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Zibaldone

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17
Abr17

A mulher nova

Francisco Freima

Zita Seabra.jpgSe eu fosse militante do PCP, punha os meus camaradas a verem a participação de Zita Seabra no último Governo Sombra. Não porque a senhora tenha sido particularmente brilhante, mas pelo chorrilho de mentiras e a pazada de lama que lançou sobre a memória de Álvaro Cunhal. Falo por mim, disparates como os proferidos naquele programa motivam-me a dar ainda mais o litro pelas "causas perdidas".

 

Segundo a doutora Zita, o comunismo morreu. É uma morte um tanto estranha quando vemos depois a mesma pessoa dizer que só em Portugal ainda existe um partido comunista activo. Morreu, mas em Portugal está vivo. Quererá isso dizer que o nosso país morreu também? Quanto à morte em todo o lado, se calhar Cuba, China, Angola e Bielorrússia ficam noutros planetas...

 

Mas a melhor parte foi aquela em que Zita Seabra deu a entender que Álvaro Cunhal já não seria comunista quando morreu. Procurei alguma declaração do antigo secretário-geral do PCP nesse sentido, mas não encontrei. Assim, o tipo de pessoa que é a Zita ficou ainda mais definido para mim: além de oportunista, é mentirosa. Só alguém sem escrúpulos pode compor tamanho cenário para minimizar as suas falhas de carácter. Infelizmente para ela, Álvaro Cunhal foi fiel aos seus princípios até ao fim. Aliás, quando falou que ele foi para casa e deixou o partido entregue a Carlos Carvalhas, porque já não acreditava naquilo e queria dedicar-se à divulgação das suas obras, a doutora esqueceu-se de mencionar o nome das mesmas: Cinco Dias, Cinco Noites e Até Amanhã, Camaradas, dois livros essenciais do neo-realismo português. 

 

Ironicamente, no Até Amanhã Camaradas aparece um pertinente retrato do tipo representado por Zita Seabra. É já no final, quando Paulo, a braços com a reorganização do seu sector após a greve geral e a prisão de inúmeros camaradas, decide visitar dois antigos companheiros:

 

Paulo lembrou-se de dois antigos companheiros de prisão, ambos então estudantes, que sabia estarem agora vivendo com desafogo. Resolveu procurá-los em L... Segundo lhe haviam dito, um recebera uns milhares de contos por morte do avô. Com um pouco de boa vontade, sem o mínimo de transtorno, poderia resolver as dificuldades. Paulo sabia-o afastado e desinteressado de qualquer actividade política, mas, fiando-se no seu conhecimento da prisão e na lembrança que tinha do espírito simples e solidário do antigo companheiro, estava convencido de ser bem sucedido na diligência.

 

Encontrou-o em casa. Foi recebido num escritório escuro e solene, acusando, na sua luxuosa velharia, o viver confortável de algumas gerações. Com dificuldade reconheceu o antigo companheiro. Em vez do rapazinho magro e desalinhado, de fato de ganga e tairocas, que conhecera na prisão, tinha agora diante de si um homem cheio de expressão e pose impertinentes, de traje vistoso e caro.

 

Também o outro teve dificuldade em reconhecê-lo.

 

– Ah! – admirou-se, quando Paulo o tornou lembrado, e, sem o mandar sentar, ficou-se a olhá-lo com impaciência.

 

Tal modo mostrava tão arrogantemente o desagrado pela visita, afirmava tão claramente não haver já nem poder haver entre os dois a velha amizade, terem-se as duas vidas afastado e nada de comum haver entre elas, que Paulo não colocou o que ali o levara e, para justificar a visita, limitou-se a pedir uma informação que nada lhe interessava acerca dum indivíduo que com eles estivera preso. O visitado disse nada saber e Paulo deixou-o.

 

Saiu daquela casa com um tão doloroso sentimento de desilusão que esteve para não procurar o outro. "Na maior parte – pensava Paulo – os filhos da burguesia são assim. Enquanto jovens, enquanto não tomam directamente posse dos instrumentos de exploração, são por vezes levados a atitudes combativas por ideais de justiça social. Depois, com facilidade os problemas de consciência cedem passo ao interesse material e aos privilégios de classe."

Álvaro Cunhal, Até Amanhã, Camaradas, p. 317; Edições Avante

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