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Zibaldone

Zibaldone

30
Set16

ONUS

Francisco Freima

António Guterres.jpgNunca percebi o unanimismo em torno de portugueses que se candidatam a cargos internacionais. Compreendo ainda menos essa atitude quando os casos envolvem trânsfugas como Durão Barroso e António Guterres. Ao contrário do mito posto a circular, Guterres não fez um bom lugar no ACNUR. Pelo contrário, as auditorias às contas do Alto Comissariado revelam uma gestão pouco transparente, relaxada e despesista. Claro que a imprensa portuguesa ignora estes factos. O escrutínio deixou de fazer parte das suas competências, substituído agora pelo acriticismo perante a candidatura de um português a secretário-geral da ONU. 

 

Dá-me festa a indignação geral contra a candidatura de Kristalina Georgieva. Há pouco ouvi Jorge Coelho afirmar, na Quadratura do Círculo, que ouvira dizer que Georgieva só aparecera agora porque o staff da sua campanha não a considerava minimamente preparada para os debates! Só estamos a falar da vice-presidente da Comissão Europeia... de resto, no que consistem esses debates? Conversa fiada, generalidades sobre os direitos universais, passarinhos e borboletas. Alguém acredita que a nova candidata da Bulgária tinha medo de debater com Guterres, o Bonacheirão, nesse concurso Miss Universo? Só em Portugal... quando as coisas não nos correm de feição, toca a recorrer ao diz-que-disse... pois eu pergunto: não somos nós o país do desenrascanço? Porque estamos então chateados com o facto de Georgieva ter passado por cima dos procedimentos correctos, apresentando a candidatura à última da hora?

 

Outra: Jorge Coelho disse que a búlgara era uma tecnocrata. E Guterres, o homem dos formalismos, dos debates, do cumprimento de todas as bizantinices, é o quê? Um burocrata. Outra: a indignação da laranjada. O PSD faz parte do Partido Popular Europeu e não sabia das congeminações em curso? Das duas, uma: ou foi «comido de cebolada» ou joga em dois tabuleiros. Num país com uma opinião pública atenta e uma comunicação social forte, a notícia principal dos últimos dias seria mesmo essa: confrontado com tamanha traição, o que fará o PSD? Abandona a bancada do PPE? Exige explicações a Angela Merkel? Denuncia as artimanhas dos seus correligionários europeus? Pelos vistos, faz de conta que não se passa nada, uma espécie de marido/mulher traído/a que opta por perdoar, sorrir e manter as aparências. É uma posição legítima, mas que deveria ser explicada. Aliás, caso tenham sido ultrapassados pelos acontecimentos, só evidencia que os parceiros europeus conhecem bem Passos Coelho, o homem que gosta de «comer e calar». Se andam a jogar em dois tabuleiros, pior. Além de hipócritas, revelam um maquiavelismo nada salutar a quem anda com pintriostismos de lapela.

29
Set16

O inimigo público

Francisco Freima
29
Set16

Zola

Francisco Freima

Émile Zola.jpgPassam 114 anos desde a morte de Émile Zola, uma morte estúpida, nunca esclarecida. Se hoje em dia sou de esquerda, bem que lhe devo muita dessa filiação. Foi o clarão das suas palavras no J'Accuse que dissipou em mim todas as dúvidas, que me fez vibrar de indignação a um século de distância. Sim, Léon Blum, não foste só tu a sentir esse entusiasmo juvenil de seres acordado pelo ardina, teu conhecido, a bater na janela do rés-do-chão onde vivias. Sucessivas gerações têm lido o L'Aurore nessa bela manhã de Janeiro. Eles pensavam que tinha acabado! Apenas tu, Zola, tiveste a lucidez, a inquietação, o vislumbre dos remorsos futuros perante uma acção justa não-praticada. 

 

Para quem não conhece, passo a explicar: em 1894, o capitão Alfred Dreyfus, de origem judia, foi preso injustamente sob a acusação de traição à pátria. Levado a conselho de guerra, foi condenado ao desterro na maldita Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Através do empenho de Scheurer-Kestner e da hombridade do tenente-coronel Georges Picquart, o processo seria reaberto. Mais: descobriu-se que Dreyfus afinal não era culpado, que o conde Walsin Esterhazy é que era o autor de tão vil traição. Este ser peçonhento, defendido pelo meio católico e conservador, haveria de escapar à condenação da Justiça francesa, mas não à da História. Dos anti-dreyfusistas, só o tenente-coronel Henry (que forjara as provas contra Dreyfus) teve vergonha bastante para se suicidar. 

 

É estranhamente belo ver a força do J'Accuse, que, segundo Charles Péguy, «virou Paris do avesso». Este texto explosivo pôs «a verdade em marcha», foi o ponto de partida para trazer Dreyfus de novo ao mundo dos vivos, para reabilitar Picquart (haveria de ser ministro da Guerra), para dar esperança à humanidade. No entanto, logo após ser publicado, o seu efeito foi o processo por difamação movido contra Zola, que o levou a sair do país antes de ser condenado a uma pena de prisão. Um escritor tremendamente popular e bem-sucedido, o autor da saga dos Rougon-Macquart podia muito bem ter ficado no conforto do lar em vez de ir à procura de problemas. Mas Zola, além de um notável escritor, era um cidadão exemplar: ao ver a injustiça cometida, ergueu bem alto as bandeiras da liberdade, da justiça, da verdade!

J'Accuse.jpgO Caso Dreyfus, como ficaria conhecido, levou ao primeiro confronto entre intelectuais de esquerda e de direita. A própria palavra «intelectual» fora recuperada pelo escritor Maurice Barrès, um anti-dreyfusista que a utilizava desdenhosamente, para mostrar o pretensiosismo dos dreyfusistas, a suposta arrogância de quem ia contra o povo, contra as tradições, contra o exército, contra a unidade nacional. Mas o mais escandaloso era a ideia defendida por esta direita, de que a verdade e a justiça de nada valiam perante a segurança nacional e a razão de estado! Foi o Caso Dreyfus que trouxe o anti-semitismo para a ribalta, além de ter germinado nesse ambiente a pérfida Action Française de Charles Maurras. 

 

Mas concentremo-nos na luz: Zola, na redacção do L'Aurore, a ler o seu manifesto a Georges Clemenceau e a Ernest Vaughan, perante uma plateia extasiada, consciente de que em breve, no dia seguinte, fariam História. É estranhamente belo que um texto, um amontoado de palavras juntas continue a suscitar tamanha paixão nos corações sedentos de justiça. É igualmente estranho pensar que se alguém não tivesse incriminado Dreyfus, se este não tivesse sido injustamente condenado, se Zola não tivesse tomado a sua defesa em mãos e não escrevesse J'Accuse, se, enfim, nada disso tivesse acontecido, talvez eu não fosse de esquerda. 

 

Haverá maior poder, o de influenciar o futuro? Zola não morreu, vive em todos aqueles que continua a tocar com a sua chama 

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