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Zibaldone

Zibaldone

31
Mar16

Congelem o futebol

Francisco Freima

John Tavares.jpgAlém de termos uma imprensa que concorre com os cães na perseguição dos autocarros das equipas, além de termos engravetados engravatados que dedicam-se ao comentário arbitrário das arbitragens, além de termos as revelações de Carlos Cruz sobre a compra de votos para existir um Europeu e além de termos o Emplastro, passamos, a partir de hoje, a ter a Cidade do Futebol! Embora lhe deseje uma duração ao nível da Ópera do Tejo (dá para um terramoto localizado?), ficarei contente se dentro de alguns anos os Portugueses interessarem-se tanto pela ópera como pelo desporto-rei.

 

A FPF defendeu o investimento, avançando que foram eles a avançar com o dinheiro para a construção do novo elefante branco. Resta-me perguntar: se a federação tem tanto dinheiro, porque não o oferece às outras modalidades? Ou terão sempre de ser os outros a ficar na fila à espera de receberem apoio estatal? Paquiderme por paquiderme, preferia os Jogos Olímpicos ao Europeu. Pelo menos desenvolviam-se infra-estruturas para as modalidades que delas necessitam. Ou então (melhor ainda) não se candidatavam a nada e concentravam os esforços na criação de condições para as modalidades inexistentes... exemplo? Temos a dúbia honra de ser o único país europeu que não tem um pavilhão de gelo! Desportos como o hóquei no gelo, a patinagem artística ou o curling estão proibidos por inércia. Num território com poucas condições para desenvolver desportos de Inverno ao ar livre (esqui, snowboard, bobsleigh), as pistas de gelo supririam esse défice de representatividade. Podíamos não ter esqui, mas teríamos hóquei, podíamos não ter snowboard, mas teríamos patinagem artística... como preferimos o futebol, não temos nada. As nossas delegações aos Jogos Olímpicos de Inverno são deprimentes. Ainda assim, louvo aqueles que lá vão representar um país que não os merece – Arthur Hanse e Camille Dias têm todo o meu carinho.

 

Em 2014, no Lisboa Participa, foi lançada uma proposta para que a câmara construísse a há muito desejada pista de gelo. Resultado? Zero. Este país só sabe fazer estádios e auto-estradas. Com a qualidade que temos no hóquei de pavilhão, não será muito difícil conjecturar que teríamos igual ou superior no gelo. Pensem, hoquistas: se tivessem pistas de gelo e fossem bons, ganhariam fortunas na NHL. Para isso, basta pousarem os olhos em John Tavares, um dos melhores jogadores canadianos da actualidade e que milita nos New York Islanders, tendo sido a primeira escolha na primeira ronda do draft de 2009. 

 

Cidade do futebol? Eu quero o país no gelo!

 

P.S. - Os dez milhões gastos nesta brincadeira davam para construir 14 pistas de gelo e ainda sobravam 200 000 euros para rotundas...

31
Mar16

Diário expedicionário

Francisco Freima

31 de Março (1884) - Partiu para Moçâmedes o Governador Geral e os cavalheiros que tinham vindo com ele.

 

Relação das cargas

 

Fardos de fazenda: 25

Fardos de missanga: 6

Cunhetes: 7

Caixas verdes: 6

Malas: 3

Barracas: 2

Botes: 2

Espingardas Sniders: 22 (faltam 8)

Espingardas de pederneira: 34 (faltam 16)

 

Faltam dois fardos e algumas peças roubadas dos fardos existentes.

29
Mar16

PNR

Francisco Freima

António Cotrim Agência Lusa.jpgO Programa Nacional de Reformas (não confundir com o Partido Nacional Renovador...) foi hoje apresentado por António Costa no Centro de Congressos de Lisboa. Perante uma plateia de empresários, o primeiro-ministro desfiou uma ladainha bem-intencionada, falando nos bloqueios estruturais com recurso a um gráfico sobre o desempenho da economia nos últimos vinte anos. A partir desse gráfico, António Costa apontou os problemas da falta de qualificações, do desemprego, da emigração e da baixa produtividade como os catalisadores das más performances registadas desde 2001. No entanto, falhou os dois pontos fulcrais: a adesão ao Euro e a entrada da China na Organização Mundial do Comércio. Seguidamente, o primeiro-ministro elencou os seis pilares estratégicos do PNR, a saber:

