Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Zibaldone

Zibaldone

22
Fev17

Camelos e Camelot

Francisco Freima

Mário Centeno.jpgA história em torno da Caixa é ridícula. Nem me vou deter nas peripécias que nos levaram até aqui, à suspensão por tempo indeterminado dos trabalhos da comissão parlamentar. Isso fica para quem gosta de fait-divers. O objectivo desta colocação é outro.

 

Na minha opinião, serei sempre um estrangeiro neste país. Não consigo compreender como é que perdemos tanto tempo a discutir inanidades. O ministro mentiu no Parlamento? Mentiu. É grave? Num país normal, sim; em Portugal, não (para mais informações, consultar a crónica de Eça n' As Farpas, dedicada ao soldado Barnabé). A direita tem razão neste caso? Tem. É ridícula a postura dos seus deputados? É, mas tem justificação: habituados a estarem do lado errado da barricada, embriagaram-se de Verdade. Há umas semanas eram os Perdidos do Passos, agora são os sans-culotte dos Passos Perdidos, a exigirem cabeças e prestes a trocarem os móveis estilo Luís XVI pelos retratos de Robespierre – não me admiraria que no Carnaval fizessem uma recriação da Comuna de Paris.

 

O Bloco de Esquerda ajudou a barrar algumas propostas, como a leitura de sms, quando o protagonista desta história devia ter mostrado as mensagens sem se esconder atrás da maioria. O Mário Centeno foi um mentiroso e um cobarde? Foi. Todavia, também foi o ministro que apresentou o défice mais baixo das últimas décadas. Acontece muito, basta pegar num livro de História: Temístocles foi um comandante excepcional, mas nem por isso deixou de trair Atenas; Dom João II era um paranóico, mas se não o fosse talvez Portugal tivesse perdido mais cedo a dianteira dos Descobrimentos; Estaline era um "assassino", mas é graças a ele que não falamos alemão. No comportamento do Bloco, só tenho a censurar aqueles argumentos do estilo «não devemos falar da Caixa para não desestabilizar», pois essa era a arma de arremesso da direita contra nós, quando falávamos ao arrepio dos mercados. Soa a cinismo.

 

O BE podia ter dado uma de Artur e forçar os visados a exporem os «crimes». Claro que Centeno não é Guinevere, nem Domingues um Lancelote (outro que, tendo traído o seu rei, foi o único capaz de curar Sir Urry). No entanto, o «adultério» poderia muito bem resultar na queda de Centeno. Será que Costa sabia? Não sei. Certo é que, quando soube, Artur decidiu expor o assunto na távola redonda, selando o destino de Camelot ao condenar Guinevere. O Governo «socialista», pejado de seres quadrados, não merece cair pela verdade: merece manter-se pela mentira. Isto para dizer que, num mundo ideal, o BE mandava o Governo abaixo. Olhando ao redor e vendo que Passos seria o sucessor, mais vale deixar o Costa em lume brando. No fundo, é uma guerra do «centrão», da qual o BE só tem de se aproveitar para obter contrapartidas, tais como a reversão de algumas normas do Código do Trabalho ou o apoio da bancada «socialista» a determinados projectos-de-lei.

 

Por isso, obrigado, Centeno: graças a ti, BE e PCP estão em condições de pressionarem mais o PS.

5 comentários

Comentar post

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor