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Zibaldone

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08
Out16

Estado da nação

Francisco Freima

Aclamação D. Manuel II.jpgInquieta-me o futuro do país. Às vezes fico a pensar se a minha geração estará à altura dos desafios que tem pela frente. Como não me deixo amarrar por preconceitos, dou muitas vezes comigo a pensar no que faria Sá Carneiro se fosse vivo. E quando digo Sá Carneiro, digo Mouzinho de Albuquerque, D. Pedro V, Manuel Fernandes Tomás, Luís de Vasconcelos e Sousa, Jerónimo Osório, D. João II, Rui de Sousa... homens cujo conselho valeria ouro nestes tempos conturbados.

 

Temos uma dívida impagável. Impagável nos dois sentidos, por ser impossível de a pagar e de apagar da equação para o desenvolvimento. Nem me vou deter aqui nas culpas de quem criou o monstro, a hora é tão grave que isso deveria ser mais matéria do foro judicial do que arma de arremesso político. Estamos num buraco. As futuras gerações estão hipotecadas, a menos que nos concentremos em arranjar uma solução. À direita repugna a ideia de renegociar a dívida, à esquerda exaspera a liberalização da economia. A direita chama caloteiros aos que pensam no perdão parcial da dívida, a esquerda retribui e destrata os que defendem menos Estado. 

 

Ninguém quer dar o braço a torcer, os pactos de regime são chutados para canto, porque (convenhamos) existem inúmeros fanáticos à esquerda e à direita. Falta-nos compromisso, existe uma mentalidade de terra queimada, de «revogaste a minha lei, agora revogo eu a tua». Não faz sentido recuarmos em matérias de direitos humanos, como também não faz sentido mudarmos o paradigma da Educação a cada legislatura. Incrivelmente, o único pacto em vigor parece ser o do aumento de impostos, os governos aproveitam sempre as medidas impopulares dos anteriores e assobiam para o lado quando na oposição criticavam essas mesmas leis. Chegam ao poder, não há dinheiro, escalam a carga contributiva. Olhamos para o umbigo e não vemos que uma política fiscal coerente deveria ser gizada a nível comunitário, mas sem servilismos, apenas com o bom senso necessário para impedir a fuga de capitais. No fundo, é a lei do fora-de-jogo: basta um defesa atrasado para pôr toda a equipa em risco, basta um país manter os offshores para todos perderem dinheiro.

 

A nível de política externa, somos desastrosos. Acabámos de eleger um político para o mais alto cargo da diplomacia internacional, mas não temos um plano, uma ideia, um vector... navegamos à vista, entre a vocação atlântica e a continentalidade. Os cenários são lúgubres: o atlantismo remete-nos para a função de porteiros de Angola e do Brasil na Europa; na União, perante a pátria inércia, tentam fazer de nós uma Florida dos países ricos. Entretanto, a «geração mais preparada» anda pelo estrangeiro a lavar pratos, a tratar de doentes ou a projectar e construir os edifícios dos outros. A CPLP está morta, não existe uma política da língua, e quando há é para assumir acordos aberrantes em vez de se concentrar na expansão dos leitorados. A nossa voz na UE perde-se e não se encontra nos discursos dos países da mesma dimensão que a nossa... onde está o aprofundamento das relações com a Bélgica, a Holanda, a Estónia, a Letónia, a República Checa, o Chipre ou a Croácia? Essa é a nossa Europa.

 

A população envelhece, a juventude envilece no país das cunhas, do amiguismo feito «rede de contactos». Premiamos a desigualdade, protegemos assassinos de mulheres, promovemos uma Justiça fechada em si mesma, preocupada apenas com a verdade processual, codificando leis sem descodificar o seu espírito. Reina a escolástica nos tribunais.

 

Não temos modelo de desenvolvimento, não temos política externa, não temos Justiça. Estamos a morrer e ninguém quer saber. 

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