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Zibaldone

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10
Jun17

Dia do padrinho

Francisco Freima

O meu padrinho chamava-se Carlos e era de Valença do Minho. Foi, a par do meu pai, a presença masculina que mais me marcou na infância. O meu pai e o meu padrinho eram os melhores amigos. Tanto que abriram dois restaurantes, um ao lado do outro. Para o meu padrinho, eu era como se fosse seu filho. Até porque o dele vivia longe e ele não se dava com a mãe. Era a única coisa que o meu pai censurava no meu padrinho: como podia ser tão dedicado a uma criança que não era filho dele em vez de puxar mais o seu para junto dele? Ninguém sabia, nem eu sei explicar isso. Entre mim e o meu padrinho havia uma relação igual à do meu pai comigo. 

 

O meu padrinho nem era meu padrinho. A minha mãe prometera à sua melhor amiga que ela seria a minha madrinha quando eu nascesse. A melhor amiga da minha mãe era covfefe, o marido dela era covfefe também. O meu padrinho não o foi no baptismo, nem sei se podia ser, visto que não era casado com a mulher dele. Não importa: depois da «cerimónia» fomos ter com ele. E eu disse-lhe que ele é que era o meu padrinho. A partir daí fiquei descansado, porque ele sabia que era mesmo o meu padrinho.

 

Quando entrava no restaurante do meu padrinho, ele pegava-me ao colo e fazia de mim o centro das atenções: «O Chico é uma máquina!», dizia. Enquanto fui pequeno e sentava-me em listas telefónicas, tinha sempre carrinhos com os quais pudesse brincar. O meu padrinho tirava também as espinhas do meu peixe antes de sair da cozinha. Quando já era crescido, o prato continuou a ser o mesmo: dourada grelhada com batata cozida. Escusado dizer, não consigo comer douradas sem me lembrar do meu padrinho. No café do meu padrinho surgiu outro fenómeno: numa máquina de tirar peluches, o meu pai sacou um urso ranhoso. Apesar disso, quando chegou a casa deu-mo. De todos os peluches que tive (e eu tive dezenas deles), foi o único que se tornou meu companheiro inseparável. Nunca ninguém percebeu essa amizade, ainda hoje os meus pais riem-se e contam que me deram inúmeros peluches mais bonitos do que aquele Sr. Ursinho. A verdade é que ainda hoje o Sr. Ursinho está no meu quarto. Quando o vejo lembro-me do meu padrinho.

 

A paixão do meu padrinho era o Benfica. Uma das últimas vezes que fui ver um jogo com ele foi no velho Estádio da Luz, contra o Dínamo de Bucareste. O Enke deu um frango e chovia demasiado para Setembro. Perto do fim não havia vivalma em redor, mas isso não impedia o meu padrinho de gritar: «Vamos lá, pessoal, se marcarmos ainda aquecemos as meias!» Se adoro a chuva é por causa do meu padrinho, da coragem de me levar mais para a frente quando o resto debandava, e da alegria dele apesar da derrota. Foi o meu padrinho que me fez sócio do Benfica.

No meu último aniversário com ele, o meu padrinho levou-me ao Estádio da Luz. Almoçámos no Ponto Vermelho e falámos sobre a vida. Deu-me conselhos. Nesse dia estava estranho... Passámos depois numa clínica onde foi buscar os resultados de umas análises. O meu padrinho fumava muito. De regresso à Margem Sul, vinha triste. Em Dezembro desse ano, o meu padrinho morreu. No final dessa época, o Benfica fez a pior classificação da sua história.

 

Se fosse vivo, o meu padrinho faria hoje 63 anos.

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