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Zibaldone

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19
Nov16

Eleições na Gâmbia

Francisco Freima

Adama Barrow.jpgO início da campanha eleitoral na Gâmbia, destinada a eleger o presidente daquele país, arrancou da pior maneira: três jornalistas foram presos na última semana. A 8 de Novembro, a polícia prendeu o director-geral da rádio e televisão gambiana, Momodou Sabbally, juntamente com um seu colega (Bakary Fatty). No dia 10, foi a vez de Alhagie Manka, um fotojornalista que trabalha para os media independentes. 

 

Sem acusação formal, os três detidos aguardam pelo julgamento ou pela libertação. Entretanto, a Human Rights Watch tem denunciado este caso, referindo que o presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, está a utilizar as detenções arbitrárias como forma de condicionamento da imprensa e da oposição, liderada por Adama Barry. À frente dos destinos da Gâmbia desde 1994, Jammeh subiu ao poder na sequência de um golpe de Estado contra Dawda Jawara, um político notável a vários níveis. Desde logo, porque conseguiu manter-se no poder durante 24 anos sem nunca recorrer a fraudes eleitorais. Antes da sua última recandidatura, nas eleições de 1992, Jawara manifestou a vontade de não se recandidatar. O povo, porém, temendo que o país se tornasse numa típica ditadura africana, convenceu o presidente, elegendo-o com 56% dos votos. 

 

Os mandatos de Jawara não foram fáceis. Primeiro-ministro nos últimos anos da administração britânica, logrou uma transição pacífica rumo à independência, em 1970. Os primeiros anos como presidente foram bastante difíceis e a 29 de Julho de 1981 houve uma tentativa de golpe por parte do Sanyang's Socialist and Revolutionary Labour Party (SRLP), liderado por Kukoi Samba. No início da década de 80, a Gâmbia passou por dificuldades financeiras, levando a juventude a engrossar as fileiras do SRLP, um movimento de esquerda que prometia reformas económicas e o combate à corrupção. Nunca atingindo o nível endémico registado noutros países africanos, a corrupção começava a grassar entre as elites político-económicas do país. Da tentativa de golpe resultaram cerca de 800 mortos e o pedido de auxílio militar ao Senegal, que enviou 2 700 soldados para sufocar a revolta.

 

Este acontecimento marcaria o resto da presidência de Jawara. Apesar de ter mantido as liberdades individuais, o líder gambiano passou a recear a tomada do poder através da violência. Virou-se então para o aliado senegalês, tendo no presidente Abdou Diouf um interlocutor privilegiado. A crescente cooperação entre os dois países levou à criação da confederação Senegâmbia (1982-1989). Durante a vigência da Senegâmbia, Diouf foi o presidente da confederação e Jawara o seu vice-presidente. Curiosamente, uma das medidas mais emblemáticas da confederação foi a criação de um exército comum, exército que seria um foco de desestabilização política após o fim da Senegâmbia. Antes da confederação, a Gâmbia, encravada entre o Atlântico e o Senegal, quase não tinha forças armadas. A tentativa de golpe uniu conjunturalmente os dois países, já que o governo senegalês temia que a rebelião alastrasse ao seu território. Essa situação seria catastrófica numa altura em que as forças armadas senegalesas tinham escaramuças frequentes com as suas congéneres mauritanas. Quando a ameaça perdeu premência, as divergências quanto às políticas económicas a adoptar ditaram o fim da Senegâmbia: basicamente, o Senegal queria impor uma pauta aduaneira à Gâmbia, de forma a limitar o contrabando de produtos agrícolas para o outro lado da fronteira - a Gâmbia tinha uma economia aberta, pagando pelos produtos logo após a entrega, enquanto que no Senegal os agricultores demoravam cerca de três meses a receberem o dinheiro.

Mapa da Gâmbia.pngApós o fim da confederação, o governo gambiano começou a sentir dificuldades para manter a ordem. Além de ter perdido o contingente senegalês, os soldados gambianos mostravam-se sedentos de protagonismo. A vida política tornou-se volátil, e nem um negociador hábil como Jawara impediu os eventos que precipitariam o golpe de Estado de 1994. Daí em diante, a Gâmbia teria como seu dono e senhor o actual presidente, Yahya Jammeh. 

 

O próximo dia 1 de Dezembro deveria marcar o fim da ditadura. Infelizmente, tudo aponta para que a fraude eleitoral determine nova vitória de Jammeh. Boa sorte a Adama Barrow e à UDP (United Democratic Party) 

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