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Zibaldone

Zibaldone

13
Mai17

A crise no Sudão do Sul #3

Francisco Freima

JM Lopez EPA.jpg

 JM Lopez/EPA (sul-sudaneses a fugirem da guerra)

 

No Sudão do Sul mantém-se a crise humanitária, adensada pela guerra que lavra naquele país desde 2013. No entanto, parece que a imprensa portuguesa começa a despertar para este problema, tendo nos últimos dias publicado uma série de notícias referentes aos milhões de crianças sem casa.

 

A oposição tem pedido a intervenção da comunidade internacional no conflito, afirmando que o presidente Salva Kiir está a realizar uma política de genocídio contra as tribos que não sejam dinka. Ao genocídio sucedem-se igualmente os ataques contra trabalhadores humanitários, incapazes de suster o ímpeto saqueador das facções em confronto. A pilhagem de alimentos num país onde 100 000 pessoas já estão a passar fome (e em que o Estado gasta metade do orçamento em armamento) acaba por ser a resposta da impotência perante a subida dos preços, garantida por uma inflação que escalou até aos 900%. Como vivemos num mundo global, não basta declarar a independência para que a nossa autonomia seja estanque em relação aos demais países: a crise no Sudão do Sul tem afectado vizinhos como a República Democrática do Congo e também o Uganda, devido ao decréscimo das trocas comerciais entre os dois países e à evasão fiscal, pois não existe um controlo efectivo das fronteiras.

 

Os milhões de deslocados representam também um problema para a União Europeia. Incapaz de uma política coerente de apoio aos países africanos, a UE continua a colocar a cabeça na areia enquanto milhares de refugiados sujeitam-se a tudo para atravessar o Mediterrâneo. Entre eles, estão os sul-sudaneses.

06
Mai17

#FreeDawitIsaak

Francisco Freima

Dawit Isaak Guillermo Cano Prize.jpgNo dia 3 de Maio, em Jacarta, a UNESCO atribuiu o Prémio Guillermo Cano a Dawit Isaak. Embora seja uma atitude louvável, não podemos ficar por aqui, tendo a ONU dado novo passo ao pedir a sua libertação. Volto a repetir a história: Dawit encontra-se preso desde 2001 e ninguém sabe nada dele. O crime deste jornalista foi ter publicado uma série de artigos incómodos para o ditador da Eritreia, Isaias Afewerki.

 

Os Repórteres Sem Fronteiras lançaram uma nova petição dirigida a Afewerki. Fica o texto (a tradução é minha, por isso talvez seja melhor ler o original):

 

Senhor Presidente,

 

Em Setembro de 2001, o seu regime aprisionou onze jornalistas e acabou com a imprensa independente na Eritreia. Entre eles estava Dawit Isaak, chefe de redacção do jornal Setit e cidadão sueco-eritreu.

 

Desde então, Dawit nunca foi formalmente acusado de nada, nunca foi presente a um juiz e nunca teve direito a um advogado. Ainda assim, ele continua detido.

 

Os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) têm hoje informações que apontam para a morte de sete colegas detidos com Dawit em Setembro de 2001. Contrariamente às afirmações do seu regime, nós não temos nenhuma prova de vida no que respeita a Dawit. A última remonta a 2010: trata-se do testemunho de um guarda prisional, que o descreveu como estando algemado e mantido em isolamento sob temperaturas infernais.

 

Se ainda estiver vivo, conforme o senhor alega, ele arrisca-se a morrer na prisão, à semelhança dos seus colegas.

 

No passado, o seu governo afirmou diante da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos que o vosso sistema judiciário era independente e tinha capacidade para julgar o caso de Dawit Isaak.  Afirmou igualmente que os preceitos legais na Eritreia permitiam a protecção contra detenções e prisões arbitrárias. Ora, até hoje, nem ele, nem nenhum outro jornalista pôde comparecer em tribunal.

 

Não se trata de ingerência, mas de apelar a que sejam respeitadas as leis e os princípios do seu próprio país!

 

É urgente agir para que Dawit Isaak, bem como todos os jornalistas detidos na Eritreia, seja libertado.

 

Quem quiser, assine e partilhe pelo maior número de gente possível. As vozes livres do mundo jamais serão silenciadas por ditadores.

 

Jornalistas portugueses, acordem para a vida: este é um dos vossos!

03
Mai17

Debate Macron/Le Pen

Francisco Freima

Não sei quem vai vencer o debate, mas sei que para a imprensa portuguesa será Emmanuel Macron. Os últimos dias, com a narrativa de que Macron não tem uma estrutura partidária, trouxeram o número habitual: fazer do ex-ministro um peso-pluma artificial para que os opinion makers, cheios de um falso espanto, apontem-no como a surpresa da noite. Na cantilena de todos, Marine Le Pen é uma política profissional prestes a massacrar o seu adversário. Do que eu tenho visto, parece-me mais o contrário: a calma de Le Pen contrasta com a emotividade de Macron. Vivendo nós numa sociedade que preza o espectáculo, basta que ele seja fiel a si mesmo para vencer.

