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Zibaldone

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11
Out16

Dois

Francisco Freima

A crítica costuma considerar As Quatro Estações o melhor álbum da Legião Urbana, mas eu sempre gostei mais do Dois. O segundo trabalho da banda trouxe uma colecção de músicas maravilhosas, autênticas poesias cantadas num rock intimista, nos antípodas do que viria a seguir (Que País É Este).

 

O Dois começa com um spin-off, a transmissão fragmentada do hino da Internacional Socialista e da música Será, que fora um dos maiores sucessos do primeiro álbum. No entanto, Daniel na Cova dos Leões anuncia o novo rock lusófono: letras profundamente poéticas e arranjos simples que se fundem na perfeição com as palavras. A genialidade de Renato Russo transforma esta canção num enredo de metáforas extraordinárias («teu corpo é meu espelho e em ti navego, eu sei que a tua correnteza não tem direcção»). A seguir vem Quase Sem Querer, cuja força reside no refrão:

 

Já não me preocupo se eu não sei porquê,
Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê,
E eu sei que você sabe quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

 

A forma como estes versos são cantados equilibram a música, dando-lhe um ar baladeiro que será aprofundado em Eduardo e Mónica, a saga de duas pessoas opostas, mas que se completam que nem «feijão com arroz». A concisão de Renato é surpreendente, em menos de cinco minutos conta-nos a bonita história dos dois enamorados. 

 

Pelo meio, porém, está a minha música preferida, Acrilic on Canvas. A letra é a mais bela que já ouvi em português, uma metáfora sombria sobre o amor não-correspondido pintado numa tela. O fim atinge a perfeição, «amor-perfeito» remete para a natureza-morta da relação inexistente. A seguir temos um interlúdio, Central do Brasil. Retemperadas as forças, chegamos a Tempo Perdido, outra obra-prima onde a efemeridade preside às inquietações do narrador durante boa parte da música, ao descrever uma relação. Perto do final, canta o amor atemporal de duas pessoas «distantes de tudo».

 

O lado B do álbum inicia-se com Metrópole, uma crítica bastante actual ao jornalismo sensacionalista. Esta música vai beber às raízes punk da banda, tal como Plantas Embaixo do Aquário, que, num registo mais suave, complementa Metrópole. No seguimento, Música Urbana retrata o cinzentismo da periferia. Um narrador indiferente descreve de forma crua o quadro desolador das favelas e dos bairros pobres, tornando-se a canção num exercício irónico de amoralidade, pois todo o mal é absorvido e transformado em música urbana. Andrea Doria mantém a toada acústica e a lírica sibilina, que ainda hoje faz em água as cabeças dos que nela procuram o rasto do navio naufragado. Já a música Fábrica é declaradamente política. Quando a oiço, associo-a logo ao Massacre de Volta Redonda, ocorrido dois anos depois do lançamento de Dois, quando a greve dos operários da Companhia Siderúrgica Nacional foi violentamente reprimida pelo Exército e pela Polícia Militar. Por último, Índios, escrita durante uma fase negra da vida de Renato, funde a sua angústia existencial com a denúncia do colonialismo. A letra atinge novo ponto de excelência, a metamorfose metafórica apela a uma juventude que se sente a ser massacrada por ser inocente. 

 

Depois deste álbum, a Legião Urbana seria justamente considerada a melhor banda brasileira de todos os tempos. 

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