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Zibaldone

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03
Abr17

Bruneri-Canella

Francisco Freima

Giulia Canella e Mario Bruneri.jpgHoje, escrevo sobre um caso que captou a atenção da Itália no período entre guerras.

 

O Professor Giulio Canella era um homem culto. Nascido numa família abastada, estudara Filosofia e fundara uma revista dedicada à neoescolástica com o seu amigo Agostino Gemelli. Em 1916, vamos encontrá-lo na frente macedónia, onde era capitão de uma companhia de infantaria empenhada na conquista de Bitola. Infelizmente para ele, a sua companhia foi emboscada pelo exército búlgaro. Equipado com metralhadoras, o inimigo dispersou as forças italianas, que no recontro sofreram pesadas baixas. Entre elas estava o capitão Canella, dado como desaparecido em combate, embora alguns dos seus camaradas afiançassem que o tinham visto, gravemente ferido na cabeça, aquando da sua captura pelos búlgaros. Na contra-ofensiva, os italianos recuperaram o território perdido, mas não conseguiram encontrar o corpo de Canella entre os mortos e os feridos.

 

Em 1926, um homem foi apanhado pelo guarda do cemitério judeu de Turim a roubar um vaso de cobre. Ao ser detido pelas autoridades, o larápio não sabia o seu nome nem nada acerca do seu passado. Foi então encaminhado para um hospital psiquiátrico, no qual lhe diagnosticaram um bloqueio mental. Bem-educado e instruído, era visto como um paciente calmo. Entretanto, em Verona, ao ver a foto que ilustrava a notícia deste episódio caricato, Giulia Concetta Canella reconhece o marido desaparecido na I Guerra Mundial. Depois de contactar a direcção do hospital, é autorizada uma reunião entre ela e o paciente 44170. Realizado de forma a parecer um encontro fortuito, o paciente não reconhece Giulia mas esta garante que ele é mesmo o seu marido. No segundo encontro, o paciente diz à equipa médica que se recorda vagamente de Giulia. No terceiro e no quarto começam a surgir recordações mais vívidas, ficando os médicos completamente convencidos de que o homem é o capitão Giulio Canella.

Giulio Canella.jpgEsta história, já de si sensacional, não ficaria por aqui. A cobertura dos jornais ao final feliz do casal Canella prendeu a atenção do público. Poucos dias após a saída de Canella do hospital psiquiátrico, as autoridades receberam uma carta anónima a indicar que o homem era afinal Mario Bruneri. Este Mario era um anarquista bem conhecido da polícia, já que sobre ele pendia um mandado de captura, além do extenso cadastro que tinha como burlão. Convencido de que cometera um erro ao permitir a libertação do homem, o Procurador de Turim ordenou a sua prisão. Chamada a família de Bruneri, foi imediatamente reconhecido pela mulher, Rosa Negro, pelo filho Giuseppino, pelas irmãs e pelo irmão. O Procurador ordenou então que fossem retiradas as impressões digitais do detido e comparadas com aquelas existentes nos registos criminais, onde constavam as de Mario Bruneri. Num primeiro momento, a busca no imenso arquivo provou-se infrutífera, mas da segunda vez as autoridades conseguiram encontrar as impressões de Bruneri. Comparando com as do indivíduo detido, a identificação foi 100% positiva. Tendo dois anos de pena por cumprir, Bruneri foi levado novamente para o hospital psiquiátrico, onde ficou a aguardar julgamento. Quem não se conformava com a decisão era Giulia Canella, que aceitou a oferta de um dos advogados mais famosos da época (Francesco Carnelutti) para defender Bruneri/Canella em tribunal.

 

O caso arrastou-se durante dois anos, tendo a sentença corroborado que o homem era efectivamente Mario Bruneri. Inconformada, Giulia recorreu da decisão, mas em 1931 viu confirmada a sentença aplicada em primeira instância. Durante o período dos julgamentos, Giulia teve três filhos de Mario, e mesmo após o veredicto do tribunal continuou a defender que aquele era o seu marido desaparecido. Enviado para a prisão, Bruneri cumpriu os dois anos de pena. Além da luta em tribunal, Giulia travou outra para registar os três filhos com o apelido Canella. As autoridades italianas recusaram as suas pretensões, pelo que Giulia, cuja família tinha importantes negócios no Brasil, decidiu registá-los em terras de Vera Cruz. 

Mario Bruneri.jpgO escândalo ocasionado por este caso levou a que a família Canella, gorada nova reabertura do processo, partisse em definitivo para o Brasil. Para trás deixavam um país onde as paixões suscitadas pelo debate em torno da identidade de Giulio Canella/Mario Bruneri produzira duas correntes na opinião pública: os brunerianos e os canellianos.

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