarmos pela intuição que ressuma em cada conversa gravada na memória. Estabelecemos pontos de contacto entre as suas palavras e a música, procurando ser fiéis ao sentido criado a pensar nele. No fundo, estamos a traduzir, mas não do original. O foco não somos nós, é o Outro. Traduzimos a música através de uma tradução prévia, associada à imagem que temos dessa pessoa. Quanto maior for o desejo de a conhecer, tanto maior será o entendimento – de ela e de nós mesmos.

02
Fev15

Da influência (II)

Francisco Freima

DSOTM.pngNa última crónica fiquei pelo lado apolíneo da influência. Mas, como é sabido, além do sol existe a lua. Isto não quer dizer que vou explorar o lado mais negro da questão, não sou nenhum Wagner. Também, e com muita pena minha, não escrevi nenhuma letra do The Dark Side of the Moon. Fico, à maneira de Erasmo com a Loucura, sob a regência suave da influência negativa.

 

A nossa vida proporciona uma série de situações com as quais nos confrontamos diariamente. Sejam boas, indiferentes ou más, tocam-nos. O pior que nos pode acontecer, a morte de alguém, um divórcio, uma rotura, deixa marcas indeléveis. E, às vezes, provoca danos colaterais, dos quais só nos apercebemos mais tarde. Porque nesses períodos estamos no epicentro, não nos podemos dar ao luxo de contemplar na margem o último anel de água. Só nos detemo nesses círculos depois de assimilarmos o essencial.

 

De vez em quando, esses danos reflectem-se na música. Por exemplo, se alguém que gostava muito de certa canção sai, por qualquer motivo, da nossa vida, é óbvio que os sentimentos em relação a ela podem mudar. Fica pesado ouvir aquele som evocando o passado, um momento onde apanhamos desprevenida a ignorância quanto ao futuro. Ouvimos, experienciamos um pouco o brilho da época, sabendo que temos um pé em cada lado. Torna-se doloroso confrontar o que há com o que havia.

 

Existem muitos casos desses, de canções que são autênticas caixas de Pandora, e nem sempre se baseiam nos outros. Somos apenas nós em nós mesmos. Uma banda sonora que nos levou na crista da onda pode virar o símbolo do nosso fracasso. Ao ouvi-la, podemos sentir a falsa segurança que tínhamos no futuro, lamentarmos tamanha ingenuidade, mas… que fazer? Às vezes, é só uma questão de tempo.

 

Também existem alquimistas. Dependendo apenas deles, ou de mais alguém, conseguem transformar o mood, tornando-o positivo. Enfrentam os seus fantasmas ou superam a alegria do passado com um presente de combate pela felicidade. Esses são os melhores.

01
Fev15

Da influência

Francisco Freima

grunge.jpgTodos nós já tivemos amigos que, em função dos nossos gostos, indicavam esta ou aquela banda, dando a conhecer uma parte futura de nós mesmos. Ao ouvir essas canções, ficávamos gratos, tanto pela música como pela generosidade.

 

Com os anos a passar, todo esse universo ganha um encanto especial. Quando pego num desses álbuns, é como se sentisse o momento e a história por detrás dele. Lembro a pessoa que o recomendou, os motivos que a levaram a associar-me àquele repertório. De cada vez, inconscientemente, é como se escrevesse um libreto. Nele misturo a primeira vez, a vez em que compreendi, a vez para cada instrumento, a voz ouvida… pela última vez. Lembro-me de ouvir os Nirvana no oitavo ano, por indicação de uma amiga. Naquela altura, era quase um analfabeto musical. As referências que trazia dos tempos da minha irmã estavam enterradas no esquecimento. Ela levara a música ao sair de casa dos nossos pais. Com o quarto só para mim, demorei três anos a perceber que tinha abandonado os sons. Numa tarde, porém, entrei em casa com um CD dos Nirvana, uma compilação de capa negra lançada em 2002. Era a primeira vez que punha à prova o que essa amiga tinha dito no ano anterior: a música renascia para mim.

 

Agora, ao ouvi-los, lembro a noção do tempo dessas músicas. Na altura pareciam durar muito, faziam-me sentir em três minutos o que era incapaz de sentir em três horas de PlayStation. Sendo uma banda norte-americana, não posso dizer que tenha compreendido imediatamente as letras. O meu inglês era demasiado curto. Além disso, hoje sei que muitas das letras do Kurt Cobain prestam-se a várias interpretações. Formei então a minha e segui em frente.

 

Mas não foi fácil, a fase Nirvana durou muito tempo. Sentia-me como Ulisses na ilha de Calipso. O tempo passava e eu continuava parado, a cristalizar. Já ouvia distintamente a bateria, o baixo, a guitarra... Ora, se eu escapara a ser duro de ouvido, porque razão ficaria agarrado a uma banda? Dirigi-me então às ilhas adjacentes, todas elas na rota do grunge: Alice in Chains, Green River, Mudhoney, Pearl Jam, Screaming Trees, Soundgarden… assim começou a minha odisseia.

 

Quanto à amiga, apesar de nunca mais a ter visto, costumo lembrá-la quando oiço Nirvana. E, claro, agradeço-lhe sempre do fundo do coração.

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor