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Zibaldone

Zibaldone

31
Dez16

Eleições na Somália

Francisco Freima

JOHN NYAGAH Nation Media Group.jpgEnquanto Yahya Jammeh prossegue a sua birrinha na Gâmbia, na Somália as eleições presidenciais foram novamente adiadas. Pior: a única mulher que se havia candidatado, Fatuma Dayib, anunciou a sua desistência após lançar críticas à corrupção envolvida em todo o processo. Para compreender estes constantes falhanços, cumpre conhecer um pouco o sistema político somali.

 

A eleição do Presidente da Somália não é feita por voto directo, antes passa pela eleição de 14 025 delegados, que por sua vez são escolhidos pelos seus líderes tribais. No país, os haweiye são a maior tribo, seguidos pelos darod. Neste momento, os principais concorrentes à presidência são Hassan Sheikh Mohamud (actual detentor do cargo; pertence aos hameiye) e Omar Ali Sharmarke (actual primeiro-ministro; pertence aos darod). A complicar as contas está a eleição do Presidente do Parlamento, que não pode pertencer à mesma tribo do Presidente da Somália. Espera-se que este intrincado sistema venha a ser substituído pelo modelo de eleição directa em 2020, mas para já o poder continua nas mãos dos chefes tribais. 

 

Apesar de a Somália ser hoje um Estado falhado, não podemos desistir deste país. Ainda há duas semanas veio a lume uma reportagem no Daily Monitor que evocava os tempos áureos da diplomacia somali. Com efeito, e apesar de todos os defeitos de Siad Barre, nos anos 70 o governo somali tinha prestígio suficiente para ser incumbido (pela União Africana) da mediação do conflito entre o Uganda e a Tanzânia. Em 1972, o ditador Idi Amin via o país ser invadido por tropas vindas da Tanzânia, partidárias de Milton Obote, o seu grande rival político (apeado do poder por ele no ano anterior). A reacção foi feroz: além de ter mandado prender vários cidadãos britânicos (que acreditava fazerem parte da conspiração), neutralizou o ataque e passou à contra-ofensiva, iniciando bombardeamentos contra Bukoba, onde estava situado um dos campos de treino das guerrilhas pró-Obote (o outro estava em Tabora). Por esta altura, o Uganda já contava com o apoio da Líbia, materializado em alguns aviões. A Tanzânia, vendo o feitiço virar-se contra o feiticeiro, pediu então à União Africana para mediar o conflito. Foi nesse papel que Barre se destacou, ao propor cinco pontos a serem respeitados entre os beligerantes. Os pontos, em forma de perguntas, iam ao âmago dos problemas a serem resolvidos pelas partes. Com o tempo, o conflito foi amainando e a Somália saiu engrandecida desta história. 

 

Voltando à actualidade, desse país já pouco resta. Todavia, o povo somali vai dando provas de extrema coragem na criação das condições mínimas para a realização das presidenciais. Muitos elementos da comissão eleitoral têm sido mortos por terroristas do Al-Shabaab, ainda assim incapazes de travar aqueles cuja missão é a construção de um Estado de direito democrático. 

30
Dez16

Personalidades do Ano

Francisco Freima

Mário Nunes.jpgPortugal Mário Nunes

 

Num mundo onde os verdadeiros heróis escasseiam, Mário Nunes colocou a fasquia alta. Um Heitor dos tempos modernos, morreu a lutar na longínqua Síria contra o Daesh. Tal como o Troiano podia ter virado as costas a Aquiles, o Português podia ter encolhido os ombros ao saber do conflito na Síria. No entanto, sendo um militar, preferiu cumprir o seu dever e deixar a Força Aérea Portuguesa para ir lutar pela democracia noutras paragens. O país, pouco acostumado a exemplos de bravura, tarda em reconhecer o herói. Alguns têm a audácia de lhe chamar «desertor» e muitos companheiros de armas não lhe perdoam o voluntarismo. Sozinho, Mário Nunes pôs a nu a cobardia das Forças Armadas. Exemplo incómodo, é natural que o tentem apagar da História. Tal como estão concebidas, as Forças Armadas são a reforma em idade activa, um sítio onde muitos se dedicam a puxar lustro às relíquias nacionais e aos generais de secretária. Custa perceber um país que condecora porteiras por abrigarem quem foge de um massacre e deixa no esquecimento o jovem que morreu a lutar contra aquilo que fez essas mesmas pessoas fugirem.

 

Descansa Em Paz, Herói 

 

Internacional Adama Barrow

 

Liderou a coligação que derrotou Yahya Jammeh nas eleições da Gâmbia. O seu discurso mobilizador arrastou multidões e impediu que a comissão eleitoral fizesse o mesmo de sempre: declarar a vitória do ditador. Até agora, Jammeh não reconhece a derrota, mas a verdade é que se encontra cada vez mais isolado. Até já se fala em intervenção militar na Gâmbia para retirar a lapa do poder.

 

O agente imobiliário e antigo segurança de uma loja Argos em Londres tornou-se numa figura ímpar. A esperança que transporta é a de todo um continente em busca de líderes carismáticos. Num ano em que a revista Time escolhe Donald Trump como a figura do ano, fazendo os órgãos de comunicação social eco dessa nomeação, Adama Barrow é a antítese do magnata norte-americano: subiu a pulso, ganhou as eleições com um discurso positivo, facto tanto mais surpreendente quando sabemos que durante a campanha inúmeros jornalistas foram presos, jornais foram fechados, reportagens foram censuradas. Contra todas as probabilidades, Adama conseguiu o impossível. Sem dúvida nenhuma, a grande figura internacional de 2017.

Adama Barrow.jpg

29
Dez16

Franchising revolucionário

Francisco Freima

PIVÔ: Bom dia, o directo de hoje é realizado a partir de uma convenção de jovens empreendedores, que conta com a presença de inúmeras empresas portuguesas e estrangeiras. Passo já a palavra à nossa repórter lá em baixo, uma estagiária cujo nome não me recordo. 

 

REPÓRTER: Obrigado, pivô famoso. Estou aqui na banca de um jovem empreendedor que, segundo me disse há pouco, é o CEO da Revolution Demo, não é assim?

 

EMPREENDEDOR: É sim, sou o Ernesto Castro e sou um dos sócios-fundadores da Revolution Demo, juntamente com o conjunto de pessoas simpáticas que está a ver aqui.

 

REPÓRTER: Já agora, pode apresentar os seus partners?

 

ERNESTO: Claro que sim. Aquele a rir-se é o Amílcar Cunhal, o que está a conspirar com ele é o Arnaldo Saraiva de Carvalho e a rapariga simpática a acenar para a câmera é a Sitta Eufémia.

 

REPÓRTER: Falando da Revolution Demo, em que consiste o vosso negócio?

 

ERNESTO: Nós estamos no ramo da exportação de revoluções. Basicamente, consiste em...

 

REPÓRTER: Desculpe interromper, Ernesto, mas a vossa startup não se dedica a revolucionar a forma como as demonstrações de produtos são feitas junto do grande público?

 

ERNESTO: Ah, isso foi o que eu disse para sacar a entrevista. Se tivesse estado na nossa formação sobre TSP perceberia melhor...

 

REPÓRTER: Mas o que é que um workshop em Telecommunications Service Provider tem a ver com...

 

ERNESTO: Não, não. Neste caso, TSP significa Técnicas Subversivas de Propaganda.

 

REPÓRTER: Então qual é o vosso core business?

 

ERNESTO: Nós somos uma empresa de consultoria revolucionária. Oferecemos a nossa experiência e analisamos os riscos e vulnerabilidades inerentes a cada processo revolucionário.

 

REPÓRTER: Qual foi o vosso influencer?

 

ERNESTO: O Passos Coelho, quando disse aos jovens para saírem da sua zona de conforto. Como tinha o objectivo de mudar o mundo, comecei a estudar os processos revolucionários do passado, de forma a aconselhar os revolucionários do presente sobre as melhores medidas para atacarem o poder.

 

REPÓRTER: Já atingiram os vossos main goals?

 

ERNESTO: Nem por isso. Mas como pode ver (retira uma AK-47 de um caixote), armamento não nos falta. (Dispara tiros para o ar) Pavões, empreendedores e curiosos da miséria alheia: toca a cavar daqui!

 

(O público atropela-se, grita, tenta sair o mais rápido possível)

 

REPÓRTER: (olhando para a câmera, com as pernas a tremer e a consciência do furo que lhe poderá valer um lugar na estação) Estamos aqui na banca de Ernesto Castro, o jovem empreendedor que entrevistávamos há pouco e que entretanto lançou o pânico na convenção...

 

ERNESTO: O pânico, não: o Terror. Ao menos não falas Inglês quando estás nervosa. Vá, pega nisso (atira-lhe uma granada para a mão). Puxa a cavilha de segurança, conta até cinco e atira contra a tua estação.

 

REPÓRTER: Mas eu, o con-con...o contrato...

 

(Sitta Eufémia pega numa bazooka e rebenta com metade do pavilhão só para destruir a banca da estação televisiva)

 

ERNESTO: Haja alguém... Bem, o nosso trabalho aqui está feito. Eh, miúda, não te esqueças: TSP, Técnicas Subversivas de Propaganda. Obrigado pelo tempo de antena.

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