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Zibaldone

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15
Out16

É outro orçamento

Francisco Freima

Foto de António Cotrim Agência Lusa.jpgO folhetim Dylan continua. Para já, o cantor norte-americano é o único à altura nesta história: não comenta nem responde à Academia Sueca, ansiosa de o ver em Estocolmo para ter os seus quinze minutos de fama. Adorava mesmo que os deixasse pendurados.

 

Por cá, o Governo anunciou o valor atribuído à Cultura: 454,7 milhões de euros, dos quais 239,8 serão espatifados em RTP e afins (Antena 1, Antena 2, Antena 3...). Sobram 214,9 milhões para museus, teatros, bolsas, internacionalização... pelo meio, a RTP lá contribui com uns trocos para o cinema português. A taxa do audiovisual aumentou, mas o sorvedouro da estação pública permanece intacto: salários milionários, qualidade duvidosa e prejuízos atrás de prejuízos seriam o suficiente para reduzir o «serviço público» a um canal. Em Portugal, não: aumenta-se a taxa do audiovisual. 

 

E que dizer dos 214,9 milhões, o verdadeiro orçamento da Cultura? Que é manifestamente insuficiente, além de espelhar a desigualdade entre actividades culturais. Esta desigualdade, fomentada pelo capitalismo através do seu «braço armado» (os media), evidencia o campo inclinado no terreno das artes. Do pouco dinheiro alocado à Cultura, quase nenhum é dirigido à literatura. Enquanto a música beneficia de toda a publicidade possível, os escritores não conseguem divulgar as suas obras. As próprias editoras de livros têm bastante menos poder que as suas congéneres musicais, capazes de marcar a agenda mediática através do lançamento de novos álbuns, de entrevistas ou de concertos. Do lado oposto, raramente vemos um escritor na TV, sobretudo os poetas. Quantas vezes vimos um poeta a apresentar um novo livro em horário nobre? Eu nunca vi, os mais conhecidos (Daniel Jonas, António Barahona, Fernando Echevarría) mal conseguem furar o alinhamento de uma página de jornal, quanto mais de uma televisão nacional!

 

Daí que o Nobel entregue a Bob Dylan seja injusto, porque ele beneficia de condições para a promoção da sua obra que nenhum escritor tem. Assim, torna-se impossível competir. De um lado, temos músicos a gozarem de todo o tempo de antena e a ganharem rios de dinheiro com os seus álbuns/concertos; do outro, temos escritores ostracizados pelos media, tendo a maioria de pagar à sua editora para verem a obra publicada, obra essa que costuma redundar em prejuízo (quando podia dar lucro). Novamente, a poesia consegue ser ainda pior, porque todos falam nas pretensas qualidades poéticas das letras dos cançonetistas, mas ninguém se digna a comprar um livro para ver o que é poesia. Poderia resumir-se a uma questão de gosto, só que aí reside o problema (e a hipocrisia): se gostam das letras pelas suas qualidades poéticas, mais depressa gostariam dos poemas. 

 

O pior (quase me deu vontade de rir) foi ouvir pessoas «Não-Gosto-de-Poesia» a aplaudirem este Nobel, defendendo o alargamento da definição! Decidam-se: se poesia e música são a mesma coisa, sejam coerentes e comprem uns livros de Shakespeare ou de Pessoa. 

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