 

Falo por mim, quero que o líder do En Marche! vença hoje e (sobretudo) no domingo. Só não gosto que me tomem por parvo: Macron é o favorito. Se vencer o debate isso não constituirá nenhuma surpresa, mas sim a normalidade. O resto é a hipocrisia dos iluminados.

29
Abr17

Nova doença

Francisco Freima

Na Libéria, uma estranha doença começou a ceifar vidas na última semana. Até ao momento as autoridades ainda não conseguiram identificar a causa das mortes, embora esteja já descartada a possibilidade de ser um novo surto de ébola. 

 

Ao que parece, o foco da doença teve origem no funeral de um líder religioso realizado no dia 22 de Abril, em Greenville. O balanço provisório aponta para 11 mortos e 9 outras ocorrências, estando a maior parte destes casos relacionados com o referido funeral. A situação está a ser acompanhada pelo FJ Grant Hospital, a principal unidade hospitalar na região afectada, não existindo nesta altura motivos para alarmismos.

 

De salientar igualmente a maturidade do povo liberiano, que, face às notícias, começou a implementar os procedimentos aprendidos durante o surto de ébola, do qual este país se livrou há apenas 10 meses. Este será um caso para acompanhar nos próximos tempos.

24
Abr17

Eleições em França

Francisco Freima

foto Le Temps.jpgCom a passagem à segunda volta de Emmanuel Macron e Marine Le Pen, a França dá um eloquente exemplo da crise que assola as fileiras sociais-democratas e democratas-cristãs na Europa. Tanto o Partido Socialista como Les Républicains saem muito mal desta história, sendo os principais derrotados da campanha.

 

Quanto aos vencedores, posso dizer que um não me entusiasma e que a outra só merece sentimentos de repulsa. O discurso do ódio de Marine Le Pen anda a prometer há alguns anos uma tragédia eleitoral – quem não se lembra da segunda volta entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen? Recordo que esta dinâmica ultra-conservadora não começou ontem, as suas origens remontam pelo menos às primárias norte-americanas de 1992, quando Pat Buchanan ia conseguindo a nomeação republicana contra o presidente da altura, o cinzento George H. W. Bush.

 

Ainda assim, se fosse um eleitor francês votaria em Emmanuel Macron. Mesmo não me entusiasmando, pior do que a Le Pen não será. Desconfio de pessoas que não se dizem de esquerda nem de direita, costumo ver nisso uma forma politicamente correcta de captar os votos do eleitorado hostil. É o caso de Macron, O Camaleónico. As projecções dão-lhe a vitória na segunda volta, mas eu gosto de ser prudente. Nunca subestimo ninguém, mesmo na realidade portuguesa, partidos como o MRPP ou o PNR merecem sempre a minha atenção, por mais delirantes que sejam os seus programas. Para mim, a política dos nossos tempos é como estar às escuras numa casa estranha: podemos colocar a mão numa maçaneta, mas dificilmente saberemos que porta estamos a abrir. Pelos vistos, os Franceses vão abrir a de Macron. O meu receio é que no fundo da sala, escondida a um canto, Marine Le Pen materialize o fantasma que os eleitores preparam-se para exorcizar a 7 de Maio.

 

O liberalismo macroniano terá grandes desafios pela frente. O primeiro será as eleições para a Assembleia Nacional: não tendo actualmente partido (mas sendo um antigo filiado do Partido Socialista), a presidência de Macron ficará muito marcada pela coabitação com o primeiro-ministro que venha a sair da nova correlação de forças na câmara baixa. O segundo será a sua definição enquanto político. Não basta dizer que não se é de esquerda nem de direita: a partir do momento em que comece a tomar decisões, logo se verá o que é o macronismo. Eu não tenho dúvidas: trata-se de liberalismo económico e pragmatismo político. Por exemplo, Macron é favorável ao acolhimento de refugiados. Não porque sinta particular interesse pelo tema, apenas vê naqueles que são qualificados uma forma de ter mão-de-obra competente e barata. Os outros que se lixem. Ironicamente, este homem que diz ter superado a lógica esquerda-direita é o mesmo que dentro dos seus axiomas vive numa incoerência. Ser liberal na economia até pode representar o progresso, mas ser politicamente pragmático denuncia um conservador. 

 

Sobre a União Europeia, nem vale a pena dizer nada. Depois da desilusão Hollande, o melhor é esperar para ver se continua com o mesmo discurso após a visita a Berlim. Pessoalmente, não acredito na refundação do projecto europeu, nem sequer que o eixo franco-alemão volte a ter por base uma relação entre iguais. Se Macron conseguir o último destes milagres, já será melhor do que o antecessor. De resto, caberá a ele e ao seu interlocutor alemão (espero que seja Martin Schulz) a tarefa de reformularem a União Europeia. 

 

Numa última nota, os meus parabéns a Jean-Luc Mélenchon. No meio de tantas trevas, foi a única luz a brilhar e a erguer bem alto os valores da trindade revolucionária: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

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