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Zibaldone

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10
Ago16

Dum Dum

Francisco Freima

Em 1991, a Jugoslávia era um barril de pólvora pronto a explodir. O XIV Congresso da Liga dos Comunistas, realizado no ano anterior, tinha colocado a nu as dissensões no seio das diferentes delegações nacionais. Tudo começara com a subida de Slobodan Milosevic ao poder, um populista que rapidamente aproveitou os conflitos entre sérvios e albaneses no Kosovo para incentivar o nacionalismo sérvio. À medida que este recrudescia, Milosevic ia colocando os seus «homens de mão» nos governos locais do Kosovo, da Vojvodina e do Montenegro. Esta situação irritou as outras nações, tendo então sido organizado um congresso extraordinário para resolver as disputas. Mas em vez de propor compromissos, Milosevic minou o sistema de votação, ao defender um voto por pessoa. Como a Sérvia tinha na mão os votos dos delegados do Kosovo, da Vojvodina e do Montenegro, os eslovenos recusaram, abandonando pouco depois o congresso. Quando Milosevic tentou retomar os trabalhos, os croatas opuseram-se, afirmando que não continuariam sem os eslovenos. O líder sérvio não levou a ameaça a sério, mas a verdade é que os croatas abandonaram mesmo a reunião quando esta recomeçou. Depois dos croatas, seguir-se-iam as saídas das delegações da Macedónia e da Bósnia-Herzegovina. A guerra começaria no Verão de 1991.

 

Entretanto, na Primavera desse ano, os Ekatarina Velika lançaram Dum Dum (Bang Bang). Considerado o seu álbum mais sombrio, reflecte as angústias de um país preso por um fio. Novamente, os EKV criaram uma obra-prima num contexto extremamente difícil. O mundo onde tinham crescido estava prestes a ruir, mas estes jovens, que só queriam fazer música, não se deixavam intimidar. Escritas inteiramente por Milan Mladenovic, as letras elevariam o pessimismo a uma arte do desespero. Os principais destaques vão para Dum Dum, Siguran e Zabranjujem. A primeira tem uma significativa carga política, pois parece ter como destinatário Milosevic, homem sedento de poder, pronto a disparar nas costas dos seus adversários, desde que isso lhe garantisse a chegada aos centros de decisão. Numa época em que Milosevic era endeusado na Sérvia, os EKV fizeram o mais difícil: ficarem ao lado da minoria na denúncia do ditador. A segunda música do álbum, Siguran (Seguro), é mais serena e subjectiva, trata das dúvidas existenciais das pessoas numa relação, os silêncios expressos nas palavras que se dizem, mas que escondem o seu verdadeiro significado. A última que escolhi, Zabranjujem (Proíbo), é novamente dirigida a Milosevic. Bastante emotivo no seu veemente manifesto, Milan quer proibir que o sonho jugoslavo acabe devido à traição do líder sérvio, apenas interessado na sua sobrevivência política. Pelo contrário, Milan tem já os olhos no futuro, sonha com uma Jugoslávia pós-comunista, aludindo à queda do muro de Berlim na letra, ao cantar que a besta está a morrer. Pese essa morte, o cantor teme que a inveja e a loucura dos dirigentes mergulhe o país no caos, reafirmando porém que esse não pode ser o fim.

 

Infelizmente, seria mesmo assim.

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