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Zibaldone

Zibaldone

29
Fev16

Condições de partida

Francisco Freima

RCA eleições.jpgA segunda volta das presidenciais na República Centro-Africana deu a vitória a Faustin Touadera, antigo primeiro-ministro do ditador François Bozizé. Touadera venceu por uns inequívocos 63%, tendo agora a difícil missão de reconstruir um país do zero. E é nisto que eu me quero centrar. Não gosto de hipócritas, por isso não vou fingir o que todos sabem e que até vem a propósito em noite de boicote aos Óscares: muitos brancos são racistas, odeiam os «pretos» e «têm pó aos ciganos». Esta gente é um nojo e só sabem dizer isso no meio da «sua gente». Quando vêem um negro ou um roma ficam caladinhos. Sinceramente, até prefiro a Frente Nacional a estes cobardes que não assumem aquilo que verdadeiramente são. Compreende-se: delegam à extrema-direita a tarefa de dizer em voz alta o que pensam. 

 

Uma das suas frases preferidas é: «Governo de pretos dá nisto. Quando aquilo era nosso viviam melhor». Nem vale a pena argumentar com essa gente que nós (sim, nós) é que somos os culpados. A Europa durante séculos não quis saber de África. Além do tráfico negreiro, o continente africano era utilizado como colónia penal para a população das metrópoles. Foi só quando os filões americano (no caso português/espanhol) e asiático (no caso inglês/francês) perderam força que os europeus começaram a olhar para África. Mas mais valia não o terem feito... a sua cobiça era movida pelo lucro, pela exploração ao máximo sem nenhum retorno para a população autóctone. Pior: envolviam a sua cupidez num embrulho a que chamaram «o fardo do homem branco». Esse «fardo» consistia somente na depredação dos recursos naturais, na violação das mulheres e na escravidão de todos os negros. Os poucos idealistas que por lá andaram foram uns quantos exploradores, ingénuos o bastante para pensarem na criação de um Novo Mundo, depois de falhada a experiência nas Américas. Afinal, entre os séculos XVI e XIX tinham passado trezentos anos... Não aprendemos nada com o passado, destruímos tudo. E nós, Portugueses, que nos orgulhamos tanto da nossa colonização, não fomos nem melhores nem piores do que os outros. Fomos iguais. O mito do «português suave» deve mais aos teóricos do luso-tropicalismo do que à realidade. 

 

Voltando a Touadera: quantos de nós não esboçarão um sorriso trocista perante a eleição de um homem associado com o ditador Bozizé? «São todos iguais», diremos, escudando-nos na mesmice atribuída também aos nossos políticos. O problema é que, em ambos os casos, a responsabilidade é toda nossa. Como pode a RCA desenvolver-se? O continente africano enfrenta um grave período de seca (cf. situação no Burundi, no Sudão, no Zimbabué...), não tem infra-estruturas, não tem pessoal especializado, não tem paz, não tem nada. Ou melhor, tem um clima propício a todo o tipo de epidemias, tem uma elite corrupta e tem uma dívida astronómica. Se a primeira condição devem à natureza, as últimas duas foram «cortesia ocidental». Aqueles idiotas que falam nas barragens, nas estradas ou na ferrovia que por lá deixámos, esquecem-se deste pormenor: também deixámos uma população pouco escolarizada. Por exemplo, a minha mãe iniciou os seus estudos em Moçambique, no Songo, mas terminou a quarta classe em Portugal. O ensino não tinha nada a ver, e ela sabia-o, porque os alunos da turma dela eram quase todos negros – como morava numa zona afastada dos principais centros urbanos, não havia hipótese de ensino separado. Separação só existia na vida social, nos bailes e nos jantares que juntavam portugueses, rodesianos e africânderes (bóeres). Agora, eu pergunto: com que direito alimentamos nós um complexo de superioridade em relação a esses povos? Na situação deles, sem dinheiro, sem formação adequada, com corrupção e um clima horrível, tanto para as pessoas como para a agricultura/pecuária, o que faríamos? Eu respondo: pior.

 

Desejo toda a sorte do mundo a Touadera (vai precisar dela) para reerguer um país assolado pela fome, pela guerra (tem «só» de desarmar as milícias Séléka e «anti-balaka»), pela corrupção endógena/exógena (funcionários da ONU que violam jovens) e pelo êxodo de meio milhão de pessoas para os países vizinhos. E isto é só o início: tem depois de relançar a economia, construir infra-estruturas, criar sistemas de saúde/justiça/educação que melhorem a vida das pessoas, pagar a dívida... tão fácil, não é?

28
Fev16

112 anos

Francisco Freima

Benfica.pngNo dia em que o Benfica celebra 112 anos, importa deixar uma palavra de apreço ao trabalho que a direcção de Luís Filipe Vieira tem vindo a realizar nos mais diversos domínios. Se nem sempre concordo com as decisões, sobretudo nas palavras e nos actos quanto à aposta na formação, reconheço mérito ao presidente na recuperação do Glorioso.

 

Dito isto, é hora de pensarmos que Benfica queremos para o futuro. Eu gostaria de ver uma maior aposta nos jogadores portugueses, mesmo que isso implicasse uns anos de «pousio» ao nível dos títulos. Mais do que uma cultura vencedora, o que faz falta aos clubes nacionais é uma dimensão ética na forma como encaram o desporto - cumpre aqui fazer um parêntesis para saudar o último discurso de LFV em relação ao castigo a Slimani. Retirar armas a quem nos ataca é a forma mais sensata de lidar com a calúnia de um líder fraco, que necessita desse expediente para impor a sua vontade. No futuro, gostaria de ver uma normalização das relações institucionais do Benfica com o Sporting. Afigurando-se difícil esse desígnio, pelo fanatismo fomentado pela actual direcção leonina, resta-me esperar que os adeptos não se deixem contaminar. Neste aspecto, reafirmo o que já escrevi aqui: nós, benfiquistas, temos de dar o exemplo pela positiva: de cada vez que recebermos os nossos rivais, devemos tratá-los como se fossem os nossos melhores amigos. É essa Luz que eu gostaria de ver: festiva, acolhedora, plena de amizade e compaixão, tanto na vitória como na derrota. Este é mesmo o meu maior desejo para o futuro.

 

Voltando à terra, na lista dos meus desejos está ainda a contratação do Diogo Jota. Dizem que existe acordo entre as direcções, mas o jogador desconhece qualquer abordagem nesse sentido. Para mim, esta deve ser a prioridade número um da direcção. Gostava igualmente que o Benfica planificasse melhor a pré-temporada, pois é nessa altura que se começam a ganhar os campeonatos. Contigências à parte, espero que estejamos a movimentar-nos atempadamente no mercado. A transferência de Carrillo diz que sim (embora discorde da sua contratação); os jogadores de qualidade por contratar, dizem que não. Sobre as renovações, o peso de Júlio César na folha salarial justifica-se, quando há por aí tanto guarda-redes jovem de qualidade? Já quanto ao Eliseu, penso que a maioria contra ele fala por mim: arranjem um lateral decente.

 

E tragam o ciclismo de volta!

 

Parabéns, Benfica

28
Fev16

Senators vs Flames

Francisco Freima

Senators vs Flames.jpgEstando os Flames a dez pontos dos playoffs, a notícia do dia não era tanto o jogo com os Ottawa Senators, mas a transferência de Jiri Hudler para os Florida Panthers. Em troca, os Flames ficaram com a segunda e a quarta escolha dos Panthers no draft de 2016 e 2018, respectivamente. 

 

Na primeira parte, os Flames dominaram. O primeiro golo surgiria numa power play, através de um lançamento em profundidade de Joni Ortio para Bennett, que assistiu Colborne. Ainda os festejos ecoavam no Saddledome quando Monahan, num remate de longe, atirou a contar para o segundo da partida – bom controlo do stick e uma pancada seca que elevou o puck até junto da trave dos Senators! Alguns jogadores fosrasteiros não aceitaram bem a vantagem e o árbitro acabou por enviar Backlund para o banco das penalidades! Injusto... mas os Flames sobreviveram à ausência do avançado, partindo para nova fase de patinagem exuberante. As oportunidades sucediam-se, Gaudreau, Ferland e Bennett falharam na conclusão das belas jogadas que iam desenhando no rinque. Beneficiando de nova power play, esperava-se o terceiro – excepto um lance de perigo protagonizado por Giordano, nada aconteceu. Pouco depois, foi a vez dos Flames sofrerem nova power play, desta feita por jogo perigoso de Frolik com o stick. Não tinha passado meio minuto quando os Senators reduziram a desvantagem: Karlsson rematou de longe, o puck bateu no corpo de Smith e traiu Ortio. 

 

O segundo período começou com uma grande defesa de Ortio a remate de Smith. No terceiro jogo consecutivo a titular (Ramo está lesionado), o jovem goalie mostrou segurança, sendo uma opção a ter em conta para a titularidade na próxima época. Stone que o diga: o atacante dos Senators fartou-se de rematar à baliza sem sucesso; Ortio mostrou recursos técnicos, designadamente na forma acrobática como se move e a coordenação que consegue ter com o stick. A segunda parte ia a meio quando Gaudreau tirou um coelho da cartola: ao receber o puck de Brodie, Johnny atirou ao ângulo da baliza dos Senators! Os Senators voltaram a atacar e Nick Paul faria o 2-3 para o conjundo de Ottawa. Já toda a gente esperava o intervalo quando Gaudreau tirou outro truque da manga, num remate violento para dentro da baliza. Era o seu 24º golo da época. Desta feita, o puck bateu mesmo na trave antes de entrar. 

 

A última parte teve um início semellhante ao da segunda. Só o vídeo-árbitro permitiu dissipar as dúvidas sobre a jogada dos Senators que ia dando golo. Após verem as repetições, os árbitros decidiram correctamente contra os Senators. Logo a seguir, os Flames desperdiçaram uma power play. O jogo entrava num ritmo alucinante e após nova jogada polémica, dirimida com recurso a repetição, os árbitros deram golo aos visitantes, marcado por Mika Zibanejad. O pesadelo chegaria através do mesmo jogador. O treinador dos Flames contestou a decisão, por falta do sueco sobre Ortio; a equipa de arbitragem voltou a parar o jogo para ver repetições, decidindo-se pela atribuição do golo. Escusado será dizer que foram bastante apupados pelo público... para piorar tudo, Zibanejad fez o hat-trick (o primeiro da sua carreira) em 2:38, virando o resultado... A dois minutos do fim, os Flames começaram a jogar sem guarda-redes na baliza; Pageau aproveitaria uma perda de puck dos anfitriões para fazer o 6-4, sentenciando assim a partida.

 

O próximo jogo dos Flames será na segunda-feira contra os Philadelphia Flyers. 

27
Fev16

Cartazes delirados (II)

Francisco Freima

BE adopção.jpgOs ataques do país conservador não se fizeram esperar. O novo cartaz do Bloco de Esquerda, no qual se lê que «Jesus também tinha dois pais», despertou a ira dos sectores mais reaccionários de Portugal. Veio logo a Conferência Episcopal, secundada pelo CDS, dizer que era uma afronta, blá blá blá, que estamos na Quaresma, blá blá blá, que serve para desviar a atenção dos problemas importantes, blá blá blá... já agora, se estão preocupados com os problemas importantes, podem começar pelo IMI...

 

No país do respeitinho, humor é afronta; no país do respeitinho, parece que temos obrigação de saber que estamos na Quaresma (o mundo gira em torno do Vaticano?); no país do respeitinho, os problemas importantes existem e são desviados pela Igreja, que prefere atacar um simples cartaz. Não fosse o Estado laico e a esta hora estavam a organizar um pogrom contra os militantes do BE, numa celebração de outra grande tradição católica: o churrasco de judeus, muçulmanos e hereges vários. No cardápio das desculpas temos ainda a utilização da figura de Jesus... pelos vistos, a imagem do Senhor é monopólio dos católicos. Deve ser outro dogma por revelar... Ámen.

 

Esta polémica evidencia as prioridades trocadas do clero. Se fossem cristãos, como dizem ser, mais depressa se insurgiam contra o espectáculo de tortura exibido no Campo Pequeno do que contra os papões à esquerda. Temos de dar um desconto: a Igreja tem dois mil anos, está senil. Baba-se ao ver na arena os forcados, os bandarilheiros, os cavaleiros e insurge-se contra o Bloco como se este fosse um discípulo de Jesus. A senilidade tem destas coisas, faz-nos ver nos outros o que eles não são. O Manel, que veio a público arranjar lenha para queimar o BE, parece o D.Quixote contra os moinhos de vento. Bastinhas, tem dó do homem: empresta-lhe um Rocinante para ele investir contra o cartaz! Pela minha parte, nomeio-o Cavaleiro da Triste Figura

 

A terminar, uma palavra a Ferreira Fernandes: ao dizer que os antigos deputados do BE trabalhavam a «meio-gás» na Assembleia, teceu-lhes o maior elogio. Porque, mesmo a «meio-gás», fizeram mais do que todas as outras bancadas parlamentares. Quanto à crítica de o Bloco ter utilizado Jesus em vez de Maomé, ela não tem fundamento. Porquê? Bem, Jesus, com a história dos dois pais, é que se inseria no tema da adopção. Se algum dia o BE fizer uma campanha sobre pedofilia, estou certo que a malta da propaganda lembrar-se-á de incluir o profeta pedófilo Maomé.

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