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Zibaldone

Zibaldone

30
Abr16

Uma coruja no quarto

Francisco Freima

Como escrevi nos factos do Liebster Award, já fui visitado por uma coruja. Contextualizando a ocorrência, estávamos no Verão e jogavam-se as Olimpíadas de Londres. O calor não me deixava dormir, pelo que abri a janela e fui para a secretária escrever algum poema que me surgisse. Enquanto esperava, apareceu do nada uma coruja: entrou pelo quarto, fez um voo desastrado em redor e veio pousar em cima de um livro que tinha na mesa. Estas coisas nem me surpreendem muito, no meu quarto já recebi visitas de andorinhas, pardais, melros... mas claro que uma coruja merece outras atenções. Devagarinho, levantei-me, fui buscar a câmera e filmei-a.

29
Abr16

Mário de Sá-Carneiro

Francisco Freima

Mário de Sá-CarneiroO centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro foi alvo de alguma atenção por parte da imprensa. Num país que prima pelo esquecimento, a excepção nota-se e é uma pena que tarde em constituir-se como regra. 

 

Passando à poesia propriamente dita, escolhi um poema dos Indícios de Oiro, naquela que considero ser a sua melhor fase: 

 

SALOMÉ 

 

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

 

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minh'alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

 

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me...

 

Mordoura-se, a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
 
Mário de Sá-Carneiro
 
Soneto luxuriante, marcado pelas sensações, Salomé inspira-se na personagem bíblica que dançou para Herodes Antipas. Como é sabido, a dança fascinou-o tanto que este comprometeu-se a satisfazer qualquer desejo de Salomé. Instigada pela sua mãe, Salomé pediu a cabeça de João Batista. 
 
Feito este parêntesis, para mim neste poema o sujeito alterna a vigília com o sono. Vou mostrar-vos como eu o vejo:
 
Realidade
 
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que a lua...
 
Sonho
 
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...
Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
 
Realidade
 
Tenho frio... Alabastro! A minh'alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

 

Nas duas quadras encontramos estes estados alterados da percepção, que posteriormente fundir-se-ão nos tercetos, quando o poeta é chamado por Salomé. Acedendo às suas solicitações, o sujeito lírico decide-se a partir em direcção ao sonho («Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me/Na boca imperial que humanizou um Santo...»). Outra forma de sentirmos o contraste entre o sonho e a realidade são as cores: na realidade predomina o branco enquanto no sonho o esplendor da luz está longe de «virgular-se em medo», como sucede no primeiro verso. Na segunda quadra, Salomé dá a provar ao sujeito lírico o sonho («Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,/Alastra-se pra mim num espasmo de segredo...»), tornando-o dependente. O chamamento feito em Íris é uma referência ao lugar onírico onde Salomé definha enquanto espera uma decisão do autor. Este acaba por escolher o sonho: «Ergo-me em som, oscilo e parto, e vou arder-me/Na boca imperial que humanizou um Santo.» A «boca imperial que humanizou um Santo» parece-me uma referência à ópera de Richard Strauss, na qual Salomé beija João Batista depois de ele ter sido degolado.

28
Abr16

Aforismos

Francisco Freima

Um tudo ou nada termina num mais que tudo ou menos que nada.

 

O sectário tem mentalidade de secretário otário.

 

Faz sentido que o mistério seja o caminho.

 

Além dos Brejos de Azeitão, agora existem os Abreijos do Coração...

 

O mundo é uma aldeia Potemkin global.

 

O fala-barato escreve com palavras caras.

 

Colar cartazes é como se aspirássemos na vertical.

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