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Zibaldone

Zibaldone

31
Mar17

Artur de Sousa «Pinga»

Francisco Freima

Pinga.jpgAs pessoas têm memória curta, mas a história dá bons exemplos do que é efémero e do que é eterno. Isto a propósito do recente baptismo do aeroporto do Funchal, que passou a ostentar o nome de Cristiano Ronaldo. Prevejo que poucos séculos bastarão para que o ídolo madeirense seja mais um ilustre desconhecido para as gerações vindouras... O futebol é o momento, vive das jogadas e das emoções que decidem determinado jogo, ficando no imaginário popular os momentos mais marcantes na carreira de um jogador. Ninguém no século XXV irá passar o dia a ver os jogos de há quinhentos anos atrás, a não ser que esteja a escrever uma tese sobre o assunto – isto dando de barato que ainda existirão teses... e aeroportos.

 

Mas se o futebol não é dado à eternidade, isso não quer dizer que mereça a nossa indiferença. Por exemplo, ninguém sabe os nomes dos gladiadores da Roma Antiga, mas todos conhecemos um pouco daquilo que eles faziam dentro da arena. Gozemos então o presente e aproveitemos para lançar luz sobre quem já vai declinando na memória colectiva. Neste caso, Artur de Sousa, mais conhecido por «Pinga» – a título de curiosidade, o seu nome chegou a ser equacionado para baptizar o antigo Estádio do Futebol Clube do Porto (Antas).

 

Segundo as crónicas, o primeiro grande futebolista da Madeira não ficava a dever nada a Cristiano Ronaldo. A velocidade e a técnica apurada de Pinga rapidamente lhe garantiram o estatuto de melhor jogador português de todos os tempos, fama que se traduziu numa transferência do Marítimo para o Porto. Na Invicta ficaria conhecido como um dos «três diabos do meio-dia» (os outros eram Valdemar Mota e Acácio Mesquita), devido ao facto de este trio ter uma vez jogado à hora do almoço contra o First Vienna, considerada a melhor equipa europeia da época. As jogadas diabólicas do tridente ofensivo redundaram numa vitória por 3-0 frente ao conjunto austríaco.

 

A genialidade de Pinga fez dele um jogador querido dos adeptos portistas, mas as saudades da mãe eram assunto recorrente na imprensa. Tal como Cristiano Ronaldo, era muito afeiçoado à sua progenitora, tendo ameaçado algumas vezes o regresso ao Funchal (conta-se que uma vez os responsáveis do clube tiveram de o ir buscar à Estação de São Bento). Outra característica que este astro madeirense partilhava com o agora melhor do mundo eram os ciúmes. Tendo sido o jogador mais bem pago do futebol português (chegou a ganhar 1500 escudos por mês), entrou algumas vezes em rota de colisão com a direcção, por crer que esta tratava melhor outros colegas recém-chegados, na linha dos estados de alma que episodicamente afectam Ronaldo em Madrid.

Scan0005.jpgAlém do amor à terra e da necessidade de se sentirem acarinhados, há ainda a questão do profissionalismo. Num tempo em que o futebol era um desporto praticamente amador, Pinga foi dos primeiros a ter um salário e a justificar dentro de campo o dinheiro que levava para casa. Na época de 1935/36 foi mesmo o melhor marcador do campeonato, ao apontar 21 golos em 14 jogos. Quando terminou a carreira, constavam no seu palmarés dois campeonatos de Portugal (1931/32 e 1936/37), um campeonato da I Liga (1934/35) e dois campeonatos da I Divisão (1938/39 e 1939/40). Foi ainda internacional A por 21 vezes, marcando 9 golos e tendo sido capitão em duas ocasiões. Como treinador, o seu maior feito seria a eliminação do Sporting da Taça de Portugal – Pinga treinava então o Tirsense; o Sporting era o dos «cinco violinos»...

 

Sobre Pinga, Cândido de Oliveira escreveu, em Abril de 1945, as seguintes linhas no jornal A Bola:

 

Artur de Sousa foi um jogador fulgurantíssimo – verdadeiramente genial. Talvez o maior talento de jogador do nosso futebol. Tudo nele era prodigioso: a concepção, como a execução; a imaginação viva e riquíssima marcada na escolha do lance ou do toque subtil, ou a finta intencional e preconcebida, ou no pormenor em que revelava a sua grande inteligência prática, o profundo e exacto conhecimento do jogo e dos jogadores e até sentido artístico – de verdadeiro artista do futebol.

31
Mar17

Diário expedicionário

Francisco Freima

31 de Março (1885) - Seguimos hoje pelo mesmo trilho, mas torto como uma linha na algibeira: O. S. O.! Encontrámos outro quilombo de guerra. E. fresco, (and. 656,3 n. c.). Fomos ultimamente seguindo um rio, aonde encontrámos um rinoceronte, ainda lhe atiraram mas fugiu. Fizemos umas 13 milhas e S. O. acampámos à 1:45. 

 

Agora aparecem dois caminhos, e não sabemos qual havemos de seguir.

