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Zibaldone

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12
Set16

Classe medíocre

Francisco Freima

Assunção Cristas e outros dirigentes do PP Lusa.Ultimamente, o CDS parece uma fábrica de gafes políticas. Diria mesmo que os directores de campanha «decapitados» por Donald Trump na sua corrida à Casa Branca foram pedir asilo ao Largo do Caldas... senão, como explicar tantos tiros nos pés?

 

Primeiro, foi o «caso MPLA». Depois, foi a incompreensível cruzada do IMI. Agora, é a defesa da «classe média», esse unicórnio ainda a aguardar definição. Realmente, o que é a classe média? Quem faz parte dela? Se formos por uma média simplista, entre o homem mais rico de Portugal (Américo Amorim) e o mais pobre (um qualquer sem-abrigo), verificamos que um elemento da classe média deveria ter uma fortuna avaliada em 1,55 mil milhões de euros (a de Amorim vale 3,1 mil milhões). Como não quero passar por demagogo, vou aos números do PIB per capita: o ano passado, estima-se que rondaram os 22.243 PPS (Purchasing Power Standard, em português Paridade de Poder de Compra Padrão). Nesse mesmo ano, o rendimento médio das famílias com crianças dependentes foi de 10.810 PPS. Penso, e esta é a opinião de um leigo, que a mítica classe média teria de ter um rendimento próximo do valor per capita. Não tem. Fica até bastante longe: 11.433 PPS separam o valor do PIB per capita do rendimento médio das famílias com crianças a cargo. Ou seja, a riqueza em Portugal está tão mal distribuída (por alguma razão somos o 7º país mais desigual na UE) que a própria diferença (11.433) é superior em 623 PPS ao rendimento de uma família com crianças a cargo (10.810).

 

Resumindo, e para não vos maçar mais com números, em Portugal não existe classe média. Pelo menos no sentido lato do termo, porque entre um pobre e um miserável pode sempre existir alguém no meio... O que temos cada vez mais é uma sociedade polarizada entre uma minoria rica e uma maioria pobre, arbitrada por um Estado incapaz de redistribuir a riqueza produzida pela economia nacional, pois metade do rendimento potencial da «classe média» entra nos bolsos dos donos disto tudo, tornando-a classe baixa. Se o CDS quer ser o paladino de alguém, que o seja então da classe baixa. É que nem classe média-baixa temos, temos unicamente classe alta e uma classe baixa que se desdobra também em classe baixa-baixa.

 

Daí que Assunção Cristas falhe o essencial quando afirma que «ter mais de 50 000 euros numa conta bancária não é ser rico». Efectivamente, 50 000 euros no banco não fazem de ninguém rico: uma herança ou o aforro ao longo de uma vida podem explicar esse valor. No entanto, 50 000 euros multiplicados por dezenas de contas no nome de uma mesma pessoa levantam suspeitas. Existe inversão do ónus da prova? Existe. Mas, numa situação excepcional, em que boa parte da população passa por dificuldades económicas, quem é que se vai opor à vontade do fisco em «espiolhar» essas contas? Ninguém, a não ser quem tenha algo a esconder. 

 

Os tempos mudaram, o sigilo bancário deve acompanhar essa evolução. Infelizmente, já não vivemos numa era em que os negócios se fecham com um simples aperto de mão. A digitalização tornou as identidades flutuantes e facilitou a circulação de capitais entre os mais diversos actores da economia global. Por isso, o problema não está tanto no levantamento do sigilo bancário, mas sim no combate à evasão fiscal. Só o sucesso nessa frente permitirá um alívio da carga tributária que esmaga a população. Quem se diz defensor da classe média tem o dever de exigir a reposição de rendimentos perdidos nos interstícios da economia e do aparelho estatal. A palavra-chave aqui é economia, já que o CDS só se mostra lesto no ataque à burocracia do Estado, quando também deveria apontar baterias aos seus «amigos» empresários, promotores de desigualdades salariais injustificáveis.

 

Só quando 70% do PIB per capita estiver nas mãos de cada um de nós teremos um assomo de classe média.

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