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Zibaldone

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01
Nov16

A lata

Francisco Freima

As crónicas de Helena Matos nunca primaram pelo brilhantismo. Nos jornais, a sua função foi sempre instrumental: Helena lembra aqueles desertores que, em troca de uma refeição, dispõem-se a elogiar o exército inimigo e a exortar os antigos camaradas a deporem as armas. Porque, no fundo, a direita nem é muito diferente do MRPP...

 

Vendida a alma, fica o azedume. Desta vez, a ex-maoísta decidiu aplicar o veneno contra a Autoridade para as Condições do Trabalho, uma variante do seu inamovível ódio à regulação das actividades económicas. Quem não se recorda das declarações sobre a ASAE? Nessa altura, Helena Matos espumava de raiva contra as inspecções alimentares, referindo-se ao organismo como «uma espécie de KGB higiénico». Certo é que a ASAE continuou a expor as câmaras frigoríficas nojentas, as cozinhas cheias de baratas, as condições abjectas dos matadouros/destilarias ilegais, as bolas-de-berlim estragadas... já para a Helena, um bife contaminado ou uma bola-de-salmonelas deviam fazer parte da dieta. Enfim, gostos...

ASAE inspecção restaurante.jpgPassada essa fúria, Helena vem agora atacar a ACT. Isto demonstra um padrão: da primeira vez falou em KGB, agora insurge-se contra «a casta» que é o Estado. Inconscientemente, a camarada Matos mantém intacto o desrespeito pela autoridade, apre(e)ndido nos tempos da Revolução Cultural. Na sua visão distorcida, o aparelho estatal está cheio de perigosos esquerdistas, prontos a asfixiar a iniciativa privada. Se descesse à Terra, Helena veria que o Estado até enfraqueceu a regulação nos últimos anos (basta ler este artigo da Visão sobre a ASAE). Pese esse relaxamento, para a Helena há uma escalada regulatória em curso: drones, agentes infiltrados, cruzamento de dados? Para quê? Os privados são tão bonzinhos... o malvado é o Estado, esse monstro!

 

A realidade, porém, desmente a visão «helenística»: em Portugal, ainda existe trabalho infantil, mão-de-obra escrava, máfias que traficam pessoas, empresas que fogem aos impostos. Pelos vistos, a Helena não se importa com nada disso, importante é fiscalizar a função pública, pois todos sabemos que normalmente somos atendidos por crianças nas repartições de finanças. Já no Ministério da Agricultura vivem inúmeros escravos em barracões ilegais (deve ser o «Estado dentro do Estado») e as funcionárias do Campus de Justiça são mesmo strippers vindas do Leste. Como também é óbvio, na altura de pagar impostos costumamos ver polícias, médicos, professores e engenheiros a protestarem contra a deslocalização da PSP, do SNS, da DGEstE e do LNEC. 

 

São coisas que acontecem. Às pessoas. Que passam da extrema-esquerda para a extrema-direita.

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