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Zibaldone

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26
Mai17

Augusto dos Anjos

Francisco Freima

Augusto dos Anjos.jpg

O Brasil passa por momentos difíceis, mas nem por isso deixa de ser «o país do futuro». Em agradecimento a tudo o que a cultura brasileira me tem dado (e tem sido muito), hoje escrevo sobre Augusto dos Anjos.

 

Dos melhores sonetistas da língua portuguesa, Augusto dos Anjos foi uma grande influência para mim quando comecei a escrever, talvez a maior a par de Bocage e de Mário de Sá-Carneiro. Os anos afastaram-nos um pouco, é natural que um poeta ao evoluir visite menos os seus mestres, tanto pela lembrança que pretende guardar deles como pelo muito que há a descobrir noutros lados. Eles lá ficam à nossa espera, sabendo que o regresso às origens é inevitável. O Fernando Pessoa dizia que a sua pátria era a língua portuguesa; pois a minha casa é o Eu, um livro que ainda hoje abro como se estivesse a entrar no meu apartamento. Nele encontro sempre aquilo que considero fundamental na poesia: o gosto pelo risco, a integração de novo vocabulário, a musicalidade da rima aliada ao conteúdo original. O Augusto era um poeta único, o estilo dele tem variações soberbas na mesma cadência melancólica, e sempre com algum imprevisto pelo meio.

 

Ao princípio confesso que me irritavam as palavras esdrúxulas que ele punha à minha frente, mas essa mesma irritação dava lugar à curiosidade de saber o significado de «harmatã», «filóstomo», «diatomáceas», «criptógama», «anfióxus», «plastídula», «elipsoidal», «fronetas»... soube depois que algumas derivavam da filosofia e outras, a maior parte, das ciências naturais. Soube também que estava a entrar no mundo de um hipocondríaco, coisa diametralmente avessa ao meu ser, mas que acho engraçado nos outros. Assim, nos primeiros tempos sentia-me como aqueles tenistas que vêem o seu adversário fazer ases atrás de ases no seu jogo de serviço, terminando o dito em branco. À falta de raqueta, geralmente era o dicionário que voava quando Augusto, pela enésima vez, mandava uma palavra esquisitóide do outro lado do texto.

 

Não acreditam? Acham que exagero? Pois bem, fiquem com um poema de Augusto dos Anjos:

 

ALUCINAÇÃO À BEIRA-MAR

 

Um medo de morrer meus pés esfriava.

Noite alta. Ante o telúrico recorte,

Na diuturna discórdia, a equórea coorte

Atordoadoramente ribombava!

 

Eu, ególatra céptico, cismava

Em meu destino!... O vento estava forte

E aquela matemática da Morte

Com os seus números negros, me assombrava!

 

Mas a alga usufrutuária dos oceanos

E os malacopterígios subraquianos

Que um castigo de espécie emudeceu,

 

No eterno horror das convulsões marítimas

Pareciam também corpos de vítimas

Condenadas à Morte, assim como eu!

 

Augusto dos Anjos, Eu e Outras Poesias, p. 97; Martins Fontes

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