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Zibaldone

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27
Abr17

As asas do desejo

Francisco Freima

Nos trinta anos que separam 1987 de 2017, Berlim mudou muito. Ainda assim, As Asas do Desejo (realizado por Wim Wenders) vai além do documento histórico, pois consegue preencher o tempo com a eternidade.

 

Rodado numa altura em que o Muro de Berlim mantinha-se de pedra e cal, o filme conta a história de dois anjos (Cassiel e Damiel) que velam pela população berlinense. Estes não são os únicos anjos, na verdade a cidade está cheia deles, como verificamos quando, além de Cassiel, vemos inúmeros outros presentes numa biblioteca. Pelos dias fora, desde sempre, a força angelical assiste ao desenrolar dos acontecimentos e escuta os pensamentos das pessoas, ajudando-as por vezes com o seu toque invisível.

 

O contacto permanente com as pessoas leva a que Damiel comece a sentir necessidade de se aproximar mais e mais das pessoas, sobretudo de Marion. Trapezista de circo, a francesa está tão perdida na vida como Damiel nas alturas. Porém, a deriva não impede que Marion leve a existência de forma despreocupada, é mesmo como se flutuasse entre os seus pensamentos desolados e alguma esperança no futuro. Outras personagens, como Homer, dedicam-se a procurar o rasto das lembranças que atraiçoam o presente. A procura pela Postdamer Platz inquieta-lhe o espírito, sendo a cada passo vigiado por Cassiel. O Muro levou-lhe a praça, e aos berlinenses levou o sentido de comunidade, ausentes que estão nas suas considerações acerca de tudo. Ainda nas personagens secundárias, temos Peter Falk a interpretar-se a ele mesmo, com a nuance de ser um antigo anjo e estar na Alemanha a rodar um filme sobre o Holocausto, doença fantasmagórica de um povo cuja consequência foi o Muro como realidade concreta.

 

A atmosfera daquela Berlim não retira actualidade ao filme. Basta substituir a divisão física causada pelo Muro pela alienação que os mercados vão sedimentando através de segmentos, para concluir que aquela é também a nossa história. A única diferença está mesmo na aparência das coisas: as fronteiras esbateram-se, mas perduram no sistema.

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