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Zibaldone

Zibaldone

31
Jan17

Pier Paolo Pasolini III

Francisco Freima

Evangelho segundo São Mateus.jpgTerça-feira, 5 de Março (fim do dia)

 

Agora, por misteriosa escolha, o siroco

rouba ao crepúsculo a crueza da Primavera

que é uma alegria do Norte, e traz

para as ruas as primeiras calças brancas.

Vão-se-me secando as rosas do optalidon,

que me mantiveram de pé durante a visão

da minha pobre Deposição, diante dos juízes.

E ao passar diante de San Pietro, no início

de uma nova Primavera, que é o seu fim,

o bravo escritor é um alquebrado cigano

visitado pela poesia profética.

Eis Pedro II, que desce para a sua praça,

de repente deserta, e, na dor imensa

da ferida que lhe traça dois sulcos de sangue

no peito, passa as mãos pelo peito e pelas vestes,

surpreso por estar tão só e ter de morrer...

«Fui Papa – grita ele – por amor poético a Cristo.»

Nem burgueses, nem bárbaros o compreendem.

A época é a nossa, só mais próxima do fim,

e é o início da Nova Pré-História.

 

Pier Paolo Pasolini, Poemas (trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo), p. 315; Assírio & Alvim

 

A principal novidade da terceira parte de Pedro II é o aparecimento da personagem principal. No início há nova referência ao tempo, que agora se pode situar em clara oposição com a da primeira parte (tramontana/siroco). O poeta contextualiza a situação, dando a entender que o efeito produzido pelo optalidon (medicamento muito popular na época) está a desvanecer, ficando, na vez do «bravo escritor», o «alquebrado cigano». A referência à «nova Primavera» não é mais do que a constatação dessa transformação dos sentidos e do tempo. A repentina aparição de Pedro II anuncia uma época que marcará «o início da Nova Pré-História», podendo burgueses e bárbaros muito bem ser os dois sulcos de sangue que brotam do seu peito, ambos incapazes de compreender a sua invectiva: «Fui Papa – grita ele – por amor poético a Cristo.» Nesta, a biografia de Pasolini cruza-se com a de Pedro II, já que também ele poderia proclamar: «Fui Realizador por amor poético a Cristo.» Efectivamente, o filme que se seguirá a Ro.Go.Pa.G será O Evangelho segundo São Mateus, em boa hora reabilitado pelo Papa Francisco, e que após anos de censura foi descrito no jornal do Vaticano (L'Osservatore Romano) como «o melhor filme já feito sobre a vida de Jesus.» A incompreensão gerada na assistência não é mais do que esse ambiente vivido por Pasolini durante o julgamento de Ro.Go.Pa.G. e das críticas que a Igreja Católica fará posteriormente a O Evangelho segundo São Mateus.

 

Na pele de um «alquebrado cigano» após a defesa brilhante da Poesia na segunda parte, o poeta subverte a realidade em profecia, tornando-se Pedro II a pregar no deserto da Nova Pré-História. 

31
Jan17

Diário expedicionário

Francisco Freima

31 de Janeiro (1885) - Caminhámos sempre a E. Passámos dois rios, um às 8 h. e o outro às 4:30. Das 10 h. ao meio-dia só chuva constante, aguaceiros e trovoadas de N. E. Apanhámos esta furiosa chuva no mato, ficando completamente encharcados! Continuam os terrenos alagados. Acampámos às 4:30. Tudo deserto (12' E.).

 

videira em grande abundância, vivendo perto dos rios, terras sombrias e húmidas. Nos rios muita borracha. Parece que vamos ao longo dum grande rio.

30
Jan17

Não aprenderam nada

Francisco Freima

Jornalistas solidários com escolas privadas.jpgA imprensa continua a dar largas à azia pela vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas. Como falharam em toda a linha, os especialistas em política internacional estão cada vez mais acintosos – na quinta-feira, ouvi mesmo um desses sujeitos na SIC Notícias a dizer que o conhecimento de Trump da política internacional não ia além da esquina da rua onde vivia. Até pode ser verdade, mas por momentos pensei que estava numa tasca (só faltou o jarro de vinho e o arroto no final).

 

Com os especialistas a necessitarem de ir à revisão, os média decidiram colocar no ar tudo o que de anti-Trump vai aparecendo nas redes sociais: memes, tweets, vídeos dobrados com diálogos parvos... tudo serve para achincalhar a escolha do eleitorado, aquele que para todos os efeitos é o Presidente legítimo dos EUA. O homem ainda só entrou no cargo há uma semana e eu já estou cansado da campanha movida contra ele. Se isto for assim durante o mandato inteiro, não sei se não será a imprensa a provar novamente do veneno que anda a servir. Qualquer pessoa vê que os jornalistas portugueses andam zangados com o povo desde as legislativas de 2015. A forma desajeitada como tentam colar Trump aos populismos na Europa, e a forma como tentam colar estes aos partidos que apoiam o Governo, é de uma indigência atroz. Não compreendo esta atitude, até porque em 2019 terão muito provavelmente de volta os seus queridos PSD, PS e CDS como partidos incontestados no panorama político português. A campanha mediática montada contra o BE, retratado com os clichés habituais da hipocrisia, da irresponsabilidade e das «causas fracturantes», vai de vento em popa. Uns atrevidos até já dizem que o Bloco defende o mesmo que Trump...

 

Mas mais engraçado é ver o DN, claramente o jornal online que mais gralhas produz por dia, a gozar com a administração Trump por se ter enganado no nome de Theresa May, grafando Teresa May, o qual dizem ser de uma estrela pornográfica. Seria como ver o Jorge Mendes a chamar corrupto ao José Veiga... Tudo isto para dizer que a comunicação social não aprendeu nada com as eleições: falharam em toda a linha, divulgaram sondagens manipuladas durante as campanhas e nenhum desses directores cara-de-pau colocou o lugar à disposição. É que todos eles, esquecendo a sua «proverbial» isenção, fizeram ostensivamente campanha por Hillary Clinton, tal como haviam feito em 2015 pelo Pàf. 

 

Estão a ser anos difíceis para os jornalistas portugueses. O meu conselho? Vistam-se de amarelo...

30
Jan17

Diário expedicionário

Francisco Freima

30 de Janeiro (1885) - Continuámos a construção da ponte, que estava concluída às 10 h. Passámos o rio e pusemo-nos em marcha às 11 h. Resolvemos caminhar a E. do meio-dia à 1 h. Aguaceiros e trovoada de S. E. Parece que tudo se revoltou agora contra nós. Continuámos em floresta deserta e depois terrenos alagados. Acampámos às 4 h. A nossa situação está um pouco difícil. Vinha em grande quantidade.

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