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Zibaldone

Zibaldone

31
Jul15

Nossa Vergonha na Agonia

Francisco Freima

_-24.jpgDevo dizer que nunca vi nada assim. Fiquei bastante surpreendida com a situação, penso que ainda estou em choque, o que é normal... Quem esperaria uma coisa destas? A emoção tolhe-me os pensamentos, dificilmente conseguirei expressar a perplexidade de conhecer um país há tantos anos sem realmente o conhecer… por que me fizeste isto!?

 

Hum, suspense garantido:

 

– Chega para encher as primeiras linhas e levar o pessoal a ler mais?

 

– Nossa, ainda estás no ar!

 

– Ups... corta?

 

– É um directo, idiota…

 

Passo a explicar: uma homenagem à silly season, e também a todos os que postam coisas incompreensíveis na net. Para quem não percebeu, isto é o anti-blogue. Parafraseando um dos grandes pensadores da actualidade, «têm a mania que são chicos espertos! Expliquem ao povo, expliquem como conseguiram as certidões!..» Não se enerve, camarada Fiúza, certamente que a toxicodependente (cortesia do born to kill José Rodrigues dos Santos) ao sair do hospital passou pela conservatória e registou o recém-nascido. Para quê tanto alarido? Se dúvidas persistirem, Vitória e Boavista não são os mais indicados a responderem, mas pode sempre passar por Setúbal na primeira jornada (consta que jogam entre eles). No entanto, a decisão é sempre sua, pelo que uma visita ao Jardim Zoológico continua a ser uma opção válida – sugiro uma reunião com os elefantes, costumam ter boa memória...

Ah, Agosto chegou!.. Se Julho foi parvo, imagine-se o que vem a caminho: emigrantes! Não que a sua capacidade para a idiotice supere a nossa: afinal, somos todos portugueses. Nem tampouco me vou meter com aqueles que vêm ensinar os compatriotas a falar alemão, francês, inglês… gente bem-intencionada a oferecer cursos de borla. Os emigrantes aqui são apenas a sequela das sequelas que a Justiça tem deixado na nossa sanidade. A saber: a decisão do juiz Carlos Alexandre (CaLex para os amigos) de pôr polícias à porta da casa de Ricardo Salgado, em vez de os destacar para a fronteira. Decisão que até fez jurisprudência em França: polícia à porta do túnel em vez de controlo nos países africanos (lançar bombas não conta). Se querem ser mesmo parvos, façam como os australianos: um reality show em cenário de guerra...

 

Salgado já percebeu o que a maioria dos portugueses sabe: quando «Danados Disto Tudo», não devemos confiar na Justiça. Sem controlo alfandegário, resta-lhe pedir a Panoramix a poção capaz de ajudar a sua guarda pretoriana contra os intrépidos gauleses… também pode fugir pela passagem secreta – sim, homem, aquela que dá para a capela! Na sacristia, em vez do cálice, o capacete. Lá fora, em vez do jacto, o padre motard a afastar vampiros («Poupanças! Poupanças!») com a cruz dos Espírito Santo – tudo em nome do Pai, do Filho, do Tio, do Sobrinho…

 

No meio disto tudo, o remake do Pátio das Cantigas, a música pimba, o fadista que perdeu a Licenciatura devido à licenciosidade da Universidade (quem diria que ela era lésbica?). Agosto: e a procissão ainda vai no adro…

 

Assinado,

 

Nossa Vergonha na Agonia

30
Jul15

Nuno «Franco» Silva

Francisco Freima

1438372003_extras_noticia_foton_7_1.jpgAh, santa ignorância!.. Não se deixem enganar pelo estilo modernaço do Nuno Silva: ele pertence a uma geração que representa um retrocesso em relação à dos nossos pais. Infelizmente, ele pertence à minha geração.

 

E que geração é esta? Uma que pretende ser toda alternativa e mente aberta, mas não passa de um bando de jovens sem consciência política. Cool é ouvir música alternativa, praticar desportos alternativos, ter crenças alternativas, dietas alternativas, modos de vida alternativos… tudo menos ideias alternativas! Na hora de votar, é ficar em casa, ir para a praia, para o centro comercial ou votar no PS/PSD – normalmente, o estilo de vida alternativo acaba onde começa a urna… Cool também é ser mente aberta: basicamente, defender o politicamente correcto. O Nuno Silva acaba por ser o epítome dessa geração. Mas deixemos ele falar:

 

«É inacreditável o que está a acontecer, as redes sociais têm sido inundadas com ameaças à minha pessoa! Peço desculpa. Eu nem sei quem é o Franco, não tenho ideais políticos e nunca votei na minha vida!»

 

Posso repetir? Ah, santa ignorância!.. Oh, Nuno, tu não sabes quem é o Franco, mas eu tenho a certeza que no Vale dos Caídos houve um pequeno sismo: era o «Generalíssimo» a cismar por estes tempos. Imagino que o mesmo tenha acontecido em Santa Comba Dão: «ah, estes miúdos estão no ponto fascismo (perdão, rebuçado)… este até vem gabar-se de que nunca votou…».

 

O Nuno não tem ideais políticos e nunca votou na vida. Por mim, até preferia que fosse fascista, ao menos tinha uma posição. Pior do que um fascista é um Nuno Silva. Quanto a nunca ter votado, preferia que tivesse acrescentado que era anarquista. Mas não, o Nuno professa o comodismo – calma, Nuno, não te chamei nenhum nome (perdão, ideologia!). LOL «é inacreditável o que está a acontecer, as redes sociais têm sido inundadas com ameaças à minha pessoa! (os pontos de exclamação indicam uma pessoa que viu finalmente o poder da História, o que torna tudo mais divertido)». Inacreditável é uma pessoa da tua idade não saber quem foi o Francisco Franco!

 

Depois da peça António, Um Rapaz de Lisboa, que pretendia retratar a juventude portuguesa dos anos 90, temos Nuno, Um Futebolista Português, o retrato de uma parte ignorante (perdão, importante) da nossa juventude. Política? Naa, eu cá sou como o Cavaco, digo (perdão, visto) umas larachas mas não gosto nem de política, nem de políticos. Deus me livre… Fátima, Festivais e Futebol!

 

Quais terroristas do Daesh qual quê, estes homens e mulheres são a principal ameaça à segurança nacional. Quando estala o verniz modernidade, vê-se que não passam daquele tipo de português muito em voga entre o século XIX e os inícios do século XX: o trauliteiro. O trauliteiro deu-nos coisas tão belas como a Patuleia, a Maria da Fonte, o Remexido e, claro, o Reino da Traulitânia. É desta massa que se fazem as multidões dispostas a caucionar as ideias de um Salazar ou de um Franco. Obviamente, o Nuno não sabe nada disso. Até porque o Novo Cid (não, Nuno, não é o José Cid) faz parte da história de Espanha, que é para os espanhóis aprenderem… quem vive em Portugal tem mais do que saber (perdão, fazer).

 

P.S. – Estou curioso para ver a reacção dos juízes do Supremo Tribunal que condenaram Pablo Hasél. Se seguirem a mesma lógica, Nuno Silva utilizou uma conferência de imprensa para fazer a apologia da ditadura franquista. Inconscientemente? Bem, a ignorância devia ser crime. Dois anos de prisão para o Nuno ou a libertação de Hasél.

29
Jul15

Parábolas

Francisco Freima

O mar não traz apenas catástrofes como as do Mediterrâneo. Ontem, quando caminhava pela baía do Seixal, vi que o mar pode transformar-se em poesia, nem que seja por analogia. Os peixes são poetas a nadarem ao sabor da corrente (Simbolismo, Parnasianismo, Futurismo, Surrealismo…), correntes essas que são ditadas pela lua (a época na qual vivem). Quando se constituem cardumes (grupos como o Orpheu ou o do Café Gelo), começam a aparecer pescadores (críticos literários/políticos) que tentam minar o movimento. A pesca inicia-se (a perseguição movida a António Botto, Raúl Leal e Judith Teixeira pela Federação Académica de Lisboa e pelo Governo Civil; os confrontos com a polícia no 1º de Maio de 1962, no caso dos surrealistas) e alguns peixes acabam mesmo presos no anzol (como na divertida Operação Papagaio).

