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Zibaldone

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19
Dez16

Classificação das escolas

Francisco Freima

Ranking.pngclassificação das escolas é um instrumento útil, mas não pelas razões indicadas. Para mim, o que está ali plasmado é um mapa da desigualdade.

 

Feitas as ressalvas, comecemos a desconstruir mitos. O primeiro deles, a «excelência do ensino privado»: se olharmos para os resultados sem ter nenhuma consciência do que se passa no terreno, efectivamente é assim: as privadas ganham de goleada às públicas. No entanto, há um pormenor que os rankings não mostram e que vicia toda a análise: enquanto as privadas podem escolher os alunos, as públicas não têm esse poder. Isto para dizer que não é a mesma coisa partir para um ano lectivo em que a maioria da nossa turma é uma colecção de repetentes vários, delinquentes ocasionais e uns pouquíssimos bons alunos, ou partir apenas com bons alunos que logo se tornam excelentes. Depois, existe certa prática que faz das escolas públicas o depósito daqueles alunos que as privadas põem de parte, para não afectarem as suas preciosas médias. Ou isso, ou passarem pelo vexame de irem a exame como alunos externos, um modelo pedagógico que consiste em chamar indirectamente burro a quem não tem aproveitamento. Era normal ver no 9º e no 12º ano esses novos colegas, prontos a afundarem mais as públicas na mediocridade. Também, o que é que o director podia fazer? Nada. E aí está outra diferença entre públicas e privadas - nas públicas recebem-se todos de braços abertos, até os «anjos caídos» do privado. Agora o contrário... só de pensar no Euclides que furava bolas de futebol com a navalha e o Adérito que se dedicava a gamar o dinheiro dos putos, fico com vontade de rir. Imaginá-los no Externato Escravas Sagrado Coração de Jesus ou na Saint Peter's School lembra o filme Demolition Man. Bastaria um destes Simon Phoenix para lançar o caos no mundo perfeitamente ordenado das escolas privadas. Exemplo: tive um colega que se chateou com uma professora por não querer tirar o boné. Foi expulso da aula, mas antes de sair virou a mesa ao contrário e atirou a cadeira para a rua (estávamos no 1º andar). Pelo caminho, foi dirigindo impropérios à prof (detestada pela turma inteira). Sendo na altura putos parvos, achámos que ele tinha sido um ganda boss. Escusado dizer, a prof ficou lívida e não houve mais aula, apenas queixas dela contra o «selvagem».

 

Continuando: sei que estamos na época propícia a isso, mas eu não acredito no Pai Natal. Por muito que digam que os exames são confidenciais, que os professores correctores não sabem quais são as escolas, isso é uma treta. Admito que não saibam especificamente o nome do aluno e da escola, mas de certeza que sabem se é do privado ou do público. Aqui, funciona a lógica do futebol: os privados são os grandes, na dúvida inflacionam as notas deles para não terem chatices; já os alunos do público, mesmo que façam uma prova tão boa como um do privado, arriscam-se sempre a ter pior nota, mais não seja pelo inconsciente posto a trabalhar. Como disse, é exactamente o que acontece no futebol, onde na dúvida assinala-se o penálti a favor do grande, enquanto que se for para a equipa pequena tem de ser demasiado evidente.

 

Falando da minha escola, a Secundária da Amora ficou nos lugares 1085 e 389 (9º e 12º ano, respectivamente). É mau? Não, é péssimo. Mas quem faria melhor? É verdade que as instalações da escola são hoje melhores do que eram quando andei por lá. No entanto, continuam a receber o mesmo tipo de alunos. Lembro-me que no meu primeiro dia de aulas no 7º ano aproveitámos o intervalo para ir jogar à bola. Ainda fazia calor, pelo que quando voltámos fomos a uma das casas-de-banho para nos refrescarmos. E o que é que encontramos no lavatório? Umas quantas seringas. Ficámos depois a saber que atrás dos pavilhões vendiam droga. Duvido que um miúdo de 12 anos veja estas coisas no privado, além dos roubos e das brigas que acabam em ajustes de contas na rua, longe dos olhares de professores e auxiliares. Um dos meus melhores amigos, que adorava estudar, foi espancado à porta de casa quando andava no 8º ano. A partir daí nunca mais foi o mesmo. Chegou ao 9º, mas depois reprovou e logo a seguir abandonou os estudos. Isto para dizer que há uns anos atrás algumas escolas eram a selva, hoje em dia suponho que tenham melhorado, embora alguns destes problemas persistam. Num dia normal, um aluno do público está sujeito a uma pressão muito maior do que aquela vivenciada por outro do privado. Pode ser espancado, roubado, aliciado para consumir drogas, deixar-se arrastar pelas más influências, passando a ir lá só passear os livros. Depois há o contexto familiar, que é o que costuma diferenciar os bons dos maus alunos no público. Felizmente, tive sorte nesse aspecto.

 

A única coisa boa é que amadurecemos mais depressa, tornamo-nos streetwise . E ganhamos um sentido de justiça implacável.

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