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Zibaldone

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22
Jul16

Arusha e Burundi

Francisco Freima

Protestos Burundi.jpgO homicídio de Hafsa Mossi, antiga ministra do governo de Pierre Nkurunziza, é um sintoma do mau ambiente vivido no Burundi. A instabilidade política degenerou em criminalidade, mostrando que a «rua» é cega nestas alturas, pois aproveita-se da fraqueza do Estado para impor a desordem.

 

Este clima de terror foi fomentado precisamente por Nkurunziza, depois de ter manifestado a intenção de se recandidatar a um terceiro mandato. A concretizar-se, esta disposição viola o Acordo de Arusha, assinado no ano 2000 entre as principais forças políticas, e que contou com a mediação de Julius Nyerere e de Nelson Mandela (após a morte de Nyerere). Na altura, o Conselho de Defesa para a Democracia - Forças para a Defesa da Democracia (CDD-FDD) não participou nas negociações de paz, preferindo porfiar nas hostilidades contra o exército tutsi. Esta informação é essencial para compreendermos a pouca sensibilidade de Nkurunziza em relação aos acordos negociados na capital da Tanzânia. Sendo líder do CDD-FDD, o presidente burundiano apareceu tardiamente no processo de pacificação nacional, já que só em 2003 abandonou a guerrilha para aceitar os termos negociados em 2000 pelas demais forças políticas.

 

Perante a tentativa de se perpetuar no poder, a oposição respondeu, em 2015, com uma tentativa de golpe de Estado. Embora na origem dos conflitos estejam factos eminentemente políticos, não nos podemos esquecer que o Burundi é um país demasiado exposto a conflitos étnicos entre a minoria tutsi e a maioria hutu. Sendo vizinho do Ruanda, onde actualmente o governo é dominado pelos tutsis, o CDD-FDD tem vindo a subir o tom das acusações contra a minoria no Burundi, acusando-os de terem promovido a tentativa de golpe.

 

Agora, Arusha volta a estar no centro das atenções, pois é aí, na capital tanzaniana, que se procurará resolver o conflito latente. Como mediador, foi escolhido o ex-presidente da Tanzânia, Benjamin Mkapa, que está a ser alvo de algumas críticas por ter deixado de fora o Conselho Nacional para o Respeito do Acordo de Arusha para a Paz e a Reconciliação no Burundi e do Estado de Direito (CNARED) na primeira ronda de negociações, a 21 de Maio. Importa referir que a CNARED é uma plataforma que junta vários movimentos oposicionistas contra o regime de Nkurunziza. e que Mkapa é o segundo mediador desde 2015 (antes, a tarefa fora incumbida a Yoweri Museveni, presidente do Uganda).

 

Em Bujumbura, capital do Burundi, a vida continua dominada pelos constrangimentos económicos, pela criminalidade e pelos assassinatos/desaparecimentos de opositores políticos. Desde o ano passado, mais de 250 000 pessoas abandonaram o país, procurando refúgio nos vizinhos Ruanda, Tanzânia e República Democrática do Congo. Recomendo a leitura dos artigos de Thierry Vircoulon, sobretudo as três partes dos Insights from the Burundian Crisis, que dão uma perspectiva abrangente dos problemas actuais do Burundi.

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