 

No mar existem peixes que nadam contra a corrente, tal como na poesia existem poetas que fazem o mesmo. Está provado que os peixes que nadam contra a corrente alteram os movimentos do seu corpo, sincronizando-os com os remoinhos que vão aparecendo durante a travessia. Segundo George Lauder, biomecânico da Universidade de Harvard, «é uma maneira de se moverem em águas turbulentas sem gastar muita energia». Os poetas que nadam contra a corrente costumam ter um estilo bastante diferente dos outros. Adoptam características de determinada corrente, dando, porém, um cunho muito pessoal, podendo mesmo contradizer essa corrente (por exemplo, um poeta do período romântico que fizesse do cemitério um locus amoenus). Agindo assim, são capazes «de se moverem em águas turbulentas sem gastar muita energia». Porquê? Porque, enquanto os Futuristas ou os Surrealistas estão preocupados em agitar as águas da sociedade, eles passam pelos intervalos da chuva. Nem a sociedade, nem os movimentos literários estão interessados nas suas obras, pelo menos no que toca ao potencial subversivo. Sendo vozes marginais, escapam ao turbilhão dos acontecimentos, o que lhes permite poupar energia e investi-la no refinamento subjectivo da sua poesia. Estes peixes que nadam contra a corrente fazem-no normalmente no período de reprodução, quando sobem o rio para iniciarem a desova, costumando aparecer no crepúsculo dos movimentos que levaram muitos numa mesma direcção. Transpondo para a filosofia política, seria como Sartre e Marcuse a nadarem na corrente marxista, enquanto Raymond Aron se debruçava na análise do fenómeno, chamando ao marxismo «ópio dos intelectuais». Em termos históricos, estes poetas seriam helenistas, a síntese da cultura grega que ficou para trás, com elementos que prenunciam uma nova época. A sua obra, quase impossível de rotular, ficaria debaixo do guarda-chuva onde normalmente se abriga essa categoria, a dos poetas de transição.

 

De todas estas correntes e contracorrentes surge a poesia das gerações vindouras, a rebentar no pontão ou deslizando suavemente pelo areal...

26
Jul15

Niilismo

Francisco Freima

Nem deus existe, nem nunca existiu,

Nem nunca existirá outra versão

De uma Bíblia, ou Tora, ou Alcorão

Que me faça ver o que ninguém viu.

 

O universo será sempre desvio

Gerado pelo caos em sua acção,

Nada absoluto numa dimensão

De espaço suspenso no vazio.

 

A própria vida passa por milagre

Quando somente tempo nos condena

A uma existência sem vontade.

 

Porque, no fundo, nada vale a pena,

Nem deus nem fé provêm da realidade

Dos factos que se negam como crença.

 

Francisco Freima 

 

25
Jul15

A Santa Inquisição

Francisco Freima

Um tribunal que condena um rapper a dois anos de prisão com base em letras descontextualizadas lembra o quê? Pois, o Tribunal do Santo Ofício, vulgo Inquisição. Pablo Hasél é um artista, o resto é conversa. Lembro-me de que na altura da sua condenação a frase mais ouvida na Europa era Je Suis Charlie. Cinco meses depois, Hasél continua preso por delito de opinião: no acórdão da sentença, o tribunal referiu que «qualquer pessoa que leia ou escute as estrofes pode verificar que se louvavam terroristas ou os actos cometidos por eles». Se qualquer pessoa serve, continuo a não observar nada disso nas letras de Hasél. A única coisa que ele fez foi louvar revolucionários e organizações revolucionárias, como foram a RAF e os GRAPO. Os juízes consideram apologia da violência apodar o Camarada Arenas de herói? Mas alguém tem dúvidas de que Pérez Martínez é um herói? É só o único líder de um partido comunista preso na Europa por ser líder de um partido… comunista. O Camarada Arenas nunca fez parte dos GRAPO e sempre se demarcou da actividade deste grupo revolucionário. Ainda assim, consegue a proeza de estar preso há quinze anos por algo que nunca fez. Num momento em que Sampaio recebe o prémio Mandela pelo seu trabalho numa organização cujo nome lembra o filme Indiana Jones e a Arca Perdida, o Camarada Arenas mantém-se preso por defender ideais mal vistos em Espanha.

 

Quanto à ETA, a referência surge dentro de uma história que Hasél conta através da canção. Seria o mesmo que condenar um jornalista por reproduzir vídeos do Daesh.

 

Resumindo: aqui ao lado existem presos políticos.

 Pablo Hasél, Radical

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