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Zibaldone

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05
Jul16

Eu sou sensivelmente idiota

Francisco Freima

Só ontem me apercebi que existe uma polémica em torno de uma crónica humorística de Diogo Faro – é o que dá não ter Facebook... Pelo que li na Visão, algumas pessoas ficaram melindradas com certas passagens, nomeadamente esta: 

 

As ninhadas de betos são sempre muito grandes e, mesmo que muitas vezes saia uma cria com trissomia 21 por causa da consanguinidade (os betos têm muito a mania de se comerem entre primos direitos), é muito raro as mães afogarem-nos à nascença. Aliás, nestes meios até fica bem. Ficam ótimos nas fotos e dão imenso jeito para a autopromoção da família nas revistas sociais.

 

Não consigo perceber a razão de tanta polémica. O Diogo Faro limitou-se a escrever uma piada com a qual alguns podem rir ou não. Entretanto, foi lavrado o respectivo auto-de-fé, um hábito português que tarda em desaparecer (afinal, Antero sempre tinha razão quanto às causas da nossa decadência...). É incrível como nos levamos demasiado a sério e fazemos de tudo uma cruzada pessoal contra a subjectividade do Outro. Para mim, nesta história o que me chocou foi ler a seguinte passagem no texto-resposta de Francisca Prieto:

 

Defendo há muito tempo que não há fronteiras para o humor, excepto as do nível da graça. Ou seja, podemos fazer humor sobre aquilo que bem nos apetecer (sim, mesmo sobre o Menino Jesus ou a Madre Teresa ou os paralíticos do deserto), mas se nos atrevemos a levar o humor para temas extremos, é bom que a piadola seja mesmo hilariante. Não pode ser só uma graçola palerma.

 

A formulação «não há fronteiras para o humor, excepto as do nível da graça» constitui em si uma barreira. Nível da graça... e quem é que define isso? Eu, por exemplo, achei engraçado – no mundo idealizado por Francisca Prieto isso colocar-me-ia à margem da lei? Com todo o respeito, até por ser mãe de uma criança com trissomia 21, limitar a liberdade de expressão parece-me perigoso. As piadas podem ou não ter graça, aliás, existem piadas das quais ninguém se ri e nem por isso deixam de ser piadas... secas. Se nos vamos pôr a definir o que tem ou não tem graça, vamos chegar a situações deste género: em 11 milhões de habitantes, 10.999.999 detestam a piada do humorista X. O próprio humorista X, que a escreveu, detesta-a, mas não tinha mais nada a apresentar e saiu-lhe aquilo. No entanto, uma pessoa fartou-se de rir com ela. E agora? Temos 99,999999999999% a dizer que não tem graça e 0,000000000001% a defender que tem – a democracia não é o respeito pelas minorias?

 

Considero que Francisca Prieto tem direito a expor a sua opinião, mas penso que lhe falta distanciamento e não gosto que defenda a limitação da liberdade dos outros em fazerem as piadas que bem entendem. No entanto, se pensa assim, força. Eu cá estarei para defender as graças, mesmo quando não lhes ache gracinha nenhuma.

 

Voltemos à Grécia Antiga e aprendamos com eles: Aristófanes está neste momento no palco a representar uma sátira da sua autoria, em que o principal visado é Cléon, o todo-poderoso strategos autokrator ateniense, antigo curtidor de peles (uma espécie de Cavaco Silva da altura). Nas bancadas do anfiteatro, Cléon aplaude e ri-se da sua caricatura (à semelhança do que fizera Sócrates quando As Nuvens foi encenada). No final do espectáculo, dirige-se tranquilamente ao tribunal e coloca um processo a Aristófanes por difamação. Isso sim, é ser boss. Ora se os gregos já aceitavam níveis absurdos de liberdade, não poderemos nós tolerar doses ainda maiores? Dou-vos a liberdade para reflectirem sobre a vossa resposta.

 

A minha é «faz o que tu queres, pois é tudo da lei!»

 

Toca Raul!, viva Alesteir Crowley! 

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