Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Zibaldone

Zibaldone

24
Dez16

Estado de emergência

Francisco Freima

Protestos Etiópia.jpgNa Etiópia, o longo estado de emergência decretado pelo governo está a abrir grandes fissuras na unidade nacional. Resumindo a história, a 9 de Outubro o governo decretou o estado de emergência por seis meses, estendendo os poderes das forças policiais até ao limite. A internet móvel foi cortada, as manifestações foram proibidas, as redes sociais foram bloqueadas e a maioria dos órgãos de comunicação social independentes foram fechados. A Etiópia tornou-se numa espécie de Coreia do Norte africana, onde qualquer cidadão pode ser preso a qualquer momento. Recentemente, o governo anunciou a libertação de 9 800 detidos, embora tenha adiantado que outros 2 449 seriam julgados. Há três dias atrás, os detidos começaram a regressar a casa e a contar as suas histórias.

 

O testemunho de Alemayehu Merga (nome fictício) tem comovido todos aqueles que leram a reportagem no Addis Standard. Numa carta enviada à redacção do jornal, o bancário descreve como foi apanhado de surpresa pelos protestos enquanto organizava o seu casamento. Foram esses planos que o levaram até Adis Abeba, a capital do país. No rescaldo das manifestações, as autoridades lançaram uma forte contra-ofensiva, ordenando então aos hotéis para entregarem uma lista com os nomes de todos os seus hóspedes vindos da província. A 10 de Setembro, Alemayehu foi preso:

 

«Eu vim de Awash até Adis Abeba para comprar alguns utensílios domésticos e para ir buscar o meu fato de casamento, que já estava pronto, a uma alfaiataria em Piassa. No entanto, fui preso no dia 10 de Setembro.»

 

Seguindo o texto da reportagem, Alemayehu ficou preso numa esquadra da polícia, onde esteve um mês impedido de estabelecer qualquer contacto com o exterior. Escusado dizer, falhou o casamento:

 

«Disse sempre aos polícias que estava na cidade a fazer apenas os preparativos para o meu casamento, mas eles diziam-me sempre que eu estava em Adis Abeba para organizar os protestos da juventude. Eu tinha alguns convites que estava a planear entregar aos meus amigos e familiares na cidade. Nunca cheguei a entregá-los, uma vez que fui preso no dia logo a seguir ao da minha chegada. E mesmo continuando a mostrar estes convites aos polícias, ninguém quis acreditar em mim.»

 

Enquanto Alemayehu permanecia detido em Adis Abeba, a repressão mantinha a sua intensidade. Milhares de pessoas foram parar aos calabouços da polícia, tendo outras sido barbaramente assassinadas. No dia 12 de Outubro, três dias depois da declaração do estado de emergência, Alemayehu foi transportando, juntamente com cerca de 2 000 outros detidos, para a base militar de Awash Abra, não muito longe da sua terra – de referir que na Etiópia existem dezenas de bases militares que servem como campos de concentração. Novamente, Alemayehu escreve:

 

«Ninguém da minha família, incluindo a minha noiva, sabia que eu estava lá. (...) Uma vez dentro da base, foi-nos dito que iríamos ser sujeitos a uma formação ideológica sobre o actual acordo federal e que iríamos ser instruídos acerca das ilegalidades dos protestos.» 

 

No início, os detidos eram 3 000, mas depressa chegaram a 6 000, tendo sido informados que só ficariam lá durante duas semanas. Sobre as condições de vida, o nosso amigo diz:

 

«O calor é insuportável durante o dia, e à noite as temperaturas descem até um frio glaciar. Havia apenas uma refeição por dia (muitas vezes pão) e os barracões temporários onde fomos colocados não tinham água canalizada, casas-de-banho e lugares onde dormir. Algures em meados de Outubro, espalhou-se o que parecia ser um surto de cólera. Vimos inúmeros cadáveres a serem retirados da base durante a noite.»

 

A pretensa formação não começou na altura prevista. Na carta, Alemayehu conta que ainda assim dezenas de pessoas eram chamadas todas as noites para investigações, que se traduziam em autênticas sessões de tortura. Quando a formação começou, os conteúdos resumiam-se a longos sermões ministrados pelos oficiais do exército, que glorificavam o papel de Meles Zenawi e do seu partido, o TPLF (Frente de Libertação do Povo do Tigré) no derrube da junta militar comunista Derg, que governou o território entre 1974 e 1987. Contemplava também o ensino da cartilha económica do TPLF e das definições de federalismo e de multipartidarismo. Ainda assim:

 

«Mas na maioria das vezes, sentávamo-nos apenas ali à torreira do sol, cheios de fome e sede, à espera que os oficiais chegassem. Às vezes, ninguém aparecia e diziam-nos para regressarmos aos barracões e voltarmos na manhã seguinte. Mas eu nunca queria ver o dia de amanhã. Tudo o que eu queria era morrer e terminar com o meu sofrimento.»

 

A saída deste inferno é uma história comum a tantas outras:

 

«Um polícia que me conhecia e sabia qual era o meu trabalho em Awash, viu-me por lá. (...) Depois do que eu penso ter sido a tentativa deste polícia em me ajudar, fui chamado um dia de manhã e disseram-me para arrumar as minhas coisas e preparar-me. Haveria um carro pronto para levar-me até Adama. E foi isto; ninguém a quem pedir justiça, ninguém a quem pedir uma carta para entregar à minha entidade patronal, nada.»

 

Regressando a Awash, as más notícias sucedem-se: o banco onde trabalhava recusou reintegrá-lo, alegando «motivos administrativos» e a sua noiva desapareceu sem deixar rasto:

 

«Tal como eu, ninguém sabe onde ela está agora. Disseram-me que depois do meu desaparecimento ela debatia-se com a hipótese de eu a ter abandonado. A última vez que a viram na cidade, onde ela estava a viver com familiares, foi no dia 13 de Outubro. Depois disso, desapareceu simplesmente; é como se nunca tivesse existido.»

 

Actualmente desempregado e à procura da noiva desaparecida, a história de Alemayehu mostra a volatilidade da vida num país onde a política está a cargo de irresponsáveis. Espero que reencontre a felicidade 

Antiguidades

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Bloguista

foto do autor