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Zibaldone

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11
Jul16

António Jacinto

Francisco Freima

António Jacinto.jpgEstá na altura de descobrirmos os grandes poetas angolanos! Agora, nem há desculpas sobre a dificuldade em encontrar as suas obras, a NósSomos já lançou alguns títulos importantes nos últimos anos. O livro Poesia (1961-1976), de António Jacinto, foi um deles.

 

Nascido em Luanda, no ano de 1924, a vida de António Jacinto confunde-se com a da sua pátria. Depois de concluir os estudos secundários, entra na função pública, como contabilista. O regime colonial, pela hora da morte, debate-se com uma juventude irrequieta, na sempre fervilhante capital angolana. Nesses anos, António Jacinto participa em movimentos culturais importantes (Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, Mensagem, Cultura, Cine Clube de Luanda), estando ainda ligado à fundação do Partido Comunista Angolano, posteriormente integrado no MPLA. A actividade de Jacinto não passa despercebida à PIDE, que, após algumas detenções, prende-o definitivamente em 1961 e deporta-o para o Campo de Trabalho do Chão Bom (Tarrafal), onde permanecerá até 1972. Após a independência, em 1975, torna-se uma figura destacada no meio artístico angolano, tendo sido fundador e dirigente da União dos Escritores Angolanos. Morre em 1991, em Lisboa, aos 66 anos.

 

Por hoje, deixo-vos com o momento fundador de António Jacinto enquanto poeta:

 

DESCOBRIMENTO

(À Rua da Pedreira)

 

Rua da Amargura, caminho antigo, velho caminho de todos os dias.

Caminho de custosas horas sem esperança.

Rua da Amargura, a minha rua de todos os dias, distante me apareces agora sem saudade numa imagem esvaecida de caminho antigo.

Rua de horas sem cor, de ser sem esperança, rumo tortuoso, de vómitos suicidas, caminho amargo, rua salgada da Amargura, do andar solitário, sem sonho, sem ilusão, sem sabor. Náusea!

 Ó Rua da Amargura, dos minutos monótonos se arrastando lentamente, tortuosos, nas horas sem cor!

Solidão da Rua da Amargura, das canções dolentes, minha rua antiga, caminho de todos os dias, já nem és uma lembrança...

Canta meu coração, canta meu coração, canta alegremente ao vento e aos espaços, canta bem dentro de mim, feliz e contente, meu coração...

Não mais caminharei o caminho de todos os dias

-Rua da Amargura.

Canta meu coração as canções que vibram no meu sangue e queimam os meus lábios roxos. Canta bem dentro de mim, canta de orgulho: Rua da Amargura, caminho antigo, não mais te caminharei, não mais temerei os teus medos e monstros, não mais terás horas sem cor.

Canta meu coração, canta o orgulho nobre de ter deixado a Rua da Amargura. Canta alegremente às aves e aos ventos a felicidade de ter achado um outro caminho, de ter descoberto uma outra verdade, a grande verdade que me faz feliz, orgulhoso e grande.

Tão grande que, como és pequena, perdida no tempo, velha Rua da Amargura!

Ah! Rua da Amargura, não mais serás caminho de todos os dias.

Canta meu coração, canta bem dentro de mim e grita esta incomensurável certeza, a maior da minha felicidade, da felicidade humana de quanto me rodeia, a certeza do meu novo rumo imenso, canta bem dentro de mim, canta meu coração, canta enormemente esta realidade santa e bendita, feliz, canta esta descoberta, esta maior descoberta, canta a vibrar infinitamente de contentamento, canta, canta loucamente por chanas e musseques, ventos e seres, canta bem dentro de mim, canta meu coração:

Sou POETA!

 

António Jacinto, Poesia (1961-1976): pp. 9-10; NósSomos: Vila Nova de Cerveira

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