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Zibaldone

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27
Out16

Cemitérios #2

Francisco Freima

Cremação.jpgMal sabia eu que ao escrever sobre os cemitérios estaria a antecipar uma instrução patética do Vaticano. Na sua Ad resurgendum cum Christo, a Igreja argumenta contra as cremações, naquele estilo sonso que a caracteriza. O texto, deplorável a vários níveis, retrata a vileza moral da cúria romana, já que ataca as cremações enquanto dá a entender que não tem nada contra as mesmas. Esta desonestidade intelectual cai por terra com a seguinte indirecta: 

 

A Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, “a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã.

 

Este é o clássico argumento eclesiástico: somos contra, todavia não somos, só que afinal até somos. Ficamos a saber que a Igreja faz juízos de valor sobre as famílias consoante estas decidam enterrar ou cremar os defuntos. Se enterram, são bons católicos, se preferem cremar, são maus cristãos a quem o padre faz o frete de proporcionar uma cerimónia religiosa. Já o «a cremação não é proibida», instrui-nos acerca do santo raciocínio. Poderiam ter escrito «a cremação é legal», mas preferiram colocar o ferrete da proibição na frase, como quem diz: se nos chatearem muito, ainda proibimos essa prática blasfema. Quanto ao «razões contrárias à doutrina cristã», é uma passagem obscura, aclarada mais à frente:

 

Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar.

 

Este argumento, retirado das catacumbas medievais, esconde o verdadeiro motivo porque a Igreja não gosta das cinzas. Será esta a verdadeira razão?:

 

Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne, e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história.

 

Hum, nem por isso, a não ser que a fé na ressurreição da carne seja um rito panteísta que privilegia o corpo em detrimento da alma (é o que faz ao colocá-lo num plano de igualdade). Mais à frente, temos uma farpa à filosofia platónica, quando se ataca a concepção dos que vêem na morte «a libertação definitiva da "prisão" do corpo». Ou seja, nesta pequena oração a Santa Sé manda às urtigas o edifício teológico construído sob as fundações do mestre grego. À cautela, pedia ao bibliotecário do Vaticano para retirar desse local as obras de Plotino e de Santo Agostinho, pois arriscam-se a ir parar ao Index ou a serem cremadas...

 

Depois, o texto lá aponta as razões pelas quais as cinzas (prática mal vista mas tolerada) devem ficar em lugares sagrados:

 

A conservação das cinzas num lugar sagrado pode contribuir para que não se corra o risco de afastar os defuntos da oração e da recordação dos parentes e da comunidade cristã.

 

Tradução: no «lugar sagrado» os fiéis pagam para terem as cinzas lá, enquanto que se forem espalhadas rebentam-nos com o negócio. É por isso que também preferimos os enterros. Entre pagar um talhão no cemitério, o enterro, o levantamento das ossadas e a conservação das mesmas nos gavetões, o fiel tem a certeza de que é depenado, que alimenta a parasitagem da padralhada e que fica bem visto aos olhos do rebanho. Em suma, torna-se num cordeiro pascal.

 

Invocar Cristo nessa palhaçada revela como os «vendilhões do Templo» necessitam de umas valentes chicotadas em nome do Pai, do Filho e dos Espírito Santo, que, ao pé destes senhores, são uns anjinhos.

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