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Zibaldone

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25
Nov16

Barreto verde (de inveja)

Francisco Freima

António Barreto.jpgEu sou de esquerda, daquela que em Portugal se convencionou chamar de «esquerda radical» (nos países civilizados chama-se Nova Esquerda), mas que para mim é apenas a esquerda. Logicamente, sou um dos herdeiros do que António Barreto considera serem os derrotados do 25 de Novembro de 1975. 

 

Sendo jovem, esta data não me afecta. E essa é a primeira vitória dos «esquerdistas»: tiveram filhos, criaram uma nova geração pronta a pegar nas bandeiras entretanto caídas. A revolução pode ter terminado há 41 anos, mas a verdade é que os vencedores de ontem são os derrotados de hoje. Essa é a segunda vitória: pela primeira vez, existe um governo de centro-direita dependente do apoio parlamentar de dois partidos de esquerda. O apoio de BE e PCP permitiu aliviar a austeridade, travando cortes nos salários e nas pensões que a PàF já tinha programado para esta legislatura. Hipócritas, hoje criticam os aumentos de miséria. Se continuassem no poder a aplicar a sua cartilha de empobrecimento, chegariam a um ponto em que pura e simplesmente privatizariam a Segurança Social. Que não subsistam dúvidas: a direita quer privatizar tudo. O pacote completo do sonho de Passos Coelho não inclui o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública ou a CGD nas mãos do Estado. Na sua distopia, a Constituição é para rasgar («ainda não temos a Constituição que mais se ajustava às nossas necessidades») e a precariedade é para alastrar. No Portugal de Pedro Passos Coelho, a contratação colectiva será uma vaga memória do passado. A sanha privatizadora, à falta de EDP's e TAP's para alienar, delegará a gestão das prisões a empresas privadas, geridas pelos amigos de sempre. O mesmo sucederá com as forças policiais e as forças armadas.

 

Estes quatro anos representam apenas um tempo roubado ao espírito do tempo. Efectivamente, a esquerda só é vencedora porque pela primeira vez (e na altura mais crítica da história nacional) consegue influenciar alguns aspectos da governação. Estamos a viver numa trégua artificial, proporcionada unicamente pela força do BE e do PCP, contra-poderes que constituem o último reduto na defesa do Estado Social. Sem eles, o povo já teria sido sacrificado no altar da Dívida.

 

Na perspectiva de um revolucionário, vivemos anos importantes. Para mim, chegará a altura em que a longa encruzilhada se tornará insustentável. Se ainda existirem patriotas, chegará o momento em que teremos de escolher entre o capitalismo selvagem proposto pela direita e o socialismo democrático defendido pela esquerda. Na primeira hipótese, ficaremos atolados na dívida durante décadas, as desigualdades persistirão e o capitalismo estratificará de tal modo a sociedade que a mobilidade social será impossível (hoje já temos um vislumbre disso). Na segunda opção, renegociaremos a dívida ou, caso não o permitam, entraremos em incumprimento. O país passará por anos difíceis, empobrecerá muito, mas no fim sairá mais forte ao recuperar a independência e ao depurar a elite político-económica. Sem constrangimentos, o Estado nacionalizará os sectores estratégicos da economia nacional, adoptará políticas de pleno emprego, de proteccionismo industrial, e tornará os ricos mais pobres e os pobres mais ricos. A classe média será a da convergência ideal, passando a única classe. 

 

Quanto a António Barreto, é um traidor que reverteu conquistas da revolução para hoje ser acarinhado pelos poderosos. O seu crime foi o de tantos outros nessa época: não acreditou que era possível mudar o país, teve medo e preferiu aliar-se aos inimigos da revolução. Faz parte de um conjunto de «personalidades» que deviam estar presas ou, no mínimo, a prestarem contas pela dívida actual. De resto, todos os governantes de 1976 a 2015 (e alguns de 2016, repetidos de eras guterristas e socráticas) são directa ou indirectamente responsáveis pelo calamitoso estado das contas nacionais.

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