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Zibaldone

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24
Abr17

Eleições em França

Francisco Freima

foto Le Temps.jpgCom a passagem à segunda volta de Emmanuel Macron e Marine Le Pen, a França dá um eloquente exemplo da crise que assola as fileiras sociais-democratas e democratas-cristãs na Europa. Tanto o Partido Socialista como Les Républicains saem muito mal desta história, sendo os principais derrotados da campanha.

 

Quanto aos vencedores, posso dizer que um não me entusiasma e que a outra só merece sentimentos de repulsa. O discurso do ódio de Marine Le Pen anda a prometer há alguns anos uma tragédia eleitoral – quem não se lembra da segunda volta entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen? Recordo que esta dinâmica ultra-conservadora não começou ontem, as suas origens remontam pelo menos às primárias norte-americanas de 1992, quando Pat Buchanan ia conseguindo a nomeação republicana contra o presidente da altura, o cinzento George H. W. Bush.

 

Ainda assim, se fosse um eleitor francês votaria em Emmanuel Macron. Mesmo não me entusiasmando, pior do que a Le Pen não será. Desconfio de pessoas que não se dizem de esquerda nem de direita, costumo ver nisso uma forma politicamente correcta de captar os votos do eleitorado hostil. É o caso de Macron, O Camaleónico. As projecções dão-lhe a vitória na segunda volta, mas eu gosto de ser prudente. Nunca subestimo ninguém, mesmo na realidade portuguesa, partidos como o MRPP ou o PNR merecem sempre a minha atenção, por mais delirantes que sejam os seus programas. Para mim, a política dos nossos tempos é como estar às escuras numa casa estranha: podemos colocar a mão numa maçaneta, mas dificilmente saberemos que porta estamos a abrir. Pelos vistos, os Franceses vão abrir a de Macron. O meu receio é que no fundo da sala, escondida a um canto, Marine Le Pen materialize o fantasma que os eleitores preparam-se para exorcizar a 7 de Maio.

 

O liberalismo macroniano terá grandes desafios pela frente. O primeiro será as eleições para a Assembleia Nacional: não tendo actualmente partido (mas sendo um antigo filiado do Partido Socialista), a presidência de Macron ficará muito marcada pela coabitação com o primeiro-ministro que venha a sair da nova correlação de forças na câmara baixa. O segundo será a sua definição enquanto político. Não basta dizer que não se é de esquerda nem de direita: a partir do momento em que comece a tomar decisões, logo se verá o que é o macronismo. Eu não tenho dúvidas: trata-se de liberalismo económico e pragmatismo político. Por exemplo, Macron é favorável ao acolhimento de refugiados. Não porque sinta particular interesse pelo tema, apenas vê naqueles que são qualificados uma forma de ter mão-de-obra competente e barata. Os outros que se lixem. Ironicamente, este homem que diz ter superado a lógica esquerda-direita é o mesmo que dentro dos seus axiomas vive numa incoerência. Ser liberal na economia até pode representar o progresso, mas ser politicamente pragmático denuncia um conservador. 

 

Sobre a União Europeia, nem vale a pena dizer nada. Depois da desilusão Hollande, o melhor é esperar para ver se continua com o mesmo discurso após a visita a Berlim. Pessoalmente, não acredito na refundação do projecto europeu, nem sequer que o eixo franco-alemão volte a ter por base uma relação entre iguais. Se Macron conseguir o último destes milagres, já será melhor do que o antecessor. De resto, caberá a ele e ao seu interlocutor alemão (espero que seja Martin Schulz) a tarefa de reformularem a União Europeia. 

 

Numa última nota, os meus parabéns a Jean-Luc Mélenchon. No meio de tantas trevas, foi a única luz a brilhar e a erguer bem alto os valores da trindade revolucionária: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

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