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Zibaldone

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26
Jun17

Dar à língua

Francisco Freima

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Na sua última crónica no Diário de Notícias, Joel Neto escreve sobre os riscos que o português enfrenta num mundo onde a língua inglesa vai abrindo as portas da globalização. Sendo eu membro da «suposta tropa de elite de uma língua», há muito que vou temendo a dispersão dos nossos pela anglofonia mais informe.

 

Os Portugueses são demasiado subservientes quando o assunto é o estrangeiro. Se há coisa que eu admiro nos espanhóis é a sua pouca propensão para falarem na língua dos outros. Mesmo que estejam a comunicar em inglês, o donaire deles mantém-se intacto perante a estupefacção (e não raro a risota) dos nossos compatriotas. Os lusófonos acabam invariavelmente a lamentar nuestros hermanos, deplorando a sua pouca capacidade para a aprendizagem de outras línguas e o crime perpetrado pelas televisões espanholas, que em vez de legendarem preferem dobrar tudo o que vem do estrangeiro. Se neste último aspecto concordo com os nossos, o «ridículo» de quem pronuncia o inglês à castelhana não me aflige. Até porque convoca a velha oposição entre o português de Portugal e o do Brasil, o julgamento dos outros não por aquilo que estão a dizer, mas pela forma como o dizem. Somos muito dados ao acessório e, polémicas à parte, confesso que gosto mais da pronúncia brasileira.

 

Como vencer a batalha da língua? Na minha opinião, o poder está nas mãos dos artistas. Na música, por exemplo, temos tendência a ouvir canções que em português seriam consideradas pirosas. Há quem diga ser defeito da «última flor do Lácio», mas para mim é condicionamento mental e uma falta de bom gosto que se colou à memória colectiva, sob a forma do «pimba». Quanto aos escritores, o desafio passa também pela desconstrução do português como língua demasiado pesada para certos registos, nomeadamente o erótico. Além disso, torna-se necessário recuperar a capacidade de adaptar palavras estrangeiras. A vaga tecnológica trouxe o software, o smartphone, os gadgets... é preciso encontrar formas de superar este embrutecimento, um idioma tão rico como o nosso tem de ser capaz de encontrar soluções para a sua dependência do inglês.

 

De outro modo, continuaremos a ser uns parolos deslumbrados, que publicam citações em inglês no Facebook e acham-se muito modernos. Não somos, apenas repercutimos na actualidade a medieva fórmula da língua franca. Com a agravante de o inglês, ao contrário do latim, não ter nada a ver com o português.

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