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Zibaldone

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04
Abr17

Alvorecer nos Carris

Francisco Freima

O povo russo tem uma alma que os países da União Europeia já perderam. Onde a UE é sibarita, a Rússia é selvagem e inquebrantável. Transcrevo então um poema de Marina Tsvetaéva para lembrar aqueles que foram vítimas do atentado no metro de São Petersburgo:

 

ALVORECER NOS CARRIS

 

Enquanto o dia não se ergue

Nas suas paixões açuladas,

Reconstruo a Rússia a partir

Da humidade e das travessas.

 

Da humidade e dos postes,

Da humidade e do cinzento.

Enquanto o dia não se ergue

E o agulheiro não se mete.

 

Ainda nos poupa a neblina,

Ainda, gasalhado em linho,

Dorme o granito, ainda os campos

Em xadrez não se enxergam...

 

De humidade – e revoadas...

Ainda o aço negro mente

Notícias falsas, dorme ainda

Moscovo – aquém das travessas!

 

E sob a persistência dos olhos –

Como incorpórea propriedade,

Que Rússia saiu das margens

Por três auréolas espalhada!

 

E – em mais vastidões me alastro!

Nuns imaginários carris correndo

Pela humidade ponho os vagões

De queimados nos incêndios:

 

Cheios de perdidos para sempre

Para Deus e para os homens!

(A marca: oito cavalos

E quarenta pessoas.)

 

Assim, entre as travessas,

Onde o horizonte é uma barreira,

Do húmido e das travessas,

Do húmido – e da orfandade,

 

Enquanto o dia não se ergue

Nas suas paixões açuladas!

Reconstruo a Rússia em toda

A sua horizontalidade!

 

Sem vil mentira: um horizonte –

E mais dois carris azuis...

Aqui a tens! – Toma lá!

Pelas linhas, pelos carris...

 

Marina Tsvetaéva (trad.Nina Guerra e Filipe Guerra), Depois da Rússia: 1922-1925, pp. 133-135; Relógio de Água

 

Quero acreditar que os terroristas, «perdidos para sempre para Deus e para os homens», penarão um dia nesses «vagões de queimados nos incêndios». Não crendo no Além, este poema é um ponto de fuga para sentir que as vítimas já andam sobre os carris azuis dessa Rússia reconstruída entre o céu e o mar, a fazer do horizonte um caminho rumo ao infinito.

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