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Zibaldone

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23
Jul16

António Jacinto #2

Francisco Freima

Bem, hoje dou seguimento ao primeiro post sobre António Jacinto, transcrevendo o seu poema mais conhecido, Carta Dum Contratado, posteriormente musicado por Fausto:

 

CARTA DUM CONTRATADO

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta que dissesse

deste anseio

de te ver

deste receio

de te perder

deste mais que bem querer que sinto

deste mal indefinido que me persegue

desta saudade a que vivo todo entregue...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta de confidências íntimas,

uma carta de lembranças de ti,

de ti

dos teus lábios vermelhos como tacula

dos teus cabelos negros como diloua

dos teus olhos doces como maconde

dos teus seios duros como maboque

do teu andar de onça

e dos teus carinhos

que maiores não encontrei por hí...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que recordasse nossos dias na capopa

nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

o luar que se coava das palmeiras sem fim

que recordasse a loucura

da nossa paixão

e a amargura

da nossa separação...

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que a não lesses sem suspirar

que a escondesse de papai Bombo

que a sonegasses a mamãe Kieza

que a relesses sem a frieza

do esquecimento

uma carta que em todo o Kilombo

outra a ela não tivesse merecimento.

 

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta que ta levasse o vento que passa

uma carta que os cajús e cafeeiros

que as hienas e palancas

que os jacarés e bagres

pudessem entender

para que se o vento a perdesse no caminho

os bichos e plantas

compadecidas de nosso pungente sofrer

de canto em canto

de lamento em lamento

de farfalhar em farfalhar

te levassem puras e quentes

as palavras ardentes

as palavras magoadas da minha carta

que eu queria escrever-te amor...

 

Eu queria escrever-te uma carta...

 

Mas ah meu amor, eu não sei compreender

por que é, por que é, por que é, meu bem

que tu não sabes ler

e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

 

António Jacinto, Poesia (1961-1976): pp. 19-21; NósSomos

 

Escrito em 1961, este poema retrata o amor de um homem que está prestes a deixar a sua pátria para ir trabalhar numa roça de São Tomé e Príncipe. Em Angola, deixa a sua namorada e muitas recordações. Uma das coisas que mais gosto neste poema é o facto de nos apercebermos no fim da impossibilidade do sujeito lírico ter escrito esta carta, pois ele não sabe escrever. Aqui está implícita uma crítica ao regime colonial, incapaz de providenciar a instrução básica às camadas mais pobres da população. Convém igualmente recordar que em 1961 eclodiu a Guerra Colonial, estando a desabrochar uma geração de escritores empenhados na construção da identidade angolana. Isso é notório nos elementos que vão povoando o poema (tacula, diloua, maconde, maboque, jambos, palancas, bagres...), fortemente ligados ao continente africano, pese a referência camoniana logo no início.

 

Considero sublime a forma como António Jacinto consegue exprimir o inefável, associando fauna e flora à mensagem de amor, caso a mesma seja perdida pelo vento. Não é de estranhar a popularidade alcançada pela Carta Dum Contratado: ela representa uma geração de jovens angolanos, forçados a abandonarem a sua pátria para irem trabalhar noutras colónias. Jovens deixados para trás pelo regime, que sofriam a dupla injustiça de terem também de deixar a terra e a família para trás. As inúmeras repetições ao longo do poema ajudam ainda a marcar a oralidade de quem escreve e o sofrimento do sujeito lírico.

 

Sem dúvida, um dos momentos mais altos da poesia lusófona 

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