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Zibaldone

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09
Fev17

Análises peregrinas

Francisco Freima

Marsh.jpgPortugal's relatively low score reflects its high rate of unemployment and an unstable outlook for the country's minority Government, led by the centre-left Socialist Party and supported by two more radical left-wing parties - the Left Bloc and the Communist Party. The main risk is that populist economic ideology will continue to come into conflict with the reality that the country's high indebtedness and eurozone membership constrain the Government's policy flexibility. Increased spending would result in a widening of Portugal's budget deficit, thereby hurting investors' confidence in the country's ability to repay its debt, resulting in a further rise in its borrowing costs. The risk score could deteriorate further if there are signs of disagreements emerging between the three parties.

 

Uma das razões porque desconsidero o que as consultoras escrevem, é dada pela profunda ignorância de que enfermam as suas análises. Para provar isso, nada como ler as previsões da Marsh, uma dessas Mayas do capitalismo global.

 

Segundo a Marsh, a relativa baixa pontuação atribuída a Portugal espelha a alta taxa de desemprego e a promessa de instabilidade para o Governo minoritário. Na parte do desemprego, concordo. Apesar do que os ministros andam a inventar, o desemprego continua ao nível dos tempos de Passos Coelho, tendo apenas melhorado os números da emigração. Ao contrário da emigração, no desemprego podem-se aldrabar estatísticas com recurso a técnicas de «desinventariação», aquilo que no futuro ficará conhecido como um subproduto das cada vez menos eficazes técnicas de «desorçamentação» (um dos poucos aspectos positivos da UE, é que obriga os governos a adoptarem critérios de transparência sobre o que tem de ser colocado dentro do perímetro orçamental). Numa nota mais pessoal, basta dizer que este Governo não me considera desempregado porque estou a realizar um estágio Garantia Jovem. No final do mês, recebo 150,00 €... se estendermos isto a todos os estagiários e trabalhadores em regime de part-time, não será difícil perceber que o desemprego actual deve rondar os 20%. Penso que no futuro, a bem da transparência, terá de ser dada mais atenção à Taxa de Subemprego, desde que se destine a calcular o número de pessoas que têm rendimentos inferiores ao salário mínimo nacional. Não sendo desemprego, é quase, porque ninguém consegue viver com valores tão baixos.

 

Quanto à análise política da Marsh, discordo. Os termos em que é feita revela logo o preconceito: 

 

...an unstable outlook for the country's minority Government, led by the centre-left Socialist Party and supported by two more radical left-wing parties - the Left Bloc and the Communist Party

 

Descontando o erro habitual de colocar o Partido Socialista no centro-esquerda (é um partido do centro), a expressão «supported by two more radical left-wing parties» destrói a credibilidade da análise. Descartando igualmente a conversa dos «partidos radicais», é engraçado ver que a Marsh considera o PS um partido radical de esquerda. Se atentarmos no sublinhado que fiz, é isso que a consultora afirma. Logo a seguir, parte para o insulto, declarando que «a ideologia económica populista continuará a chocar com a realidade», uma variante do There Is No Alternative tantas vezes denunciado por Pacheco Pereira. Nessa mesma frase, um apontamento curioso:

 

The main risk is that populist economic ideology will continue to come into conflict with the reality that the country's high indebtedness and eurozone membership constrain the Government's policy flexibility.

 

Candidamente, a Marsh vem alertar para a incompatibilidade entre Portugal ser membro da União Europeia e ter uma política económica que saia fora do guião traçado por Bruxelas. Todos nós já sabemos isso, nem que seja pelas regras do Tratado Orçamental, mas não deixa de ser irónico. Afinal, esse espaço de liberdade chamado UE só permite determinado tipo de políticas, normalmente associadas à direita. Que é como quem diz: caso o projecto europeu avance, a esquerda acaba e os cidadãos apenas poderão escolher entre partidos de direita e de extrema-direita. Depois, o texto torna-se incompreensível:

 

Increased spending would result in a widening of Portugal's budget deficit, thereby hurting investors' confidence in the country's ability to repay its debt, resulting in a further rise in its borrowing costs.

 

Hã? Este Governo pode ser acusado de muita coisa, mas de despesismo é que não. Um Governo que cortou o investimento público quase a 100%, suscitando os protestos (cínicos, é verdade) do PSD, um Governo que alcançou o défice mais baixo das últimas décadas, um Governo que para respeitar o acordo assinado com o BE, o PCP e o PEV (pois é, Marsh, by three more parties, if you want to be... right) toma sempre medidas que agradem à direita, um Governo que em concertação social negoceia o aumento do salário mínimo e depois, para evitar apoplexias do patronato, arranja mil ardis para baixar TSU's ou Pagamentos Especiais por Conta... este Governo, salvo qualquer contingência externa, não apresenta riscos para a economia. No entanto, a Marsh nem sequer aborda a questão dos juros da dívida, pressionados mais pela situação política no exterior do que propriamente por aquilo que acontece dentro de portas. Grandes analistas...

 

No final, outra pérola:

 

The risk score could deteriorate further if there are signs of disagreements emerging between the three parties.

 

Four parties, Marsh, four! No meio disto tudo, parece que a melhor consultora do mundo esqueceu-se de um pequeno pormenor... então não há eleições este ano em Portugal? O potencial de instabilidade resultará mais das autárquicas do que propriamente das tensões geradas pelo PS na sua relação com os partidos de esquerda. Mas não, para a Marsh nem haverá eleições... apenas riscos daqueles «três» partidos pegarem-se uns com os outros. Para termos ideia, seria como alguém afirmar que a liderança de Bruno Carvalho estaria mais ameaçada pelos desentendimentos entre ele e Jorge Jesus/Octávio Machado do que pela derrota nas eleições...

 

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