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Zibaldone

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23
Jan17

Desconcertação social

Francisco Freima

Bulls.jpgAo início da noite, um carro em contra-mão aparecia a subir pela Alexandre Herculano. O homem que dele saía era nem mais nem menos do que Pedro Nuno Santos, que minutos antes, num assomo de gabarolice, gritava ao motorista: «Vá pela esquerda. O PS não precisa, nunca mais, da direita para conduzir!» À sua espera, de cenho franzido e armas aperradas, estavam os seus padrinhos: um sujeito sinistro que só falava em bofetadas prometidas no século passado, e uma criatura que trazia uns bois atrás, depois de os ter arrematado numa feira de gado – estranhamente, reparei que estes bovinos, em vez do onomatopaico MUUUUU, mugiam TSUUUUU. Junto a eles vinha também uma ovelhinha extraviada.

 

Entretanto, Francisco Assis aparecia no campo de mira, vindo do Sol ao Rato. E vinha mesmo do Sol: horas antes, estivera na redacção deste coio de direitistas, arrastando com ele Sebastião Bugalho e indo buscar Sérgio Sousa Pinto à Fonte Luminosa. Ao chegar, não cumprimentou ninguém, passando o homem das bofetadas a falar:

 

–O senhor chamou apparatchik estalinista de segunda categoria ao nosso amigo. Retracta-se, temos duelo ou leva um par de bofetadas?

 

–Temos duelo.

 

–Muito bem – disse o homem da feira, que logo retirou as armas do pescoço de dois bois, duas pistolas que serviam de badalo ao património imaterial da humanidade, também conhecido por chocalhos. Pegando nelas, declarou:

 

–Já sabem: cada um dá dez passos em linha recta e só depois dispara. Como o ofendido foi o nosso amigo, ele terá direito à primeira tentativa. Enquanto um dos duelistas dispara, o outro não se pode mover. Concordam com estes termos?

 

–Concordamos.

 

Os dois socialistas começaram então, costa contra Costa, a contarem os passos até ao primeiro tiro. Sempre precoce, Assis não cumpriu os termos acordados. Ainda ia Pedro no segundo passo, já ele gritava «Abaixo o Governo!», virava-se e disparava um tiro bastante inclinado para a direita. 

 

–MUUUUUUUUUUUUU! – o som, de uma pungente bestialidade, ecoou por todo o largo. Alguns cidadãos acordaram e foram às varandas. «Que se passa, querido?», perguntou uma mulher ao marido, repentinamente desperta das tardes sonhadas com o amante. «Nada, apenas um boi que ficou ferido».

 

Caído no chão, com as fauces congestionadas pelas dores no lombo, António Saraiva expelia um mugido triste e cheio de chorosas recriminações. O duelo ficou então sem efeito, já que os dois socialistas acorreram ao sítio para tratar do patrão da CIP.

 

–Já viste, já viste o que fizeste?..

 

–Eu sei, Pedrinho, desculpa, desculpa, não foi por mal! Desculpe, dr. António Saraiva! Ah, o que eu fui fazer, disparar sobre o patrão dos patrões!

 

Vendo o outro sinceramente arrependido, Pedrinho Nuninho Santinho abraçou Francisco Assis, que entre tanto sofrimento já via aparecer no corpo as chagas de Cristo. «Deixa lá, não foi nada, não foi nada», repetia. Com um sorriso bovino, Saraiva abarcava a cena. O outro ruminante, João Vieira Lopes, lambia o corpo do amigo ferido e culpava os parceiros dos socialistas por aquele desastre: «CDUUUUU, CDUUUUU!», bramia ele. A ovelhinha extraviada secundava-o e (coisa estranha!) em vez de balir o meh habitual, berrava: «BEEEEE, BEEEEE, BEEEEE!» Mais tarde fiquei a saber que esta ovelhinha negra, lanuda e ranhosa, chamava-se Teodora Cardoso.

 

Já me havia decidido a retomar a marcha, quando, a completar a reconciliação, apareceu Alegre a dizer que tínhamos todos de ser amigos. Confesso que fiquei desconcertado.

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