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Zibaldone

Zibaldone

30
Nov15

Passagem

Francisco Freima

Tu não tens tido tempo para nada,

Enquanto eu, reduzido a ser recluso,

Passo a noite numa ânsia de ter tudo

O que possa deter a minha alma.

 

Às vezes sonho com a vida errada

Onde existes para lá do mundo,

Onde erra em liberdade o meu futuro

Nos traços da existência imaginada.

 

Desde a noção do tempo que perdi,

Contorno o branco, o azul, o negro

De uma manhã submersa em pesadelo.

 

Pois se a noite passou, eu não te vi

Mais no mesmo espaço onde sonhei

A lua sobre a qual a sós fiquei.

 

 

Há um ano, escrevi este soneto. Lembro-me que na altura andava a ler Aleksandr Blok e as suas diversas fases cromáticas intrigavam-me. Já tinha lido Rimbaud e o seu soneto das vogais, mas nunca tinha visto um poeta ter a obra dividida pelo período branco, azul, vermelho... fiquei encantado, tanto pela poesia como pela orgânica blokiana. Vivi um certo fascínio com as cores, namorei-as até sair desse sonho deslumbrante. No fim, o sonho morre sempre. As cores ficam.

 

Quanto à estrutura, é um soneto em decassílabo heróico (o meu preferido), com estrofes ABBA para as quadras e CDD/CEE para os tercetos. 

 

Estilisticamente, começa numa aliteração (Tu não tens tido tempo para nada) em decrescendo (reduzido a ser recluso) que conclui a primeira quadra num jogo de palavras. Este jogo (de ter/deter) inicia-se no momento em que lanço a última centelha de aliteração (de ter tudo). Realce ainda para os verbos ser/ter no segundo e terceiro verso. Na segunda quadra, existe uma repetição (Onde) que mantém o ritmo da primeira quadra. O primeiro terceto tem uma enumeração no segundo verso (o branco, o azul, o negro). 

 

Ao nível temático, o soneto divide-se em três. A primeira parte (primeira quadra) refere-se ao contexto no qual o eu poético está inserido. A segunda parte (segunda quadra) divaga pelo sonho do poeta, enquanto a terceira (os dois tercetos) volta a contextualizar retrospectivamente o sujeito (primeiro terceto), para concluir, já consciente do espaço/tempo, a sua situação. 

 

O que me deu mais gozo neste poema foi a persistência da solidão em dois cenários distintos. O poeta continua sozinho no final, mas já não habita a prisão da primeira quadra. O sonho amoroso levou-o até à lua, onde fica sozinho na imensidão do espaço. O verso «contorno o branco, o azul e o negro» agradou-me pela forma como consegui harmonizá-lo com o verso imediatamente a seguir: branco/manhã, azul/submersa, negro/pesadelo. O «manhã submersa» foi inspirado no título de um romance do Vergílio Ferreira.

29
Nov15

Surrounding sound

Francisco Freima

 Soda Stereo, Planta

 

Soda Stereo, Planta

 

Sábia seiva pelo corpo

Como ouro de Acapulco,

Vou preparando-me

Não sei que se passa

Que já não posso voltar

(Ao ouvir, ao ouvir…)

Tento ir-me pelas ramas,

Agora ando sobre feridas

Não foi suficiente fé

Uma vez por semana

E já não posso voltar

(Ao ouvir, ao ouvir…)

Minha voz vegetal

Necessito ter amarrados os pés

Pelo ar sei que sou 

Nada mais que menos

Do que poderia ser

Eu resisto

A empurrar-te

a outro jogo de azar

Pelo ar

Reverbera a ânsia dessa voz

Minha voz vegetal,

Vegetal,

Amor vegetal.

28
Nov15

Onde está a chama?

Francisco Freima

flames coyotes.jpgOs Calgary Flames estão a ter um mau início de época. Pouco resta do clube que no ano passado fazia recuperações incríveis. As estrelas apagaram-se, a equipa defende mal e é pouco eficaz na zona de finalização. A derrota, quando faltavam trinta segundos para o fim do prolongamento, voltou a punir a pouca agressividade na zona defensiva.

 

Hoje, frente aos Arizona Coyotes, foi mais do mesmo: faceoffs perdidos, foras de jogo por força da pressão adversária, power plays desperdiçadas e muita complacência na hora de rematar à baliza. O melhor, como sempre, foi Johnny Gaudreau. A culpa de eu ficar acordado até às cinco da manhã para ver um jogo da NHL é toda dele. Ver Gaudreau é ver magia no rinque. Ninguém consegue mudar de velocidade daquela maneira e ninguém consegue controlar o puck em progressão como ele. Este ano, face ao abaixamento de forma de Sean Monahan, o ataque tem estado às suas expensas, contando ainda com a ajuda de Sam Bennett, o rookie. 

