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Zibaldone

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18
Abr17

Assim falava Barafusta

Francisco Freima

matador e touro.jpgA tarde declinava o poente com o Sol. Próximo de uma praça de touros, Barafusta parou para ouvir o ruído da multidão. «É espantoso», pensou, «a bestialidade subsiste em nós». Dirigiu-se então à bilheteira e foi depois procurar o seu lugar na assistência.

 

O matador dava provas de destreza, o burburinho afiançava que pelo menos uma orelha haveria de merecer. De súbito, um grito ecoou pela praça inteira: «Mata, mata, mata!» Tudo aquilo era novo para Barafusta, mas rapidamente apreendia as relações que podia estabelecer com a sua filosofia. Se ao menos ele... 

 

– OHHHHHH!

 

Um golpe em falso por parte do matador expôs o seu flanco à ira do touro, que logo lhe assestou uma cornada fatal. Nas plateias, umas pessoas choravam, outras fechavam os olhos para não verem, e outras ainda fugiam a toda a brida, arrastando crianças pela mão, os únicos seres tão fascinados como Barafusta pelo que acabavam de testemunhar. Enquanto os bandarilheiros avançavam prudentemente para encurralar o animal ferido, o intrépido filósofo saltou para a arena.

 

«É verdadeiramente belo!», exclamou ele ao dirigir-se para junto do matador. No epicentro da tragédia, puxou do smartphone e começou a tirar selfies. O choque do público logo cedeu lugar à indignação geral: isqueiros, garrafas e tamagotchis eram atirados contra Barafusta, o alvo da multidão raivosa. Bailando para evitar da melhor maneira os objectos, o filósofo aproveitou um momento de trégua para falar:

 

«Nobre chusma! Perdoai-me se vos ofendi! Supus ser esta uma celebração da morte, daí a minha reacção. O meu nome é Barafusta e sou um teórico do sub-humano. Se quiserdes, explicar-vos-ei um pouco da minha doutrina, que defende...» Numa ordem bovina, o público abandonava já as bancadas quando o filósofo entoava uma litania das massas brutalizadas.

 

«É estranho», lamentou Barafusta, «pensei estar em sintonia com esta gente, mas afinal ainda têm um conceito rudimentar da morte. Porquê matar apenas os touros, porque não morrermos também nós na arena?» Entretanto, reparou que ficara sozinho com o cadáver do matador. «Não te preocupes, amigo, eu vou dar-te um enterro condigno, pois tu, ainda que involuntariamente, mostraste o caminho para o sub-humano.»

 

Assim, o filósofo enterrou o morto no palco dos seus maiores triunfos e do seu derradeiro fracasso. Começara a busca pelo sub-humano.

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