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Zibaldone

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02
Abr16

Ali Agca

Francisco Freima

Ali Agca.jpgUm dos criminosos mais estranhos da segunda metade do século XX, o percurso de Mehmet Ali Agca merece ser recordado nos tempos que correm. Nascido na Turquia, em 1958, começou por ser um delinquente como tantos outros. Só quando deixa Hekimhan (cidade natal) a sua vida agita-se: parte para a Bulgária, torna-se contrabandista e tem o primeiro contacto com as autoridades estrangeiras. Não se sabe bem o que aconteceu (o mais provável é que tenha sido apanhado pelos búlgaros), mas a verdade é que pouco depois Mehmet estava a ser treinado na Síria pela Frente Popular para a Libertação da Palestina, supostamente a mando do governo comunista da Bulgária (a PFLP rejeitou sempre estas alegações).

 

No regresso da «formação», Agca é recrutado pelos Lobos Cinzentos, uma organização de extrema-direita. Isto é, foi treinado durante dois meses pela extrema-esquerda, mas acabou por cortar (segundo alguns, aparentemente) os laços com o bloco comunista, oferecendo os seus préstimos aos nacionalistas turcos. Realiza o seu primeiro grande trabalho no dia 1 de Fevereiro de 1979, ao assassinar em Istambul, juntamente com Oral Çelik, o editor do jornal Millyiet (Abdi Ipekçi), conhecido pela sua influência nos círculos da esquerda moderada. Condenados a prisão perpétua, Agca e Çelik, auxiliados pelo «número dois» dos Lobos Cinzentos (Abdullah Çatli), evadem-se da prisão, tendo cumprido apenas seis meses da pena. A facilidade na fuga explica-se pela associação dos Lobos Cinzentos à CIA e ao Departamento Especial de Guerra turco (OHD), no âmbito da Operação Gladio – o próprio Çatli costumava ser contratado para assassinar membros do PKK (curdos) e do ASALA (armenos).

 

Em 1981, encontramos o nosso homem em Berlim, complicando-se o enredo a partir desse momento. Enquanto uns falam no restabelecimento da ligação búlgara (com o apoio velado do KGB), outros fiam-se nas últimas declarações de Agca, que disse ter sido contratado pelo Irão (e ainda há o papel nunca esclarecido do cardeal Agostino Casaroli). Certo é que no dia 13 de Maio de 1981 encontra-se na Praça de São Pedro, com Çelik, para assassinar o Papa João Paulo II. Na minha opinião, as duas pistas complementam-se: as informações que os búlgaros transmitiram ao KGB, dando conta de o turco estar obcecado com a ideia de matar o Sumo Pontífice, indicam que a radicalização já tinha ocorrido. Este breve encontro teria sido um lavar de mãos à Pilatos, dando-lhe o Comité de Segurança do Estado uns trocos e soltando-o posteriormente. Isso explicaria a estada em Sofia, além das dificuldades que teve em arranjar um passaporte decente para viajar até Roma (deitando por terra a teoria de que teria sido escoltado pelos búlgaros). Como sabemos, a tentativa de assassinato falha, Çelik foge do local sem rebentar a bomba que levava e Agca é detido pela segurança do Vaticano. Entregue às autoridades italianas, é sujeito a interrogatórios brutais. Daí que eu acredite que a sua primeira versão, de o atentado ter sido orquestrado pela URSS, deriva do que ele sabia que os italianos queriam ouvir. Aliás, na forma veemente como o Vaticano insurge-se contra a «tese iraniana» vê-se que o interesse continua centrado na diabolização dos comunistas (tal como no caso do rapto e assassinato de Aldo Moro).

 

Condenado a prisão perpétua, o turco cumpre dezanove anos de pena antes de ser extraditado. Durante esse tempo, o seu nome volta inúmeras vezes às manchetes dos jornais, designadamente no caso do desaparecimento de Emanuela Orlandi e do sequestro do voo 830 da Air Malta, em 1997. Em ambos, Agca foi injustamente associado aos sequestradores que exigiam a sua libertação. No rapto de Emanuela (voltarei ao assunto) as pistas apontaram sempre mais para a Banda della Magliana, a máfia liderada por Enrico de Pedis, e o sequestro do avião da companhia maltesa assemelha-se muito ao que ocorreu há poucos dias no Chipre. 

 

Após cumprir a sua pena, Agca é extraditado para a Turquia, onde teve de voltar a cumprir sentenças pelos seus numerosos crimes. A 18 de Janeiro de 2010, sai finalmente da prisão, tendo entretanto convertido-se ao catolicismo (curiosamente, há uns anos Portugal negou-lhe um visto de entrada no país para visitar o Santuário de Fátima). Em plena Guerra Fria, o turco foi um dos pioneiros do terrorismo islâmico na Europa.

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