Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Zibaldone

Zibaldone

23
Jun17

As bicicletas de O'Neill

Francisco Freima

Alexandre ONeill.jpg

O regresso à bicicleta está a fazer com que recupere recordações da infância. Quando pedalo até ao terminal fluvial do Seixal, fico por ali a fazer oitos no parque de estacionamento, até que surja o barco vindo de Lisboa. Na minha imaginação, é como se ele fosse o inimigo, sendo os carros ali estacionados ameaças adormecidas, à espera que os donos cheguem para tomar de assalto a tranquilidade da estrada. 

 

Recuperando as linhas de ontem sobre Alexandre O'Neill, é engraçado notar a presença da bicicleta em alguns dos seus poemas, como O Ciclista (Poemas com Endereço), Elogio Barroco da Bicicleta (A Saca de Orelhas) e A Bicicleta (As Horas já de Números Vestidas). Comecemos pelo primeiro:

 

O CICLISTA

 

O homem que pedala, que ped'alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o porvir na pedaleira.

 

Este é um poema curto, mas muito profundo. Chega até a parecer um haiku na forma como consegue dizer tanto em tão pouco espaço. Nele, o ciclista é um lutador que depende do seu próprio esforço para chegar a algum lado. Ao andar de bicicleta, consegue o suplemento de alma necessário que o passado lhe retirou. Se no presente «ped'alma», o passado é um peso do qual tenta livrar-se, com o trocadilho «tiracolo», estando o futuro na pedaleira. Próximo:

 

ELOGIO BARROCO DA BICICLETA

 

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais – eu que era um teórico
do ar livre – e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas – trrrim! trrrim! – pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

 

Neste soneto inglês, penso que o poeta atravessa algumas das sensações que eu próprio tenho experimentado: a redescoberta de uma perspectiva perdida, o reavivar do coração, amolecido pelas «quatro soníferas redondas almofadas» do automóvel, recorrendo ainda ao paradoxo destas pessoas correrem mas terem as almas paradas. Curiosamente, uma conclusão similar à que cheguei num soneto dedicado à espera de um comboio na estação. Na terceira estrofe vê-se que o poeta já não é apenas um «teórico do ar livre» – quantos de nós nunca tivemos essa percepção, da bicicleta ser uma vaca nas subidas e uma andorinha nas descidas? No final, as asas que pede a toque de campainha são aquelas que lhe permitirão traçar um «oito exemplar» na vida, oito esse que, pela sua forma, também é um número alado.

 

Por último, temos A Bicicleta:

 

A BICICLETA

 

O meu marido
saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

 

Numa altura em que a tragédia de Pedrógão Grande está na ordem do dia, devemos recordar também aqueles que partiram nas cheias de há 50 anos no Ribatejo. Em Novembro de 1967, estima-se que mais de 700 pessoas tenham perdido a vida. No blogue Não me Mexam nos JPEGs, a história desse triste episódio e do contexto em que foi elaborado este poema encontra-se bem explicada e ilustrada com as fotos de Terrence Spencer, o fotógrafo inglês que conseguiu fintar a censura e denunciar o caso. Este poema segue de perto a realidade, noutro blogue, o Terra Firme, poderão encontrar um interessante texto sobre o amor de O'Neill às bicicletas, onde o poeta escreve a determinado momento:

 

A bicicleta poderá ser a pedalada contestação dos amigos da Natureza. Para nós, os escravos do volante, ela não passa de mais uma ideia que nos faz sorrir. Nada substituirá, no nosso apreço, o automóvel. Nem no trabalho, nem no lazer. Por enquanto... Mas a bicicleta tem outros pedais que não podemos ver. Movido pela necessidade, esse «tubular engonço», como em jeito barroco uma vez lhe chamei, desenrola quilómetros bem menos alegres do que as tiradas que nele sonhamos fazer. A bicicleta pode ser o mundo às costas: serra de carpinteiro, caixa de ferramentas, cesto de padeiro. A bicicleta pode ser a cruz às costas.

 

E termina, transcrevendo um apelo que apareceu nos jornais daquela época, de uma mulher que, à falta de notícias do marido, esperava o pior. Foi esse apelo que O'Neill, tendo o cuidado de mudar as datas, transmutou em poesia:

 

O meu marido saiu de casa no dia 25 de Novembro para procurar trabalho no Carregado ou no Barreiro, levava: uma bicicleta a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro, vestia calças azuis de zuarte, camisa verde, blusão cinzento, tipo militar, e calçava botas de borracha e tinha chapéu cinzento e levava na bicicleta um saco com uma manta e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo e uma panela de esmalte azul. Como houve as inundações e não tive mais notícias, já estou alarmada e já espero o pior. Estou aflita, eu e os meus dois filhos.

 

Por último último, para terminar o post num registo mais ligeiro, ficam alguns «seixos» do poeta sobre bicicletas, e que revelam o seu humor satiricamente saturado de negro:

 

«Ele a esfaquear a mulher e a Volta a passar! "Que fazer?". Largou a faca, correu para a estrada e aplaudiu às mãos ambas os ciclistas, como qualquer outro.»

 

«Um olhar de vaca para as bicicletas.»

 

«"Para correr é preciso ter cabeça!", disse o filósofo da Volta. Disse ainda o filósofo: "É a terceira roda (a pedaleira) que comanda tudo? Não! É a quarta e chama-se cabeça!"»

 

«"Coitadinho! Com este calor!", exclamou a velha quando descobriu um ciclista espapaçado na sua cama.»

 

«Trocar a bicicleta por comida não é de bom ciclista.»

 

Bibliografia:

 

Alexandre O'Neill, Poesias Completas, pp. 208, 348, 417 e 448; Assírio & Alvim

22
Jun17

Do futuro até O'Neill

Francisco Freima

Alexandre O'Neill.jpg

Tenho pensado muito no futuro, tanto a nível pessoal como do mundo em geral. Não com aquela angústia que costuma perpassar as pessoas quando estão infelizes, mas com a curiosidade que temos quando somos crianças. Lembro-me de andar na primária e imaginar-me nas idades que vou tendo agora. Por mais parvo que possa parecer, via-me sempre como um janota vestido à século XIX, de bengala na mão e chapéu de coco na cabeça. Da parafernália anacrónica, a única que resistiu foi o relógio de bolso, o tal Molnija que era do meu pai e passou para mim.

 

Quanto ao futuro do mundo, os devaneios deslizam distraídos, como as bolas de sabão que sopro a partir da janela do meu quarto. Mas há sempre essa vontade de ligar o futuro distante com o passado, aquele em que imagino os humanos a criarem espaço a partir do nada, os tais humanos com uma cabeça do tamanho daquela insuflada em A Arte de Viver, do René Magritte, e eu a abotoar-me ao chapéu de O Filho do Homem... depois dói-me a cabeça, ponho um cobertor no chão e imagino que estou na corte de Al-Mu'tamid, as mulheres são gazelas, o vinho um rio de rubis a cair em cascatas desde as estantes...

 

Abro um livro ao calhas, Alexandre O'Neill compartilha da minha curiosidade em relação ao que aí vem:

 

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER

 

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

 

Alexandre O'Neill, Poesias Completas, p. 290; Assírio & Alvim

 

O O'Neill é um dos meus preferidos, se houve alguém que conseguiu aproximar o público da poesia, esse alguém foi ele. Mesmo os poemas que parecem datados, como aquele sobre o gás engarrafado, transportam críticas que ainda hoje ecoam no espírito de qualquer pessoa que não se reveja nos «baladeiros audazes». Nesses e naqueles que pretendem ser «escritores a tempo inteiro». Sobre o soneto aqui colocado, acertou em muito: menos horas de trabalho, relações mais libertas (pese o surgimento da Sida pelo meio), a tendência para computarmos tudo, a excelização do mundo, a recolha exaustiva de informação «sem perfurar demais» a memória... Até o ponto e vírgula da segunda quadra parece antecipar os emojis, neste caso o piscar do olho ao amor ;)

 

Amanhã escrevo sobre O'Neill e as bicicletas.

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor