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Zibaldone

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22
Jun17

Do futuro até O'Neill

Francisco Freima

Alexandre O'Neill.jpg

Tenho pensado muito no futuro, tanto a nível pessoal como do mundo em geral. Não com aquela angústia que costuma perpassar as pessoas quando estão infelizes, mas com a curiosidade que temos quando somos crianças. Lembro-me de andar na primária e imaginar-me nas idades que vou tendo agora. Por mais parvo que possa parecer, via-me sempre como um janota vestido à século XIX, de bengala na mão e chapéu de coco na cabeça. Da parafernália anacrónica, a única que resistiu foi o relógio de bolso, o tal Molnija que era do meu pai e passou para mim.

 

Quanto ao futuro do mundo, os devaneios deslizam distraídos, como as bolas de sabão que sopro a partir da janela do meu quarto. Mas há sempre essa vontade de ligar o futuro distante com o passado, aquele em que imagino os humanos a criarem espaço a partir do nada, os tais humanos com uma cabeça do tamanho daquela insuflada em A Arte de Viver, do René Magritte, e eu a abotoar-me ao chapéu de O Filho do Homem... depois dói-me a cabeça, ponho um cobertor no chão e imagino que estou na corte de Al-Mu'tamid, as mulheres são gazelas, o vinho um rio de rubis a cair em cascatas desde as estantes...

 

Abro um livro ao calhas, Alexandre O'Neill compartilha da minha curiosidade em relação ao que aí vem:

 

AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER

 

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

 

Alexandre O'Neill, Poesias Completas, p. 290; Assírio & Alvim

 

O O'Neill é um dos meus preferidos, se houve alguém que conseguiu aproximar o público da poesia, esse alguém foi ele. Mesmo os poemas que parecem datados, como aquele sobre o gás engarrafado, transportam críticas que ainda hoje ecoam no espírito de qualquer pessoa que não se reveja nos «baladeiros audazes». Nesses e naqueles que pretendem ser «escritores a tempo inteiro». Sobre o soneto aqui colocado, acertou em muito: menos horas de trabalho, relações mais libertas (pese o surgimento da Sida pelo meio), a tendência para computarmos tudo, a excelização do mundo, a recolha exaustiva de informação «sem perfurar demais» a memória... Até o ponto e vírgula da segunda quadra parece antecipar os emojis, neste caso o piscar do olho ao amor ;)

 

Amanhã escrevo sobre O'Neill e as bicicletas.

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