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Zibaldone

Zibaldone

04
Ago15

Sankara sempre!

Francisco Freima

sanka253.jpgA revolução burkinabé foi há trinta e um anos. Para mim, esta é a principal data do calendário, o meu feriado pessoal. O modelo de sociedade construído por Thomas Sankara naquele país é uma fonte de inspiração inesgotável. Penso mesmo que os seus três anos de governo deviam ser estudados em todas as escolas, por constituírem um bom exemplo para a juventude.

 

Se Portugal teve em D. João II o Príncipe Perfeito, o Burkina Faso teve em Sankara o Presidente Perfeito. A revolução iniciada a 4 de Agosto trouxe mudanças profundas àquele que era então o país mais pobre de África. Sankara legislou incansavelmente: adoptou políticas proteccionistas para defender a economia nacional; iniciou um ambicioso projecto de obras públicas, mobilizando a população para a construção das novas infra-estruturas (estradas, caminhos-de-ferro, escolas, maternidades, hospitais…); dinamizou uma campanha de vacinação sem paralelo em África, campanha essa que faria do Burkina o primeiro país a erradicar a poliomielite; reforçou o investimento na educação; promoveu os direitos da mulher; triplicou a produção agrícola; reorganizou as forças armadas; melhorou o sistema judicial; criou os comités de defesa da revolução e o movimento dos Pioneiros da Revolução; escreveu o hino nacional; mudou o nome do país e a bandeira… em três anos, o Burkina Faso passou de Estado falhado a economia emergente, de país dependente de ajudas externas a país importante na cena internacional, nomeadamente no Movimento dos Não Alinhados e na União Africana. Neste plano, foi um acérrimo defensor do desenvolvimento integrado dos países africanos e do não pagamento das dívidas nacionais, por serem ilegítimas.

Todas estas medidas tiveram um preço: enquanto o Burkina melhorava, a Costa do Marfim perdia o país que alimentava o seu com mão-de-obra barata. O Alto Volta estava morto e enterrado. Mas o pior inimigo da revolução seria a França, a antiga potência colonizadora. Os franceses não perdoavam a Sankara o desafio à sua autoridade na região, e temiam que a revolução alastrasse aos países vizinhos – com excepção do Gana, fantoches do governo gaulês. Em Paris preparar-se-ia, em conluio com os costa-marfinenses, o assassinato do líder burkinabé. Blaise Compaoré, número dois do regime, foi o «homem de mão» escolhido. No dia 15 de Outubro de 1987, Thomas Sankara e um grande número dos seus colaboradores foram assassinados. Nesse dia, a revolução morreu. Com a inversão das políticas defendidas por Sankara, o Burkina Faso voltou a ser um país pobre, corrupto e dependente da ajuda externa.

 

O capitão Thomas Sankara foi o melhor político de todos os tempos. Em condições extremamente difíceis, ele conseguiu recuperar economicamente um país que parecia condenado à miséria e projectar uma política externa forte, ao ponto de ter sido considerado o inimigo número um da França. No entanto, a posteridade não lhe fez justiça: ele é convenientemente esquecido por aqueles que ainda hoje têm medo da sua mensagem. Mais importante do que Nelson Mandela, Sankara é o símbolo da luta do Terceiro Mundo contra as potências imperialistas.

 

Viva Sankara!

02
Ago15

Renegado

Francisco Freima

Gosto de agitar o vento da aldeia,

Os pirilampos mágicos colados

A quem acha normal ser sexta-feira

Com o amanhã e depois apalavrados.

 

Prefiro entregar-me à bebedeira

De todos os sentidos explorados,

Das ondas de calor em lua cheia

Dos que abraçam e são apunhalados!

 

Chego a sentir a ponto de queimar

A ponte que me liga à lucidez

De boias lançadas para o mar…

 

Sozinho, entre certezas e porquês,

Chego a sentir, parto a pensar:

Porque é que não sou como vocês?

 

Francisco Freima

01
Ago15

Da religião

Francisco Freima

A religião é a maior arma de controlo social que existe. Não consigo compreender como em pleno século XXI ainda existem pessoas que acreditam em absurdos como o criacionismo ou as fábulas dos «livros sagrados». Neste momento, considero mesmo que a humanidade encontra-se dividida em três: primeiro, a barbárie, representada pelos fundamentalistas religiosos; segundo, os semi-bárbaros, aqueles que acreditam em deus e na vida depois da morte; terceiro, os civilizados, seres superiores que transcenderam todo o tipo de crença religiosa. Estes últimos começam a realizar a ideia do Ubermensch nietzschiano, uma vez que tiveram de derrubar os valores inculcados pela sociedade tradicional, substituindo-os por outros. Esta nova geração de homens e mulheres não acredita em deus, não acredita na vida para além da morte, não tem fé em nada. Para eles, a fé não passa de um estado de delírio induzido ou auto-induzido. Sendo superiores, toleram as religiões, pois sabem que estão condenadas ao desaparecimento. Basta ver o progresso que tem existido nos últimos anos: o número de ateus continua a crescer, abrindo boas perspectivas para o fim da religião nos próximos séculos.

 

Ao nível dos valores, a nova geração de ateus caracteriza-se pelo seu idealismo, o que a faz divergir das primeiras, niilistas por natureza. Além de recentrarem o Homem «como medida de todas as coisas», acreditam no progresso através da ciência e do onírico. No limite, pode dizer-se que os sonhos humanos evidenciam que a «divindade» existe no próprio Homem, outorgada por ele a si mesmo. Não existindo vida para além da morte, a sua missão é dar significado à existência, através da criação dos seus valores e ideais. Em termos gerais, comungam da ideia de que a humanidade necessita de se superar para poder criar o seu universo e de que a vida eterna pode ser atingida. Será mesmo o primeiro feito a cumprir, quebrar a lei que determina a morte dos seres vivos. Daí partirão para a criação do novo espaço, tendo sempre na ciência a sua grande aliada.

 

Voltando aos tempos actuais, uma prova da superioridade dos ateus sobre os crentes é que os primeiros conseguem reconhecer e praticar o bem sem outra recompensa que não a sua prática. Já os crentes necessitam de se apoiar em conceitos ligados à vida depois da morte para praticá-lo. Daí que a fé continue a ser importante para estas pessoas – sem ela, iniciariam um processo de relativização moral que as conduziria aos seus piores instintos. Os ateus dividem-se portanto em dois: orgânicos e inorgânicos. Os orgânicos são aqueles que nasceram sem vestígios de «divindade», e que nunca mostraram inclinação a aceitá-la quando lha quiseram impor. Os inorgânicos são aqueles que foram aculturados pela educação religiosa, mas conseguiram/tentam libertar-se. Outra demonstração de superioridade dos ateus é a confiança intrínseca na ciência e nas suas capacidades para enfrentarem as situações com que se vêem confrontados. Pelo contrário, os crentes necessitam também da fé, o que os torna mais fracos.

 

Algumas pseudo-ciências do século XIX desenvolveram o conceito de «raça superior», fundamentando alegados determinismos genéticos nunca verificados. Pelo contrário, os ateus não se consideram uma «raça superior», mas antes portadores de uma mentalidade superior. Eles conseguiram transcender as superstições que estão na base de todas as religiões. É isso que os torna superiores.

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