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Zibaldone

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29
Jun17

Destinos

Francisco Freima

A vida tem muito que se lhe diga: uns falam com ela durante anos sem perceberem as respostas que vão encontrando, outros nem falam, limitam-se a ouvir o momento certo para actuarem de acordo com aquilo que são. Uns passam cobardemente, vidinhas de amanuenses nos seus empregos das 9 às 17:00, outros aceitam a poeira da estrada como o melhor de um mundo onde ninguém tem lugar. Uns fazem filhos com a ilusão de perpetuarem a descendência, outros tentam mudar o Homem através da arte. O fracasso é a causa comum que todos abraçam.

 

De todos os ramos do saber, a filosofia continua a ser a mais importante. Pode não garantir empregos, pode até ser vista como resistência passiva, um bando de teóricos que se limitam à alquimia gramatical... para mim, filósofo nem precisa de ter lido nada, basta que a sua vida corresponda àquilo que defende. Se me perguntarem por Portugal, posso dizer que este não é um país de filósofos. Todos enchem a boca com excelentes princípios, todos defendem ideais sublimes, mas nenhum dispõe-se a arriscar o que quer que seja. Acham-se demasiado importantes para serem «carne para canhão», amam o povo mas preferem situar o trajecto das massas pelas esquinas dos seus cérebros. Desprezo teóricos puros, pois eles são as mais puras inanidades.

 

No amor somos merceeiros. Contamos os tostões de uma vida a dois, a maior parte das vezes nem é amor, apenas medo da solidão. Partilham-se casas, carros e contas, os casais cumprem os rituais da pós-modernidade, achando-se os maiores quando falham um deles. Pode ser o São Valentim, a lua-de-mel nas Caraíbas ou as juras de amor via Facebook... no resto, são tão ridículos como os outros, até mais, porque não preenchem totalmente o lugar-comum. Entrevejo o vazio na aparente diferença, um buraco negro nas suas almas estropiadas. 

 

Os sonhadores são aqueles que levam uma vida total, que marcam intensamente o percurso com as escolhas que fazem diariamente. Hoje são esquecidos, é próprio de certas épocas esquecerem aqueles que foram um exemplo incómodo... afinal o que se quer é a padronização. Uma peça mais desalinhada na máquina compromete a produção dos alinhados futuros. Em Portugal, como já escrevi, esse risco não existe: todos muito ciosos da sua «dignidade», todos muito solidários para a foto, todos imbecilizados nos cargos que ocupam. Sonhos fugazes de pessoas, espectros que nem uma nota de rodapé merecem nos álbuns de família: «este foi X, ocupou o cargo Y, casou-se com Z e teve A, que se juntou com B, que teve C, que X colocou em D... nada fizeram de substantivo.» 

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