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Zibaldone

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16
Jul16

Eurocepticismo

Francisco Freima

EU OUT.jpgSer eurocéptico equivale a sofrer de uma doença chamada racismo. As pessoas olham para nós como se fossemos apoiantes de Nigel Farage, quando é precisamente o contrário: se o fenómeno do racismo e da xenofobia tem crescido, parte da culpa terá de ser atribuída à União Europeia, pela forma como nunca conseguiu ouvir as populações. A UE está a colher as tempestades que semeou.

 

Quando dizem que a UE é um projecto único na história, que nunca se tinha visto países abdicarem de forma pacífica da sua soberania para entrarem numa federação, eu pergunto: então e a União Ibérica? Salvo uma resistência marginal de D. António, na Batalha de Alcântara, Portugal apoiou o projecto, tal como Aragão já havia apoiado. Sintomaticamente, foram os nobres os grandes defensores da ideia, tal como hoje é o status quo a defender a permanência na UE. Andando pela rua, facilmente se percebe que o povo está cada vez mais desiludido com a União, as suas regras, burocracias, sanções, contradições. Nada fere mais o sentido de justiça do que ver Juncker afirmar que a França é a França, e por isso não deve sofrer sanções, enquanto Portugal, país pequeno e periférico, tem de viver com essa espada de Dâmocles a pender sobre o orçamento.

 

Mas mais do que essa aberrante União Ibérica, a UE lembra o Império Romano na sua fase decadente. Rodeada de bárbaros, como Putin e Erdogan, os líderes europeus lá vão transigindo, da mesma forma que Roma transigia com Átila, pagando aos hunos para que não os atacassem - agora pagamos a Erdogan para os refugiados não entrarem nas nossas fronteiras. 

 

Outro ponto que os europeístas costumam avançar é o do fim das guerras europeias. Mesmo tendo a boa fé necessária para não declarar que desde o fim da II Guerra Mundial já existiram duas guerras na Europa (Guerras dos Balcãs e a Guerra Civil da Ucrânia), por terem sido fora do espaço comunitário, a verdade é outra: as guerras terminaram porque entrámos na era nuclear. Que eu saiba, o Japão não faz parte da UE. No entanto, desde o fim da II Guerra Mundial deixou de querer dominar a Ásia e o Pacífico. Voltando às Guerras dos Balcãs, o que se viu foi a Alemanha, então recentemente unificada, promover o conflito na Federação Jugoslava. Está provado que os alemães estiveram por detrás das secessões eslovena e croata (curiosamente, ambos os países aderiram à UE, ao contrário da Sérvia, castigada até hoje...). Agora, com o «Brexit», o eixo franco-alemão deve patrocinar as independências da Irlanda do Norte e da Escócia. E punir o Reino Unido, claro. 

 

Outra machadada no «fim das guerras» é a participação de Estados-Membros da UE na Guerra Civil do Líbano, na Guerra das Malvinas, na Guerra do Kosovo, na invasão do Afeganistão, nas I e II Guerras do Golfo, no bombardeamento da Líbia e, mais recentemente, da Síria. Grandes pacifistas...

 

Por último, o argumento do desenvolvimento. Também aqui, o sofisma reside na ocultação de factores bem mais importantes para o crescimento português: não foram tanto os fundos comunitários que propulsionaram o nosso crescimento, foi a nossa competitividade, derivada do controlo sobre a política monetária. Basta observarmos as taxas de crescimento anémico desde a década de 2000, que coincide com a adesão ao Euro. Aliada à entrada da China na Organização Mundial do Comércio, foi o golpe de misericórdia na economia: sem controlo da moeda, ficámos sem os instrumentos que garantiam a nossa sobrevivência num mundo globalizado. Um país pobre com moeda de rico deu o resultado previsto: endividamento, pouca competitividade, carestia. Quando o FMI aterrou em Portugal no início da década de 80, tínhamos uma dívida externa que representava 35% do PIB. No regresso, em 2011, a dívida escalara para os 108,2%. Vendo o day after dos «ajustamentos», temos isto:

 

Portugal 1985

 

Taxa de crescimento: 1,64%

Taxa de desemprego: 8,5%

Dívida pública: 52%

 

Portugal 2015

 

Taxa de crescimento: 1,48%

Taxa de desemprego: 12,4%

Dívida pública: 128,7%

 

Crescimento praticamente igual, mas menos desemprego e muito menos dívida (foi em meados dos anos 80 que ela começou a crescer). Posteriormente, o período de 2000-2008 marcaria o descalabro das contas públicas, com a entrada no Euro. Ou seja, os políticos do «centrão», com a cumplicidade da UE, endividaram-nos. O crédito fácil foi a maneira que os líderes europeus arranjaram de garantirem a subserviência eterna das repúblicas subdesenvolvidas do sul. Em 1986, tínhamos doze anos de democracia, a Espanha, onze. No ano da sua adesão (1981), a Grécia tinha saído há sete anos da ditadura dos coronéis. Como é que estes países podiam tomar decisões conscientes, quando nem sequer as populações foram ouvidas em referendo? Já diz o povo: o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Assim tem sido a história dos países mediterrânicos na UE.

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