30
Mar17

American Pastoral

Francisco Freima

Baseado no romance homónimo de Philip Roth, American Pastoral é um filme muito focado nas transformações dos EUA ao longo das décadas de 60 e 70. No centro da história temos Seymour «Swede» Levov e Dawn Dwyer, um casal popular (ele fora estrela do desporto universitário, ela fora miss Nova Jérsia) que decide iniciar a sua vida em comum nos subúrbios do Garden State. É nesse meio pacato que educam a sua filha, Meredith (Merry), cuja infância e adolescência serão marcadas pela dificuldade em comunicar com os outros devido à gaguez. Esta personagem, interpretada por Dakota Fanning, acabará por sofrer uma repentina evolução ao tornar-se uma activista anti-guerra do Vietname. O radicalismo de que enfermam as suas convicções fazem dela uma defensora da acção directa violenta. Assim, executa um atentado na localidade onde vive, no qual morre uma pessoa.

 

A partir daqui, o filme torna-se na busca dos pais pela filha que passou à clandestinidade, enquanto ao mesmo tempo procuram seguir com a sua vida. Na minha opinião, uma das falhas deste filme é a visão demasiado superficial acerca do percurso trilhado por Merry. Não existe sequer uma referência à organização em que ela milita – se a época aponta para os Weather Underground, os métodos são os da 19 de Maio, surgida apenas em finais da década de 70. Aos anos de extremismo político sucederão os anos de extremismo religioso: efectivamente, quando Swede reencontra Merry, esta segue uma das variantes mais radicais (e caricaturais) do jainismo. 

 

Apesar disso, é um filme que merece ser visto.

30
Mar17

Diário expedicionário

Francisco Freima

30 de Março (1885) - Continuámos a nossa derrota, largando do acampamento às 7 h. Temos seguido, ao que parece, o mesmo trilho, porém hoje o rumo veio muito para O. Não sabemos se vamos errados. Encontrámos um quilombo de guerra.

 

Fizemos umas 13 milhas rumo médio do S. O. Quando passámos pelo quilombo da gente, já estava abandonado! Fugiram de noite, tinham prometido ir connosco até ao T'chué! De dia E. fresco 4'. Encontro de um leão com o António, que tinha ido à caça. Eclipse total da lua.

29
Mar17

Uma nova Europa

Francisco Freima

Lisbon Vladivostok.PNGPara alguns críticos, o Bloco de Esquerda é um movimento anti-europeísta. Quem por lá anda sabe que o BE a dormir é mais a favor da Europa do que todos os partidos acordados. Mesmo em relação à União Europeia não existe consenso sobre o que fazer. Se uns pensam que a União é irreformável, outros ainda acreditam na possibilidade de a mudar por dentro. Comum à maioria é a necessidade da refundação do projecto europeu em moldes diferentes. Não existindo um posicionamento claro sobre a permanência ou não na UE, ninguém pode afirmar taxativamente que o BE defende isto ou aquilo. Quando muito, existem posições de órgãos como a Mesa Nacional, que em termos hierárquicos fica abaixo da Convenção. Isto pode fazer confusão a quem não milita no Bloco, mas é mesmo assim. 

 

Escrevendo a título pessoal, posso afirmar que sou dos que defendem a refundação da UE em bases completamente distintas. Desde logo com a implementação do sistema «um país, um voto». Depois, com a adopção de um modelo confederal limitado a certos sectores. A integração de outras áreas de intervenção, ou o aprofundamento da integração política e económica terão de ser objecto de referendo obrigatório, não podem ser iniciativas feitas ao arrepio da vontade popular. Aqui, a táctica dos referendos sucessivos até à vitória do «sim» não pode ser a norma. No mínimo, terão de passar 20 anos até à realização de um novo referendo sobre o mesmo assunto. A história da Europa a várias velocidades também não pode ter lugar no futuro: ou andamos todos ao mesmo ritmo, ou acabamos com um pelotão da frente a guiar os retardatários para o abismo. Também sou contra uma Europa dos fundos comunitários: dizem que esse dinheiro ajudou diversos países, incluindo Portugal... para mim, foi uma maneira engenhosa da Europa do Norte acicatar a corrupção no Sul. Os países devem contar somente com os seus recursos, senão criam uma cultura de dependência em relação aos subsídios. À conta de irmos pelos atalhos dos fundos estruturais, não fomos suficientemente lestos na defesa das nossas indústrias. Assinámos tudo de cruz. A cooperação tem de passar pelo apoio técnico, pelo empréstimo de equipamentos e pela formação de quadros que permitam a um país desenvolver-se por si mesmo.

 

Seria igualmente desejável que os países da Europa abandonassem a OTAN. Se queremos ser uma potência mundial, não podemos ficar dependentes dos caprichos norte-americanos. Se pretendemos alianças militares, juntemo-nos à Rússia. Isso é o que faz sentido: a Rússia faz parte da Europa; os EUA, não. Neste ponto, também critico as propostas que versam a criação das Forças Armadas Europeias. Os exércitos das uniões acabam sempre a virar-se contra os próprios estados, seja nos EUA (Guerra Civil Americana), na URSS (Primavera de Praga) ou na Jugoslávia (Guerra dos Balcãs). Desconfio que no futuro, se um país não aplicar uma qualquer norma exigida pela Comissão Europeia, será enviada uma legião para impor a pax no território rebelde... nessa altura, um «Brexit» resultará num banho de sangue.

 

Por último, a Europa tem de ser um projecto inclusivo, aberto ao contributo de todos os países. Os apoiantes da União Europeia deviam dizer à Croácia que unir não é impedir a adesão da Sérvia. Isso é simplesmente a Desunião Europeia que levou à saída do Reino Unido, e que antagonizou a Turquia ao ponto de esta preferir uma deriva totalitária a alinhar com os protectores do Sr. Orbán. Ah, a coerência...

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