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Zibaldone

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09
Mar17

A vítima

Francisco Freima

Jaime Nogueira Pinto.jpgA lavagem cerebral vai de vento em popa. Os alunos de uma universidade decidem chumbar uma proposta de sessão pública, em que Jaime Nogueira Pinto seria o convidado, e o céu cai-lhes em cima da cabeça – ou de como se monta uma armadilha mediática. Estou à vontade para falar: além de ser do Bloco, fui aluno do Professor Jaime Nogueira Pinto. Se me pedissem para o descrever, diria que é um professor do qual não guardo grandes recordações, pois chegava sempre atrasado ou nem sequer aparecia.

 

Posto isto, não me surpreende que Nogueira Pinto tenha mandado a boquinha da «orientação maoísta» da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, falando em «intolerância esquerdista». É verdade que a AEFCSH tem elementos do Bloco de Esquerda, mas não é menos verdade que no Bloco não existem só maoístas: temos trotskistas, mandelistas, sankaristas (o meu caso), monárquicos progressistas, ecologistas, socialistas, sociais-democratas... Para a caricatura fica bem colar o cromo do maoísmo, mas alguém avise o senhor que o PREC foi em 1975. 

 

A indignação em torno deste assunto é de uma extrema hipocrisia. Concorde-se ou não, o cancelamento da palestra teve origem numa proposta de seis alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que a AEFCSH aceitou e apresentou para discussão e votação na Reunião Geral de Alunos. Compareceram 31 e foi aprovada a moção, na qual se defendia que o auditório não fosse cedido para aquele evento. Os democratas de plantão, que enchem a boca de palavras como liberdade e tolerância, são os primeiros a serem intolerantes para com a vontade expressa pelos alunos. Desdenham do processo: 31 não é representativo do universo estudantil da FCSH. Pois não, mas a democracia é feita de participação, e quem participa aparece para votar. Confesso que tenho rido bastante com os alunos que eram favoráveis à cedência do auditório e não foram votar. São os típicos indignados de sofá a lamentarem os resultados a posteriori. Na cabeça destas pessoas, democracia é isto: fazem-se votações e ganha quem eles queriam, embora não tivessem comparecido; caso vença o adversário, o resultado é anti-democrático porque eles ficaram em casa e pensavam que o seu voto não seria necessário – quem é que morreu a pensar?

 

Neste assunto, a imprensa segue o guião habitual: ataca a AEFCSH e dá púlpito ao homem que defende o Estado Novo, o homem para quem Salazar não era fascista. Por muito que se faça de mártir do politicamente correcto, JNP devia era ter cuidado com as companhias, neste caso a organização Nova Portugalidade. Segundo o texto constitucional:

 

Artigo 46º 

Liberdade de associação

 

4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.

 

Numa coisa, ele tem razão: o País não tem muito esta tradição (de escrutínio, presumo). Se tivesse, a Nova Portugalidade já tinha sido fiscalizada. Entretanto, o PNR veio em socorro dos amigos, que é como quem diz: gato escondido com rabo de fora. No dia 21 de Março, haverá uma manifestação destes trogloditas à porta da faculdade. Escusado dizer, a esquerda estará lá para defender os seus. É triste quando meia dúzia de alunos têm de relembrar o Estado das suas funções. Isto não dá direito a ilegalização? Do que é que têm medo?

 

PS - O ano passado, a Universidade da Beira Interior proibiu uma conferência que iria contar com a presença de elementos da Frente Polisário. Em sua defesa, a direcção da faculdade alegou não querer beliscar as relações com Marrocos... onde é que andavam os arautos da liberdade de expressão?

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