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Zibaldone

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04
Jan16

A pior juventude

Francisco Freima

media capitalista.jpgOs Portugueses não são propriamente conhecidos pela sua cultura política. Nem seria de esperar outra coisa de um povo pouco dado a grandes ideais. Afinal, este é o país que ainda vê na Legião Portuguesa um bando de traidores e em Wellington um libertador. O Português trata da vidinha, faz contas de merceeiro e vota no PS ou no PSD. Revoluções? Isso é coisa de maluquinhos.

 

A minha geração, e esta que adormece agora para a política, não são excepção. A malta da minha idade é completamente alienada em relação ao que sucede no país, tem um discurso avelhentado («são todos iguais»; «só querem tacho»; «votar não serve para nada») e acha-se muito moderna. Se lhes perguntarem o nome de um dos dez candidatos presidenciais, a maioria sabe um ou nenhum; se lhes perguntarem os nomes de dez discotecas, sabem-nos todos ou quase todos. Fazem-me lembrar os velhotes que falam dos bailaricos no «outro tempo» e que não sabiam nada de política, com a agravante de que esses tinham desculpa para a sua ignorância, viviam em ditadura e a maioria nem sabia ler nem escrever. Os nossos jovens, não: ignoram porque querem, por pressão dos amigos, por desinteresse dos pais, porque é cool ignorar.... Vão aos bailaricos, seguem a moda acéfala e têm a mania de que são os maiores, como no tempo dos seus avós, em que havia sempre alguns com «o rei na barriga». Hoje, são a maioria. 

 

Burros que nem uma porta, zurram nas redes sociais contra o número de deputados, os ordenados dos políticos, todos os partidos... depois arranjam emprego à conta dos papás, votam PS/PSD ou ficam em casa, arrotando o olímpico egoísmo dos pequenos deuses formatados pelo consumismo. Outros há, muito alternativos, sempre na crista da onda mais marginal prestes a ser trendy, praticantes de zumba, viciados das selfies, consumidores gourmet, comedores de kebab, bebedores de gin, seguidores do esoterismo mais histérico... no fundo, aqueles que quando o grunge estava na moda eram grunge, que quando o hip hop estava na moda eram hip hop, que quando o indie está na moda são indie e que quando vier a próxima treta serão a próxima treta. Hoje, usam calças rasgadas XPTO, como ontem os seus pais usavam calças à boca-de-sino para serem conformes ao inconformismo. Não ficaria chateado se os posers de hoje e os pedantes de ontem tivessem alguma consciência política, cultural, social... que digo! A consciência política bastava...

 

Por tudo isto, a notícia do Diário de Notícias é apenas a constatação do óbvio: que os jovens portugueses são iguais às gerações passadas, que não são idealistas, que são alienados a viverem o sonho consumista/esotérico pregado na esquina mais próxima. Quando ouvem falar de política, fazem um ar entre o ofendido, o chocado e o enjoadinho. Se o tema for futebol ou telenovela, têm opinião e não se coíbem de fazer as figuras mais tristes. Quando toca à política, é vê-los a taparem os ouvidos e a correrem para debaixo dos lençóis mentais, também conhecidos como preconceitos. 

 

Moral da história: uma minoria de jovens idealistas de todas as épocas fica sempre sozinha a combater a maioria pragmaticamente alinhada com o «cavaquistão» e os «socráticos» de todas as eras. Daqui a vinte anos, outro jovem português estará a inteirar-se deste facto. Eu serei dos poucos que ficará a ouvi-lo.

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