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Zibaldone

Zibaldone

27
Jun17

Mandjombo

Francisco Freima

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Ao longo da sua história, o Belenenses contou com figuras ímpares, jogadores inexcedíveis na bravura e na forma como levaram a vida. Naqueles tempos, os futebolistas eram verdadeiros heróis, trabalhavam lado a lado com os comuns mortais nas fábricas, nas empresas e nos bairros onde viviam. Hoje são milionários mimados, a quem o toque de Midas permite a encenação de uma postiça riqueza, porque o verdadeiro tesouro deles devia ser a intrepidez no campo, o amor à camisola, a sede de glória... Por cada jogador que prefere ir para a China a troco de dinheiro, há milhões de crianças que crescem a aceitar o cinismo das ligações afectivas, a verem o amor como um estado passageiro, o futebol como a actividade dos mercenários.

 

Quando Vicente Lucas chegou a Portugal, o futebol já caminhava para a profissionalização. Ainda assim, a ética de trabalho daqueles jogadores tornava-os próximos do povo. Eram outros tempos, os salários relativamente bons estavam a milhas da realidade actual. O fosso entre clubes também era menor, o que permitia ao Belenenses intrometer-se na luta dos três grandes. A chegada de Vicente suscitou enorme curiosidade entre os adeptos, ou não estivéssemos a falar do irmão de Matateu. Esta é a primeira grande lição de vida e prova de carácter dele: chegar em 1954 ao clube do irmão, uma lenda viva dos relvados nacionais, e afirmar-se pelo talento. Outro menos apto teria sucumbido ao peso da pressão, mas Vicente, que na infância recebera a alcunha de Mandjombo (em landim significa muita sorte), conseguiu contrariar o lugar-comum do irmão na sombra do irmão. A chave foi a diferença: rotulado de Matateu II, haveria de se impor pela sua qualidade como médio de cobertura e não como avançado.

 

Em 1966, atinge o ponto alto da carreira, como um dos magriços que deslumbraram o mundo em Liverpool. No jogo contra o Brasil, «seca» Pelé de tal forma que o Rei fica completamente desarmado, tanto pela qualidade do rival, como pela têmpera daquele autêntico cavalheiro. Porque o Mandjombo, o filho da sorte, tinha a audácia de marcar os adversários sem recorrer a faltas, antes preferindo a inteligência da antecipação. Amuleto das quinas, lesionou-se contra a Coreia do Norte, falhando as meias-finais contra a Inglaterra – há quem assevere que com ele em campo a história teria sido diferente...

 

De regresso a Belém, em Outubro de 1966 um inacreditável acidente de automóvel muda-lhe o destino:

 

O condutor do outro carro fez uma manobra perigosa e eu, para não o apanhar, fiz um desvio, bati num poste e foi um vidro que me atingiu o olho. Tive de pegar na chave de fendas para que ele me trouxesse aqui, ao Restelo, no seu carro. Tinha a cara cheia de sangue, mas não me tinha apercebido de que a coisa era assim tão grave.

 

Vicente Lucas Flama.jpg

Aos 31 anos, Vicente terminava a carreira da pior forma, perdia a vista direita ao mesmo tempo que iniciava a transição para um futuro fora do futebol. Comprou dois andares, teve um café-tabacaria, mas foi tudo por água abaixo. Nova lição de vida: adaptou-se, tirou o curso de treinador, subiu a pulso até chegar aos escalões de formação do Belenenses. Por lá ficou, a formar gerações azuis durante décadas. Ultimamente, tem dado mais provas de vida, depois de submetido a delicadas cirurgias, que resultaram em amputações dos membros inferiores.

 

Dizem agora que o Mandjombo não é tão sortudo assim. Eu tendo a concordar, mas acabo por concluir que a alcunha ainda é fiel ao homem. O Vicente Lucas é uma luz no meio das trevas, mesmo que tenha perdido há muito os caminhos da sorte, a verdade é que nos tem dado a sorte de conhecermos um homem bom, humilde e honesto, um lutador que só traz ao espírito sentimentos elevados.

 

Viva o Vicente!

26
Jun17

Dar à língua

Francisco Freima

Anglicismos.jpg

Na sua última crónica no Diário de Notícias, Joel Neto escreve sobre os riscos que o português enfrenta num mundo onde a língua inglesa vai abrindo as portas da globalização. Sendo eu membro da «suposta tropa de elite de uma língua», há muito que vou temendo a dispersão dos nossos pela anglofonia mais informe.

 

Os Portugueses são demasiado subservientes quando o assunto é o estrangeiro. Se há coisa que eu admiro nos espanhóis é a sua pouca propensão para falarem na língua dos outros. Mesmo que estejam a comunicar em inglês, o donaire deles mantém-se intacto perante a estupefacção (e não raro a risota) dos nossos compatriotas. Os lusófonos acabam invariavelmente a lamentar nuestros hermanos, deplorando a sua pouca capacidade para a aprendizagem de outras línguas e o crime perpetrado pelas televisões espanholas, que em vez de legendarem preferem dobrar tudo o que vem do estrangeiro. Se neste último aspecto concordo com os nossos, o «ridículo» de quem pronuncia o inglês à castelhana não me aflige. Até porque convoca a velha oposição entre o português de Portugal e o do Brasil, o julgamento dos outros não por aquilo que estão a dizer, mas pela forma como o dizem. Somos muito dados ao acessório e, polémicas à parte, confesso que gosto mais da pronúncia brasileira.

 

Como vencer a batalha da língua? Na minha opinião, o poder está nas mãos dos artistas. Na música, por exemplo, temos tendência a ouvir canções que em português seriam consideradas pirosas. Há quem diga ser defeito da «última flor do Lácio», mas para mim é condicionamento mental e uma falta de bom gosto que se colou à memória colectiva, sob a forma do «pimba». Quanto aos escritores, o desafio passa também pela desconstrução do português como língua demasiado pesada para certos registos, nomeadamente o erótico. Além disso, torna-se necessário recuperar a capacidade de adaptar palavras estrangeiras. A vaga tecnológica trouxe o software, o smartphone, os gadgets... é preciso encontrar formas de superar este embrutecimento, um idioma tão rico como o nosso tem de ser capaz de encontrar soluções para a sua dependência do inglês.

 

De outro modo, continuaremos a ser uns parolos deslumbrados, que publicam citações em inglês no Facebook e acham-se muito modernos. Não somos, apenas repercutimos na actualidade a medieva fórmula da língua franca. Com a agravante de o inglês, ao contrário do latim, não ter nada a ver com o português.

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