 

Os Flames também não fizeram jus aos bons inícios desta temporada (diferença de golos em +4 nos primeiros períodos), acabando por sofrerem o golo aos 29 segundos da segunda parte. A equipa canadiana recuperaria depois, quando aos 16:40 Mark Giordano, a passe de Gaudreau, fez o seu quinto golo da temporada. O capitão dos Flames jogou bem, apesar de ser ainda evidente a falta de entrosamento com Dougie Hamilton. A contratação mais sonante do defeso continua à procura do seu espaço. Falta-lhe confiança, vê-se na maneira como aborda as jogadas, como patina para trás e para a frente, sem saber o que fazer ao puck. Apesar disso, a defesa melhorou, pelo que pode estar para breve a redenção do ex-jogador dos Bruins. Além disso, Karri Ramo parece mais à vontade. Hoje, fez 19 defesas contra as 26 de Mike Smith, o melhor jogador da partida. O problema esteve no ataque. Os comandados de Bob Hartley quebraram a série negativa de dezasseis power plays desperdiçadas e marcaram em vantagem numérica. No entanto, estiveram mal neste capítulo: tiveram sete vezes com mais um no rinque.

 

Com esta derrota, os Flames mantêm-se no penúltimo lugar (curiosamente, nesta jornada, cinco das sete equipas da divisão Pacífico foram a prolongamento e perderam). Atrás continuam os rivais Edmonton Oilers, aos quais ganharam o derby de Alberta no... prolongamento. Amanhã, os Flames deslocam-se a San Jose para defrontarem os Sharks (segundos na classificação; perderam o último jogo). 

 

Go, Flames, Go!

27
Nov15

A radicalidade da poesia

Francisco Freima

O poeta é o alienado da alienação. Num tempo onde a poesia merece o desprezo da intelectualidade, cabe reafirmar que esta continua a ser a arte maior. Os poetas atingem níveis de consciência que nunca passarão pela cabeça dos outros artistas. Eles sabem-no e vingam-se, tentando apropriar-se do nome da nossa arte para caracterizarem o seu trabalho. A propósito de tudo e mais alguma coisa (músicas, quadros, filmes, futebol) exalta-se a sua qualidade poética, embora essas pessoas nunca tenham escrito um poema, ou sequer comprado um livro de poesia. No fundo, são hipócritas. Na superfície, ingénuos. Dizer que uma canção é poesia só pode ser um insulto. É como dizer que um enfermeiro é um médico. O músico e o poeta têm objectivos diferentes: o primeiro compõe para tocar/cantar, o segundo para nem ele sabe o quê. Também levam vidas diferentes: os músicos vivem numa marginalidade aparente, os poetas vivem à margem permanentemente. Os músicos são considerados «radicais», os poetas, malucos. Os músicos ganham dinheiro, os poetas dissipam-no. Os músicos morrem tarde (o clube dos 27 é uma brincadeira de crianças), os poetas, cedo. Os músicos são cool, os poetas são estranhos. Os músicos casam-se e têm filhos, os poetas vivem e morrem sozinhos. Os músicos não nascem músicos, mas os poetas nascem poetas.

 

Ficou célebre a resposta dada por um poeta à impertinência de um burguês. «Para que serve a poesia?», perguntou-lhe, zombeteiro, o homem de negócios. O vate respondeu-lhe: «A si, para nada.» Aliás, não por acaso a poesia é a única arte incompreensível para quase toda a gente: um pintor pinta, um romancista escreve, um músico toca, um cantor canta, um poeta... porque escreve daquela maneira quando poderia fazê-lo em prosa? Porque escreve coisas estranhas? Porque dedica-se a uma coisa que não dá dinheiro? Porque... e segue por aí fora. 

 

Os poetas escrevem porque sim, a poesia serve para existir. Ninguém quer saber dela, mas ela não se importa. É superior, está-se a cagar para tudo, faz o que lhe dá na telha. Os poetas também são assim: sabem-se especiais, não respeitam regras e vivem cada dia como se fosse o último. Villon assassinava pessoas, Pushkin passava a vida em duelos, Byron bebia por um crânio humano, Swinburne enforcava macacos, Wojaczek atirava-se das janelas... ah, sim: os músicos partem guitarras. Big deal.

 

Disto conclui-se que, em termos de rebeldia, os poetas estão para os músicos como os 120 Dias de Sodoma estão para as 50 Sombras de Grey. Não, eles não inventaram a pólvora: apropriaram-se do mito que outros criaram.

26
Nov15

Rendimento desportivo: uma questão de fé?

Francisco Freima

andy carroll.jpgHá uns dias atrás, saiu um artigo interessante na FourFourTwo sobre até que ponto a confiança influi no rendimento desportivo. Este tema sempre me interessou: optimista inveterado, não me conformo quando dizem ser impossível à equipa B derrotar a equipa A, porque a A tem melhores jogadores. Ainda percebo esse argumento quando falamos de um Amora a defrontar um Sporting. Mas quando são equipas do mesmo escalão, parece-me que a diferença devia esbater-se. Porque é que o Belenenses não pode ganhar um campeonato com o actual plantel? Muitos consideram isso loucura, mas eu penso assim: em algum momento, aqueles jogadores estiveram ao nível dos seus colegas de Benfica, Porto e Sporting. Aliás, o exemplo do Belenenses é bom, pois conta com vários jogadores formados no Benfica e no Sporting. Alguns deles, como Carlos Martins ou Miguel Rosa, foram promessas do futebol português que ficaram/têm ficado aquém das expectativas. Nos grandes existem casos semelhantes: qual é a diferença entre Adrien e André Martins? A meu ver, nula. Os dois são excelentes jogadores, somente um joga e o outro não. Em termos de qualidade equivalem-se, embora eu considere André Martins superior em termos técnicos, sendo Adrien mais evoluído tacticamente. 

 

Ter os melhores jogadores faz a diferença, eu sei. Mas o que é que são os melhores jogadores? Às vezes, como ilustra o artigo da FourFourTwo, um avançado de classe mundial fica meses numa crise de golos enquanto outro que passou uma carreira inteira a marcar 4/5 golos por época, torna-se o terror das balizas adversárias. Explicação? Penso que além das contingências de plantel, a confiança é fundamental, podendo nivelar os pratos da balança. O futebol é momento, mas esse momento pode ser prolongado no tempo. Prova disso foram os campeonatos ganhos por Kaiserslautern, Boavista, AZ Alkmaar e Montpellier há alguns anos. Ou mesmo as Bundesligas ganhas pelo Dortmund numa altura em que o Bayern de Munique tinha plantéis muito superiores. Ou o do Benfica, em 2004/05. Ou ainda o do Atlético Madrid, em 2012/13. Somos tentados a explicar estes epifenómenos com o apagão generalizado dos rivais, embora eu considere isso injusto. Se os outros eclipsam-se é porque há um mais forte. Para mim, a qualidade do treinador é o que faz a diferença. Estamos agora a ver isso com a ida de Jorge Jesus para o Sporting: o Benfica tornou-se uma equipa banal enquanto o Sporting, uma equipa limitada, tornou-se uma máquina imparável. A motivação faz toda a diferença aqui. O Benfica quando entra em campo contra o Sporting já vai derrotado, nota-se isso na reacção dos jogadores quando sofreram o primeiro golo nos jogos com os leões. Subitamente, a equipa fica apática, desconfiada, descrente... Para mim, a diferença está mais no fantasma Jesus  do que na qualidade entre os dois plantéis. Neste momento, Rui Vitória tem de puxar mais pelo brio dos jogadores do que olhar para os esquemas tácticos. Os defesas precisam da garra charrúa que Maxi Pereira dava, os médios necessitam de estabilidade no onze, para ganharem confiança (neste momento, só Samaris está de pedra e cal no meio-campo), os avançados precisam de golos – viu-se isso no último jogo, Raúl Jiménez marcou o segundo ao Astana porque ganhou confiança com o primeiro. 

 

Uma equipa inferior em termos técnicos pode superiorizar-se a uma favorita à vitória? Pode. O fundamental é a confiança. Jogadores confiantes superam as suas limitações, tornando-se melhores do que eram. Muitas das vezes, eles só são piores por terem-se comparado negativamente com outros em idades decisivas para o seu desenvolvimento. Um jogador mediano, se tiver alegria no seu jogo, pode tornar-se melhor que um génio triste em campo. Pelo menos, é nisso que eu acredito. 

 

Deixo-vos com um A a Z dos flops inexplicáveis (falta de confiança?):

 

Anderson (Manchester United)

Ballack, Michael (Chelsea)

Chyhrynskyi, Dmytro (Barcelona)

Doumbia, Seydou (Roma)

Elias (Sporting)

Fabiano, Luís (Porto)

Ganso, Paulo Henrique (São Paulo)

Huntelaar, Klaas-Jan (Milan)

Immobile, Ciro (Dortmund)

Jovetic, Stevan (Manchester City)

Kezman, Mateja (Chelsea)

Lamela, Erik (Tottenham)

Maicosuel (Udinese)

N' Zogbia, Charles (Aston Villa)

Obertan, Gabriel (Mancheter United)

Paulinho (Tottenham)

Quaresma, Ricardo (Inter de Milão)

Reyes, José Antonio (Arsenal)

Soldado, Roberto (Tottenham)

Torres, Fernando (Chelsea)

Uvini, Bruno (Nápoles)

Verón, Juan Sebastián (Manchester United)

Wright-Philips, Shaun (Chelsea)

Xavier, Abel (Bari)

Young, Ashley (Manchester United)

Zidan, Mohamed (Hamburgo)

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