 

Qualificação - Neste ponto, Costa falou da aposta na rede pré-escolar e no combate à precariedade. Ambos os desígnios são louváveis. Ainda assim, deixo o alerta: nem sempre uma população mais escolarizada é sinónimo de aumento do rendimento, basta recordar a crónica (A Educação: os Mitos e o Pêndulo) que Maria Filomena Mónica escreveu, a 22/2/2003, no Público

 

Em 1980, o Egipto ocupava o lugar 47 na lista dos países mais pobres do mundo (se tivermos em conta o rendimento per capita). Quinze anos mais tarde, e apesar de, entre 1970 e meados da década de 1990, a frequência do ensino básico ter aumentado cerca de 90%, a do ensino secundário ter passado de 32% para 75% e de, entre 1970 e 1980, a do ensino universitário ter dobrado, sendo, na última data, de 17% da população com idade susceptível de ter acesso a este nível de escolaridade, o seu lugar descera para o de 48. Se compararmos a situação deste país com a Coreia do Sul, um país que igualmente investiu na educação, as diferenças são aparentes. Aqui, a taxa de crescimento económico, entre 1960 e 2000, foi de 7% ao ano (a do Egipto foi de 2%). Conclusão: o crescimento e a educação têm uma relação mais complexa do que se pensa.

 

Inovação - Aposta nos produtos de valor acrescentado e na digitalização. Se a primeira podia ter sido enunciada pela minha professora de Geografia do 11º ano, a segunda é mais pertinente (que eu me lembre, em 2004/2005 ainda não fazia parte do programa...). Fico espantado com o pouco grau de digitalização nos negócios em Portugal, até em coisas corriqueiras, como o inventário de produtos existente numa loja física (nas livrarias pequenas, por exemplo, só vejo a Letra Livre fazer isso de modo sistemático). O argumento geográfico também foi interessante, uma vez que a digitalização permite superar essa fatalidade, aproximando-nos dos centros de decisão/negócios. Na minha opinião, faltou abordar a criação de think tanks

 

Território - Aqui, o foco concentra-se no Mar e na reabilitação urbana. Sobre o Mar, o PM não se alongou muito, talvez pela estafada retórica associada ao tema. Acerca da reabilitação urbana, Costa decretou o fim da «Era Betónica» (acabei de inventar), dando ênfase à recuperação de edifícios. Uma boa notícia, dado que o lobby da construção tem sido, a par das farmacêuticas, o maior cancro nacional.

 

Estado - Explicação algo negligente sobre como pretende modernizar o sector. Falou no Simplex, dando o exemplo da fusão de processos em matéria ambiental, na Justiça e pouco mais.

 

Empresas - Sinalizado como vector prioritário do governo, a par da Igualdade Social, o primeiro-ministro não adiantou que impacto terá a neutralidade fiscal para os sócios que invistam nas suas empresas. A reestruturação das dívidas fiscais, numa «lógica positiva», junto da Autoridade Tributária e da Segurança Social, parece-me bem. No entanto, nada de ilusões: o orçamento deste ano prevê novo corte no investimento público, que poderia ser alocado à recapitalização das PME.

 

Igualdade Social - Centrando-se no SNS, António Costa falou das reformas que «Bruxelas gosta», aquelas que permitem «fazer mais com menos». Vá lá, ao menos não falou no «jargânico» reafectação de recursos, limitou-se a sublinhar a importância das Unidades de Saúde Familiar em detrimento dos hospitais. Quanto ao IRS, tenho uma visão particular sobre o assunto, pois não me parece que o combate à exclusão passe pela criação de novos escalões. Nos níveis mais baixos, poderá funcionar ao contrário, levando a uma estratificação entre pobres e menos pobres sem que se retirem grandes dividendos em sede fiscal.

 

No final, o primeiro-ministro declarou que a economia necessita de estabilidade e não de um «choque fiscal, choque de conhecimento ou choque de conhecimento» (a omissão do choque tecnológico foi significativa). Falta saber se este programa, inserido no Portugal 2020, dinamizará a economia, repercutindo duradouramente os seus efeitos. Sinceramente, continuo a pensar que sem a resolução do problema europeu (moeda única, Tratado Orçamental e o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento que se avizinha) a economia manterá o registo medíocre da última década e meia.

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