Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Zibaldone

Zibaldone

22
Out15

Desalmejo

Francisco Freima

Eu quero morrer do sono que tenho,

Abrir o coração às minhas veias,

Não saber quem sou, de onde venho,

Pedinchar beleza às pessoas feias.

 

A vida para mim é o estrangeiro

Numa pátria de afectos sem bandeiras,

Sem a afectação da onda e do dinheiro

Gasto a apoiar causas verdadeiras.

 

Tenho sono… oh, porque me trouxeram

A vir aqui ver como os outros erram?

Deixem-me em paz, da vida nada espero,

 

Esperanças são o quê na eternidade?

Tanto quanto sei, lá não existe idade,

Nada é novo, nada faz-se velho.

 

Francisco Freima

01
Out15

Da religião (II)

Francisco Freima

Ainda acerca da religião, muita gente fica escandalizada quando opino veementemente contra a existência de deus. Se o faço, é porque estou seguro daquilo que defendo, a saber: deus não existe; a existir, deus é o maior sádico do universo, vive do sofrimento dos seres vivos. Se esse negócio de vida além da morte existir, eu logo vejo como faço: se vir que deus é o todo-poderoso que apregoam, não lhe perdoo as faltas dele; se vir que é um simples que criou o mundo e perdeu os seus poderes, eu perdoo-lhe. Para aqueles que falam em deus como entidade abstracta, associando-o ao karma (por exemplo), a esses eu digo que, a ser assim, é preconceituoso e vingativo. Punir alguém por ter sido mau nesta vida, dando-lhe uma existência igual ou pior, também é maldade – o karma devia provar do seu próprio veneno… se os bons são assim tão bons, que os sacrifique pelos outros, que os ponha a remir o samsara dos que não conseguem sair dele. Isto nem é blasfémia, é puro bom senso. Se o karma não se rege por estes princípios, acaba transformando os maus em bons, ao torná-los vítimas de crimes que eles nem sabem que cometeram (não chamam a isso «vida passada»?). Ora, um dos princípios basilares da justiça é sabermos exactamente do que somos acusados. Senão, como defendemo-nos? Mais: imaginemos um tipo que tenha um karma assim-assim, tão depressa as coisas correm-lhe bem, como depois correm mal, para logo a seguir voltarem a correr bem, para posteriormente… alguém vai chegar junto do Alexandre Magno e dizer-lhe «tu há dois mil e trezentos anos destruíste Tebas, mas poupaste Atenas: é por isso que tens sorte em ter trabalho e azar, porque amanhã vais ser despedido»?

 

Outro argumento comum dos religiosos é este: «se não acreditas, porque é que perdes o teu tempo a provar que deus não existe»? A esses costumo responder que o faço por altruísmo, à semelhança do homem que na alegoria de Platão saiu da caverna e viu o sol, voltando depois para contar aos outros o que vira. Considero igualmente parva a ideia de que os ateus devem abster-se de falar, só porque não acreditam. É precisamente por descrerem que devem falar e debater, sob pena de deixarem as raposas sozinhas no galinheiro.

 

Eu sou a favor da liberdade religiosa: se alguém crê, óptimo para essa pessoa. E não estou sendo irónico, sei que a fé, que já defini como estado de delírio induzido ou auto-induzido, produz placebo em quem a possui. Se essas pessoas são felizes, para quê confrontá-las? Por isso, penso que os ateus devem falar para todos, e não para alguém em particular. Fazendo minhas as palavras de um maluco-beleza que viveu há dois mil anos:

 

«O semeador saiu a semear. Quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram-na. Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era profunda e tendo saído o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra caiu na boa terra e dava fruto, havendo grãos que rendiam cem, outros sessenta, outros trinta por um. Quem tem ouvidos, ouça». (Mateus 13:1-9)

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor