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Zibaldone

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13
Mar17

Desassalariado

Francisco Freima

Eu sei que o termo correcto é desempregado, mas nunca gostei dele. Lembra-me a expressão «sem emprego nenhum», no sentido de algo ou alguém inútil. Uma pessoa pode estar «desempregada» e estar tão ou mais ocupada do que uma que recebe salário. Geralmente, é esse o meu caso: entre a procura de emprego, as tarefas domésticas, a actividade política e o blogue, pouco tempo sobra para outras coisas. Agora que concluí o curso de Noções de Protecção Civil, com direito a estágio na Câmara Municipal de Almada, estou a pensar voltar ao voluntariado.

 

O principal problema dos desassalariados é o constante adiamento de objectivos, a vida torna-se numa gigantesca forma de enriquecer o currículo até a crise passar. Por exemplo, quando me vi no desemprego pela primeira vez tinha acabado de terminar a licenciatura. Jovem inconsciente, pensei que arranjaria logo trabalho, embora dois anos antes (2007) tivesse rebentado a crise do subprime. Entrar no mercado de trabalho na pior altura teve o resultado previsto: não consegui arranjar nada e fui tirar a carta de condução. Como a crise agudizava-se, decidi ir para mestrado em 2010. Concluída a tese em 2012, entrei novamente no mercado. Prestei provas para o exército, chumbei nos exames médicos (miopia). Pouco depois, arranjei trabalho como comissionista, a vender porta-a-porta. Ganhava mal, era um trabalho bastante ingrato, no qual não me sentia bem. A melhor recordação que guardo foi o de me ter permitido conhecer Carlos Gomes Júnior e de lhe ter pregado um susto de morte: ele abriu a porta, eu reconheci-o e ele já se fazia de todas as cores quando comecei a minha arenga de vendedor (penso que receou que eu fosse um sicário ). No final, consegui vender o serviço e desejei boa sorte ao PAIGC. Decidi então seguir o conselho de um Secretário de Estado da altura: saí da «zona de conforto» (salvo seja) e fui fazer um voluntariado na Roménia, onde trabalhava com famílias roma. Regressando a Portugal em 2014, estive um ano sem emprego, até ao momento em que voltei a ser comissionista, desta feita numa imobiliária. Este foi o sítio onde mais gostei de trabalhar, mas o retorno era pouco, pelo que passei a ser tradutor de inglês. Uns meses depois, o inevitável aconteceu: a empresa faliu. Mais uns meses de sequeiro e lá fui eu em Junho de 2016 para o curso de Noções de Protecção Civil. Acabou agora, a 2 de Março. 

 

Todos os dias dou graças por não estar comprometido e por não ter filhos. Seria muito mau, caso estivesse na mesma situação e com o ónus de uma relação ou de criar um ser indefeso ao sabor da actual conjuntura económica. As notícias sobre a queda do desemprego também não me iludem: entre desempregados, estagiários, estudantes contrariados, comissionistas sem salário-base e trabalhadores com um único part-time, a percentagem andaria pelos 30%. Cada vez mais, Portugal é um país faz-de-conta, um país onde a semântica cifra a realidade.

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