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Zibaldone

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01
Dez16

Almada Negreiros

Francisco Freima

Almada Negreiros Auto-Retrato.jpgProtótipo do artista futuro, José de Almada Negreiros continua demasiado à frente do século XXI. Se fosse vivo, suspeito que estaria constantemente a ser ameaçado de morte, pelas suas diatribes contra os Portugueses em geral ou a Coimbra universitária em particular («Odeio-te/finges de cabeça/e não és senão o lugar dela./A única vez que me referi a Coimbra disse:/os palermas de Coimbra»). 

 

Como poeta, Almada Negreiros foi um dos aríetes do Futurismo português, aproveitando a sua versatilidade para aquilo que Ted Nelson haveria de chamar hipertexto. Esta característica era apanágio de outros futuristas, basta lembrar a passagem de Vladimir Maiakóvski (ao início um pintor) pelo estúdio de Peter Ivanovich Kélin, fundamental para a realização de obras como A Porta do Sol, em parceria com Robert Delaunay, e tendo como objecto improvável uma das portas do apartamento deste último, em Paris. Se há aspecto que impressiona no primeiro quartel do século XX, é a colaboração entre poetas e pintores. Sendo artes aparentadas, nunca mais tiveram esse grau de proximidade, embora fosse o caminho correcto. Com efeito, para mim a aliança entre pintores e poetas não foi inocente: enquanto a música clássica iniciava o seu declínio, a vanguarda era tomada pela pintura e pelo cinema, território no qual Maiakóvski também se aventurou. Esgotados pelo simbolismo, os poetas viram o futuro na pintura, tal como os pintores, fartos da academia, viram na poesia uma fonte de inspiração para as suas obras revolucionárias (por exemplo, o livro de bolso de Amedeo Modigliani era Os Cantos de Maldoror).

 

Regressando a Almada, eis o poema que escolhi:

 

ITINERÁRIO SOBRE O JOELHO

 

Nascer

vir a este mundo

é acordar legível do sono eterno. 

Maravilhoso (e é) que seja acordar

traz mistura pessoal:

preferia não ter nascido.

Fazemos parte de animal perpétuo

que exige o nosso serviço dele.

Mas um é passageiro

tem que inventar optimismo e graça

e permanecer acordado o animal perpétuo.

Nascemos órgão e seremos, afinal, o todo do organismo.

Personalidade não é senão o ímpeto para nos deixarmos de nascidos intactos

é condição primeira do ser vivo eterno que somos.

Nasce segunda vez o que morre a morte primeira.

Nasce-se segunda vez o ser vivo eterno que somos.

Iremos por onde não há adesão possível à segunda vida

porta do eterno.

Depois é o silêncio que fala

a paz que nos esperava.

 

José de Almada Negreiros, Poemas, p. 172; Assírio & Alvim

 

Em Itinerário sobre o Joelho, Almada Negreiros explora a tensão entre o cariz efémero do nascimento, esse «acordar legível», e a eternidade anterior ao nosso aparecimento neste mundo. O sujeito lírico ressente-se da existência («preferia não ter nascido»), perspectivando muito de Almada por detrás dessa angústia. Artista total, ciente de que a natureza compósita do ser humano nunca abarcará a plenitude, preferiria negar-se ao serviço exigido pelo «animal perpétuo», o de mantê-lo acordado enquanto inventa «optimismo e graça». No entanto, o poema encerra uma preocupação mais profunda, que tem a ver com a eternidade de quem vive – como pode um animal ser perpétuo?

 

A partir do momento em que ganhamos personalidade, afastamo-nos da natureza pura, natureza, convém sublinhar, anterior ao nosso nascimento. Ao despertarmos, deixamos de pertencer ao sono eterno e passamos a ser uma irremediável contradição: 

 

Nasce segunda vez o que morre a morte primeira.

Nasce-se segunda vez o ser vivo eterno que somos.

 

Como pode o «ser vivo eterno que somos» nascer segunda vez? Em princípio, não pode, mas o maravilhoso acontece, acordamos neste mundo, tornando-nos «legíveis» pelo inefável que nos precede e do qual procedemos. O erro de cálculo que somos faz de nós expatriados após a «morte primeira»:

 

Iremos por onde não há adesão possível à segunda vida

porta do eterno.

Depois é o silêncio que fala

a paz que nos esperava.

 

Ao termos vivido neste mundo, ficamos à porta do eterno, a contemplar «o silêncio que fala» e «a paz que nos esperava». Nós não teremos paz, ficaremos acordados como animais perpétuos que nasceram pela segunda vez.

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